O artista em processo: Letrux

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fotos: Felipe Morozini | figurino e direção de arte: Básico 

 

Ao digitar Letrux no Google, a primeira complementação sugerida é “letras”. Embora suas canções estejam viajando em rápida velocidade pelo espaço-tempo do mercado musical independente, é no uso da palavra que Letícia Novaes traduz a noite de climão que estamos vivendo no Brasil. 

 

Entre a descoberta de prazeres (“e que estrago cê fez lá na minha casa / e que olhada que cê deu aqui na minha cara / e que estrago que cê fez lá na minha cama / e que milagre que cê fez com as duas mãos”) e a sensação de há algo estranho no ar (“entra, mas não fica à vontade, porque eu não tô”), a cantautora carioca mostra um senso de observação tão peculiar e uma capacidade de comunicação tão direta que - eis a mágica do artista - faz tudo parecer fácil. 

 

Desde o Letuce - duo que formou com Lucas Vasconcellos entre 2007 e 2016 e que lançou três ótimos discos -, Letícia vem se apurando no ofício de criar poesia a partir das vertigens do ‘eu’. Mas sua auto-ficção é generosa e ri de si mesma, meio caminho andado para gerar identificação quase irrestrita de quem dá de cara com as canções do disco “Letrux em Noite de Climão”, lançado em 2017. 

 

O álbum trouxe-a para o tal midstream brasileiro, a tão procurada área em que os artistas já não são completamente desconhecidos, mas ainda não tocam no rádio do Uber - um dos temas da conversa de Letícia com Eduardo Lemos, que também passa por seu processo de criação e o susto-alegria em ver sua música chegar cada dia mais longe. "Minha emoção emocionou as pessoas e elas me contam, emocionadas e eu me emociono de volta. É alucinante”. 

 

 

Como nasce uma música da Letrux? Qual é a raiz de uma criação musical sua?

 

Sou muito observadora, mesmo quando estou em movimento ou numa função de máxima atenção, há um lado do meu cérebro que só está contemplando e tomando notas. Sou muito memorialista também, não confundir com nostálgica. Gosto da minha vida agora, mas tenho muitas memórias específicas de outras épocas e isso também fica, fica sempre um pouco de tudo, como disse Drummond no meu poema favorito dele, "Resíduo". Costumo ter sempre caderninhos comigo. Sinto frases e anoto. Um dia todas essas anotações são reunidas e fico elaborando melodias. Ou então a música nasce de uma talagada só (também já rolou). Fiz uma música no avião recentemente, estava sozinha e sou medrosa. Pra passar o tempo e o medo, comecei a compor, gravei tudo no celular. Fiquei bem feliz até. A raiz da criação vem dessa contemplação comigo mesma, com minha vidinha, com minha sensibilidade e com esse meu observar estranho com os outros. Muitas pessoas ficam “Você viu que naquela hora do filme, a atriz fez isso e isso?” e todos viram, porque era o foco da cena, mas eu observei a orelha da atriz e vi que parecia uma abelha, sabe assim? Sou dada aos desvios.

 

Como poeta, escritora, colunista de jornal, obviamente a palavra é muito importante pra você. No Letrux, ouso dizer que você conseguiu alcançar um híbrido de letra de música, poesia, crônica e textão de Facebook, de modo que qualquer pessoa, de qualquer idade, fatalmente vai encontrar algo com o que se identificar. Trata-se de um poder de comunicação muito poderoso, não?

 

Eu me entendo melhor escrevendo. Discutir relação de casal comigo sempre foi melhor por email, rá! Ao vivo eu tenho umas travas, pareço simpática e muito doida e solta mas tenho minhas questões ("entra mas não fica à vontade porque eu não tô", hahaha, sei que é podre de citar, mas nesse caso não). Tive uma adolescência complicada, como a maioria: bullying, colégio medíocre, então a agenda e o diário viravam um lugar de tentativa de se entender (antes da análise). Escrever pra se entender. Até hoje quando estou agoniada, escrevo. Não significa que é bom ou que vou publicar, pode ser pra mim mesma. Antes de lançar o disco em julho de 2017, no réveillon de 16 pra 17, eu queimei várias agendas minhas no sítio da minha avó. Muitos textos deprês, época pesada do bullying, achei o processo muito bonito e sinto que essa fogueira subiu lindamente, tirei um peso das minhas costas. Gosto muito de escrever também porque gosto muito de ler, são coisas indissociáveis. E pra esse assunto recomendo “A Louca da Casa”, da Rosa Montero, livro mais lindo do mundo sobre o amor à literatura.

 

Muitos escritores dizem não conseguir se reler depois de finalizar um livro. Fico pensando que para a cantautora, como é o teu caso, não há escapatória: os shows precisam das músicas, e o artista pra sempre terá de lidar com - e performar - algumas de suas obras. Como você lida com esse sentimento de se reencontrar quase que diariamente com canções e escritos teus?

