PLAYLIST | Laura Lavieri

     Setembro é o mês da chegada da primavera no hemisfério sul. Parece poético (e é) mas no Brasil de 2018, setembro também é o mês pré eleições presidenciais e os ânimos estão bastante exaltados. Já teve de um tudo nessa primeira corrida presidencial pós golpe. Ops, o manual do bom jornalista recomenda que eu seja mais prudente. Já teve de um tudo nessa primeira corrida presidencial pós ruptura democrática em que uma presidenta eleita democraticamente, sem cometer nenhum crime, foi destituída do cargo porque uma meia dúzia de gatos pingados assim quiseram.

 

     Parece desastroso pro futuro do país (e é) mas há de se ter esperança em dias melhores. Como eu acredito que quem faz arte faz política, tenho certeza de que muitas manifestações e movimentos artísticos estão sendo produzidos a partir deste tsunami de acontecimentos diários que inundam nossa existência latino americana.

 

     Para que tenhamos fôlego e cheguemos em outubro sãos e salvos, pedi à Laura Lavieri, cantora que acaba de colocar na rua seu primeiro álbum solo, Desastre Solar, uma playlist com DEZ músicas que podem nos ajudar a aliviar as tensões. De quebra, bati um papo rápido com esta artista que após se apresentar ao lado de Marcelo Jeneci por quase uma década, resolveu dar a cara a tapa e se despir neste disco produzido pelo expert Diogo Strausz.

Fabi Pereira: Fale um pouco sobre o processo criativo de Desastre Solar

Laura Lavieri: Parte desse processo foi uma busca íntima e pessoal, me enxergar, me descobrir, me definir. A outra parte, é o trabalho coletivo. Começando por uma jornada a dois, eu e Diogo (Strausz). Solidificamos uma amizade, e sintonizamos a linguagem musical. Passa também por uma história (que já existia há anos) com o João Erbetta, de muita troca e empatia, tanto pra pesquisar repertório quanto pra testar e afinar arranjos (e também mil papos existenciais). Aí tem a banda - um processo de criação com os novos amigos do Rio: Ricardo Dias Gomes, Alberto Continentino, Pedro Fonte e também Guilherme Lírio, Jonas Sá. Nessa parte coletiva entra ainda todas as pessoas do escritório. Além dos apoiadores do financiamento coletivo. Tudo tem muito a ver com troca, sintonia e confiança.


FP: Em que momento da sua vida profissional você decidiu seguir em carreira solo?

LL: Durante a turnê do segundo disco que lancei com o Jeneci (De Graça). Foi um momento em que a parceria já não estava mais tão equilibrada - ele precisava de mais espaço e eu também precisava buscar algo só meu. Isso ficou claro nesse momento. A partir dessa minha clareza, fui em busca do desastre.

 

FP: Por que a música "Respeito" foi a escolhida como primeiro single do disco? O que a diferencia das demais faixas do álbum?

LL: Respeito é um grito, efusivo, insistente e vibrante, de um mote óbvio. Óbvio, mas ainda raro de se ver vivido. Talvez por isso a urgência. Além disso, ela pontua a função e força do coletivo. O que foi muito presente nesse disco: tantos músicos, compositores e pesquisadores no processo, e o essencial apoio das 241 pessoas que participaram da campanha de financiamento coletivo (que não só viabilizam a materialização do trabalho, mas também a minha fé na construção de um produto cultural no Brasil de 2018).

 

FP:  Quais as maiores dores e os maiores prazeres de se colocar um disco solo no mundo?

LL: Ainda estou descobrindo. Mas alguns dos grandes prazeres é a delícia de se descobrir, se definir e o alívio de poder compartilhar o que eu tenho de melhor com quem pode dialogar comigo. Das maiores dores é justamente ir tão fundo, cavucar tanta coisa e expor tanto. Além de ter que resumir tanto desejo em um só disco, uma só narrativa, apenas onze faixas (risos).

 

FP: Em vésperas de eleições presidenciais, num país completamente polarizado, o que você faz para tentar manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo?

LL: Procuro as luzes que me orientam e não me deixam perder nem o motivo nem o caminho de vista. Nessas horas, respiro, acendo velas, ouço muita música, tonifico a musculatura, me alimento bem (livre da indústria, cheia de orgânicos e produções artesanais), procuro ter prazer, exercitar a escuta e o acolhimento, me aproximar do que vem do feminino, da cultura negra, indígena, dos trans e dos marginais.

Quem escreveu
Fabiane Pereira

Fabiane Pereira é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela ESPM e em Formação do Escritor pela PUC-Rio. É mestranda em Comunicação, Cultura e Tecnologia da Informação no Instituto Universitário de Lisboa. É curadora do projeto literário Som & Pausa e toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação. É apresentadora do programa Faro na rádio carioca SulAmérica Paradiso FM (95.7 FM).

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