JÁ OUVIU? + ENTREVISTA | Conheça Antes Que Só Um Quase, novo trabalho da banda NÃ

Com 16 faixas, o álbum traz novas instrumentações e sonoridades, capazes de dialogar com as letras reflexivas e críticas, somadas às vozes ferozes das vocalistas e participações de artistas como Alessandra Leão, Maurício Takara e Valério.

     NÃ é Bjanka Vijunas (voz), Fernanda Broggi (voz), Thiago Pereira (double bass/sintetizador), Renato Ribeiro (guitarra/violão), Júlio Dreads (percussão/efeitos/samples/sintetizador), Thiago Babalu (bateria) e Micha (guitarra/voz). Lançaram seu primeiro disco, Farpa, em 2016. Dois anos depois, retornam com Antes Que Só Um Quase, que mantém as referências sonoras múltiplas alinhadas a coros polifônicos, improvisações e textos fisolóficos do primeiro, porém, agora, junta esses elementos à ideia de "canção", produzida no calor das horas dos até então improváveis retrocessos sofridos no campo da política e da cultura.

 

"Antes que só um quase” é o segundo disco da banda NÃ. O álbum parte em busca de um lugar possível, território de afetos democráticos, estabelecendo narrativas que instauram o desejo de um mundo por vir. A tessitura de vozes que se mesclam em texturas descontínuas, múltiplas referências sonoras, sobreposição de ritmos e conteúdos críticos, cria uma paisagem dançante e singular. Voltados para Guimarães Rosa e Itamar Assumpção enquanto fontes possíveis de inspiração, sete corpos em processos de aprendizagem põem em movimento a indagação, a dúvida, a incerteza.

 

 

São 2 anos pós-Farpa. Depois desse tempo, como Antes Que Só Um Quase chega para vocês? Algo mudou na NÃ após a experiência de um primeiro disco?

Thiago Pereira – A Nã surgiu no processo de construção e gravação do Farpa, antes dele alguns integrantes nunca tinham se visto. Assim, esses dois anos do primeiro álbum serviram para que a banda se conhecesse melhor, não só musicalmente, cada um percebendo as potências criativas dos outros, mas também afetivamente. Tocar como banda independente, com todas as mazelas inerentes, gerou uma série de situações e colocou questões para a banda que resultaram em alianças e desavenças dentro do grupo. Este segundo álbum é uma reflexão sobre essa curta história. Nos ensaios e conversas, Michel, quem compôs as letras desse novo disco, contava que muitas das letras ele interpretava como uma reflexão sobre as relações existentes dentro da banda. O disco Antes Que Só Um Quase é pra gente uma possibilidade de observar nossa caminhada, é uma referência material para que pensemos com viemos até aqui e como seguiremos.

 

Farpa, como o próprio nome induz, sugere algo incômodo e traz letras que abordam críticas sociais. Os acontecimentos político-sociais no Brasil entre esses anos influíram de alguma forma as composições para o novo álbum?

TP – O Farpa marcava um posicionamento, e fazia isso com as críticas. Porém, sentimos que as relações políticas atualmente se cristalizaram exatamente na defesa de posicionamentos, o que não gerou um debate, mas a formação de ilhas sem comunicação. Em vez da sonhada e distante formulação de respostas aos problemas que vivemos, temos grupos que procuram atrair seguidores por meio de discursos vazios e grandiosos, na promessa de um futuro pautado pelo que naturalizam como certo. Frente a essa rigidez de posicionamentos, a esse imobilismo das grandes forças políticas, e também resultado do que experienciamos nas relações dentro da banda, Antes Que Só Um Quase sugere um passo pro lado, uma movimentação não belicosa, nem um ataque nem uma defesa, mas uma esquiva, uma abertura, mas uma outra perspectiva. Um passo pro lado é abrir uma possibilidade, é gerar movimento, sair da inação desse jogo de cartas marcadas que cria a ilusão de um progresso rumo a uma mudança milagrosa, mas que apenas  garante a continuação do bom funcionamento da máquina política exploratória. A reflexão surge como ação, não como pausa.


Como é fazer música não-comercial no Brasil, mesmo o trabalho de vocês sendo uma sonoridade caracteristicamente nacional? Fazer um som que vai contra o "colonialismo intelectual racialmente motivado" é uma forma de resistência?

