O ARTISTA EM PROCESSO | Mallu Magalhães

"Quem se desloca, recebe". A máxima futebolística, criada pelo folclórico técnico Gentil Cardoso nos anos 60, também funciona se aplicada à trajetória de Mallu Magalhães.

 

Dentro das quatro linhas do planeta, Mallu viveu em São Paulo, no Rio e, mais recentemente, fixou-se em Lisboa. Na música, vem se aventurando em uma bem sucedida roda-viva de experimentações de sonoridades, de estéticas e, em algum grau, de personas.

 

São três álbuns até aqui: 'Mallu Magalhães' (2008), 'Pitanga' (2011) e 'Vem' (2017), que a levaram do folk à bossa, do rock ao samba, do samba rock ao pop. Cada disco faz emergir uma outra possibilidade de Mallu, sem negar a anterior, como o peregrino que reconhece ser a soma de todas as suas viagens.

 

Depois de uma mini-turnê pelo Brasil em agosto - que passou por São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre -, Mallu conversou com Eduardo Lemos sobre seus processo criativos, a passagem do tempo e a certeza de que a música é seu melhor lugar. "É como se eu fotografasse um impulso para vivê-lo depois". 

Você acabou de fazer uma turnê pelo Brasil. Como foram os shows? A distância de tempo que você leva pra vir te ajuda a dimensionar como a tua música está chegando nas pessoas aqui?

Como sempre, foi um enorme prazer tocar pelo meu país. Não consigo passar muito tempo viajando sem ficar no Brasil de tempos em tempos. É uma grande parte de mim da qual não quero, não consigo e não pretendo me desapegar. Acho que esse amor e esse desejo também colocam em prática, traz os frutos que são as noites inesquecíveis graças ao carinho do público. Eles que fazem isso tudo tão bonito e delicioso.

 

Tem um tema que me parece permanente na sua vida, que é o deslocamento. Tanto no aspecto físico, de lugar onde mora, como no aspecto artístico, de transitar por diferentes gêneros. Queria primeiro falar do físico. Você nasceu em São Paulo, morou no Rio e agora vive em Lisboa - e volta e meia, o trabalho te leva a outros lugares, como Barcelona, em outubro. “Tenho o tronco forte de navegador…”. Você consegue observar o quanto essas diferentes localidades influenciaram sua forma de enxergar a vida e, consequentemente, de escrever canções? 

Sempre gostei de ser itinerante porque gosto muito da vida, das pessoas, de sentir o agora. Me colocar em risco, em aventura, era o meu maior recurso pra sentir a vida tocar meu corpo, meu metabolismo, meu coração. Em todos os aspectos. Mas aí com a maternidade fique diferente e hoje em dia tem sido mais difícil ser itinerante. Ainda estou aprendendo a lidar com essa nova parte de mim e com as questões práticas da infância da Luísa.

 

Estando fora do país, é provável que sua visão sobre o Brasil - seus problemas e suas maravilhas - acabe se modificando. Como é isso?

Não me sinto fora. Além de passar muito tempo no Brasil, é meu país, o acompanho sempre, por amigos, parentes, pelas noticias, a cultura. Consumo e tenho o Brasil na minha vida prática e emotiva. Claro que quando a gente, está presente, fica mais imerso, fica mais próximo. E sinto falta dessa proximidade, às vezes. Meu alivio é que quando tenho saudade já tenho data para voltar.

 

“Vai e vem” acaba sendo uma reflexão sobre esse deslocamento, não?

Sim… Também sobre encontrar a felicidade onde a gente não plantou ver que ela é também uma coisa que nasce por sí, uma força particular e pulsante, uma vida orgânica e real.

Musicalmente falando, você também vem trocando de lugares, de sonoridades, de estéticas. Esses dias, li você dizendo que anda brincando com fazer música eletrônica no computador, e me veio essa certeza: lá vai a Mallu explorar outro planeta. Como é a tua relação com a exploração de possibilidades que a música proporciona?