TP – Não é que a nossa música seja "não-comercial", como se isso fosse uma característica da música, mas a banda não tem espaço no mercado, por isso ela não é comercial, nosso som não gera interesse no capital porque não temos um público rentável, não conseguimos girar dinheiro em torno do nosso trabalho. Isso é uma dificuldade, pois exige que o investimento que fazemos na banda venha de outros trabalhos, já que a própria banda não consegue se bancar. O resultado é que muitas vezes o trabalho artístico fica subordinado aos nossos trabalhos no mercado, não conseguimos depositar toda a energia que queríamos, pois já chegamos esgotados. Tocar um som que vai contra esse processo de distinção  gerido nos meios culturais é uma resistência e também nossa forma de sobrevivência. Não conseguimos fazer um som como os que tocam no mercado, é uma questão do que cada um de nós leva para o que faz, de acordo com o que cada um é.  Se fazemos um forró, a referência pode ser Gonzaga, Falamansa, mas a soma do que cada integrante traz, cria uma música que não se aproxima nem de Gonzaga, nem de Falamansa. Uma reflexão interessante que Michel trouxe em alguma conversa é que não há espaço no mercado, e por isso é preciso criar esse espaço. Mais uma vez, é dar um passo pro lado, criar uma possibilidade, inventar um talvez, pois não há certeza de que nada disso resultará em algo.

 

A NÃ é formada por duas mulheres e cinco homens. Para as meninas, Bjanka e Fernanda, como é ser mulher num projeto majoritariamente masculino? E como é esse ser-mulher num ambiente como o cenário musical independente?

Bjanka Vijunas – Me parece difícil ser mulher em qualquer espaço da cultura  masculina, talvez isso seja algo em comum para todas nós. Acho que não temos mais tempo de tolerar convivências que marquem desigualdades de acesso à voz e à propostas. A estratégia é muitas vezes o embate com os colegas para elucidar os problemas e tentar achar maneiras para amenizar essas situações no convívio de banda. No cenário musical, a dificuldade é talvez e, não à toa, a mesma. Nós cantoras, nos vemos obrigadas a muitos tipos de afirmação,  que passam por uso de imagem, sexualização. Isso começou na era do rádio, já com as cantoras populares brasileiras. A criação de musas, por exemplo. Mas nenhuma transformação na forma como se vê as mulheres e sua representação na sociedade. E isso é muito forte ainda hoje, e esse é nosso maior desafio. Eu acredito que a forma canção já possibilita a vocalização e a interpretação, que podem criar espaços outros de auto-representação que nem sempre estão ligados à performance pura, bela, agradável. É ir usando essa possibilidade também do desagradável sonoro, pra tentar, na forma, dizer como a gente é, de onde falamos, sobre o que falamos,  o que não aceitamos e  criar outros lugares na representação.

Fernanda Broggi – Admiro muito artisticamente cada integrante da Nã e sou muito grata por poder lançar e tocar esse segundo disco com pessoas que acho tão fodas musicalmente. Me sinto muito feliz e honrada como pessoa por cantar as composições de Michel ao lado de Julio Dreads, Renato Ribeiro, Thiago Babalu, Bjanka Vijunas e Thiago Pereira. Tenho bastante orgulho do nosso trampo e dos frutos dele, o primeiro álbum Farpa e agora, o segundo, Antes que só um quase. 

Como a Bjanka falou, a realidade das mulheres, tanto no meio artístico como em outros meios de trabalho é marcada por uma desigualdade histórica em relação aos homens. Na banda Nã, percebo que nosso público é majoritariamente feminino e imagino que isso ocorra por termos duas mulheres como vocalistas. Acho que rola uma identificação e que essas mulheres que nos ouvem possivelmente sentem-se representadas pelo fato de eu e Bjanka estarmos ali no front, nos shows. Algumas minas já me disseram que rolava até uma motivação para começarem ou voltarem a tocar e cantar. Eu realmente não imaginava que poderíamos gerar esse tipo de movimento e acho que esse, até hoje, foi um dos retornos mais importantes que tivemos em quase quatro anos de banda.

 

Finalizando, o disco novo estreia hoje (30), inclusive nas plataformas digitais. O que o ouvinte pode esperar de Antes Que Só Um Quase?

TP – Um álbum que difere do Farpa em sonoridade e proposta, que se põe num lugar de reflexão e que elucida um pouco mais quem somos.

Quem escreveu
Vivian Fernandes

 

ver mais
Comentários
Postagens relacionadas
Shows relacionados
POPLOAD FESTIVAL 2018
15/11/2018 - 11:00 hs
Memorial da América Latina
R$180 a
R$750
comprar
POPLOAD FESTIVAL 2018
Z FESTIVAL 2018
14/10/2018 - 14:00 hs
Allianz Parque
R$110 a
R$600
comprar
Z FESTIVAL 2018
JOÃO BOSCO
12/10/2018 - 18:00 hs
até 14/10/2018 - 18:00 hs
SESC 24 de Maio
JOÃO BOSCO
KLEITON & KLEDIR
12/10/2018 - 21:30 hs
até 13/10/2018 - 21:30 hs
Tupi or not Tupi
KLEITON & KLEDIR