Hehe… sim, lá vou eu. Pra lá e para cá… Mas sabe, lembro uma vez que uma pessoa veio falar comigo e com o Marcelo: “ah, achei super legal o Fezinho Patati dançar um MPB!”, mas para gente, “Mais Ninguém” era um rock, alguma coisa já bastante urbana, mais pop… Curioso como as percepções de cada ouvinte são únicas. É frequente eu ouvir alguém elogiar que meus discos são sempre tão leves e doces, enquanto que, para mim, meus discos tem momentos super densos e terríveis! Por isso acredito que o único termômetro que realmente pode servir para determinar minhas decisões e passos é simplesmente eu me perguntar: “gosto disso? Quero mostrar esse trabalho para um vizinho, um amigo novo, alguém na rua?”… A percepção do próximo, muitas vezes, é menos de estética e mais de intenção, de representação. O que aquela música quer, o que aquela pessoa que canta quer.

 

Lendo a letra de “Você não Presta” - olhando pra ela por um instante apenas como texto, - me parece que ela também é um convite ao público, tanto ao que já te conhece, quanto ao que não acompanha seu trabalho. Como se você dissesse: minha mensagem é simples e é pra todo mundo (ok, talvez menos pra quem não presta). 

Sempre foi uma música de convite, de entrega total, de abertura, de festa, de risada, de dança, de conquista e de leveza, esse coquetel maluco de tantas intenções. Uma sede de vida, de gente, de suor… Uma braveza diante daquilo que nos nega, que nos repudia. Uma espécie de grito e também de sorriso.

 

Como é o teu processo de escrita? Pensando mesmo no texto. As letras, por exemplo, vem em formato de letra, ou às vezes partem de poesias ou prosas? 

Raramente encaixo algo já escrito na composição. Para mim as canções nascem meio que como mantra para mim mesma, como alívio de uma aflição ou vontade de eternizar um sentimento bom. É como se fotografasse um impulso para vivê-lo depois. Aí existe um trabalho mais do campo prático de concatenar ideias, de encontrar tom, diálogo e linha de raciocínio para facilitar para quem ouve. Sinto que o processo de apurar a canção envolve uma vontade curiosa de tentar despertar até no ouvinte mais desatento, aquele mesmo sentimento que me levou a escrever a canção, para vivermos juntos, de novo, quantas vezes quisermos ou precisarmos.

 

O contato com essa outra língua portuguesa tem te feito mexer também na tua forma de escrever?

Acho que sim, tem sido muito construtivo esse convívio com novas métricas do meu próprio idioma, não só dos portugueses mas também dos africanos. É uma maneira de afinar, de perceber sutilezas, de tornar mais delicada e mais ampla minha compreensão do idioma.

 

Algumas letras de “Vem” tocam no tema do tempo: a pessoa que se pergunta se o outro ainda quer viver suas aventuras; em Guanabara, alguém que pede uma brecha na agenda do outro; tem alguém cansado de esperar em Casa Pronta. Há um quê de urgência. 

Sim, claramente o dia é curto demais, e também o ano. Mas vejo isso como sinal de que a vida está boa, de que gosto do que tenho feito, em todos os aspectos. Sou muito agitada, muito embora sinta que estou melhorando, talvez efeito dos meus aniversários.

 

É preciso ser meio obsessivo pela sua própria arte pra que a coisa aconteça de verdade?

Acho que qualquer coisa fica com o tamanho que a gente deixa ela ficar né? É muito bonito fazer da sua obra uma razão, se deixar tomar e embriagar nos seus sonhos. Além da questão emocional, existe uma questão prática de que é necessário muito trabalho, horas mesmo, de esforço, atividades variadas, para conseguir seu objetivo. Pode ser preciso mandar mil e-mails práticos pelo projeto mais abstrato.

 

Você consegue sondar seu inconsciente e me dizer porque você faz música?

Por impulso, por necessidade fisiológica, por diversão, por tristeza… gosto dela. Gosto muito dela. Impressionante que por mais que as vezes me canse dos desafios da profissão, a música sempre nasce de novo. Como uma planta que faz questão de, cedo ou tarde, florescer. Por instinto, necessidade, ou porque simplesmente aconteceu. E que bom.

 

Fotos por Marcelo Camelo

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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