 

Forte. Eu me reencontro vez em quando com minhas produções. Outro dia tirei a tarde pra ouvir Letuce, há tempos não escutava (implico muito com minha voz principalmente no primeiro disco), mas foi tão forte, (chorei e tudo), é uma obra que diz muito sobre meu crescimento como cantora e compositora, mas também como ser humano, mulher, e isso me emocionou muito. Não vejo muitos vídeos d’eu cantando, uma ou outra coisa, mas não fico vendo, pausando, analisando, não consigo. Nunca revi o vídeo d’eu ganhando prêmio Multishow, por exemplo. Vi no dia seguinte à premiação e nunca mais. Não consigo. Já foi. O Zaralha é um livro que tenho a maior ternura do mundo, é um apanhado poético da minha vida, claro que hoje em dia faria de outras maneiras, mas ainda tenho muito orgulho dele, acho ele uma graça, e meu próximo livro sai em breve. Tomara. Saga sempre. Mas sai.

 

Você é atriz, poeta, escritora, já escreveu coluna de jornal, canta e compõe. Pretende seguir transitando entre as artes? Tem outras vertentes nas quais você às vezes deseja se arriscar?

 

Acho que não tem mais volta. A não ser que o Bostanaro acabe com qualquer possibilidade artística e eu não consiga fugir do país, só nesse caso talvez, eu estudasse biologia marinha, risos. Mas mesmo que eu não fosse artista, eu iria querer trabalhar com algo ligado à sensibilidade, ser professora do jardim de infância, algo assim.

 

Falando nisso, como está viver de arte no Brasil?

 

A vida de uma cantautora no Brasil é de matar um leão por semana. Abriram muitos espaços, os festivais nos querem, algumas mídias e marketings também, sem dúvida, e isso tudo graças ao público (em sua maioria das vezes mulheres e homens LGBTQI) que nos pedem, espalham nossas músicas, mas ainda assim é complicado viver de arte no Brasil. Não há valorização. As pessoas pararam no tempo. Você entra no Uber e na rádio só toca músicas de 20, 30 anos atrás. Muitas vezes ouço, em situações com pessoas mais velhas (desde o gerente do restaurante até mesmo o Toquinho disse outro dia, vergonhosamente) que não há música boa hoje em dia no Brasil. Pararam no tempo, não se atualizaram. Muita vergonha e isso enfraquece nosso crescimento também. Sou conhecida, mas continuo vivendo de aluguel na Tijuca. Estaremos fadadas à cena independente somente? Sempre? Complicado, falta muita coisa ainda.

 

Entraremos em 2019 com um presidente e equipe, no mínimo, muito distantes da cultura e da educação, duas ferramentas essenciais para qualquer país funcionar. Nos estados, os eleitos também não fogem à essa regra. Como a arte vai ajudar a gente nesse momento?

 

A arte tem direta conexão com nossa saúde mental. Imagine sua vida sem música durante uma semana. Trevas, certo? Uma semana sem música e sem dramaturgia (inclua aí cinema, novela e série). Cenário de horror, não é? Quando as pessoas despertarem para isso, para essa “coincidência" da arte ter uma colaboração direta com nossa saúde mental, talvez aí a arte seja mais valorizada. Uma vida de robô, de máquina, de bater cartão, de capitalismo selvagem, de pagar contas, sem as benesses da arte, não é vida, é pesadelo.

 

Vai bater um ano e meio do lançamento de Letrux em Noite de Climão. Numa entrevista à Noisey, logo quando o disco saiu, você dizia que a repercussão tava sendo “inacreditável, mas tento não criar expectativa porque sou dada à ansiedade”. Bom, um ano e meio depois, a repercussão do disco e do show é muito boa. Já rolaram prêmios - como o do Multishow -, apresentação em diversos festivais e a conquista de um público que parece muito fiel.  O que rolou até aqui superou as expectativas que você tinha naquele momento?

Fiz esse disco sem pretensão, queria extravasar sensações que tive, queria me curar, me entender, me divertir, fazer um drama, dançar, enfim, mas isso tudo coisa minha. Não fiz pensando em ninguém. Mas lógico que quando se lança um disco, cria-se uma expectativa e eu tentei de todas as maneiras ficar tranquila, e talvez tenha sido isso: o que tivesse acontecido, eu estaria feliz porque me entendi. E aos poucos as pessoas foram se identificando, e compartilhando e pirando e se tatuando e gritando mais alto do que eu, e isso tudo me comove muito, é a roda da fortuna girando de maneira plena. Minha emoção emocionou as pessoas e elas me contam, emocionadas e eu me emociono de volta, é alucinante.

 

 

O Mauro Ferreira, um dos poucos críticos de música que restaram ativos, fez uma  resenha do álbum logo quando ele saiu, dizendo que o disco “deverá manter Letícia Novaes imersa na bolha de proteção que impede o alcance da obra por público mais amplo, fora da rede de amigos”. Aconteceu justamente o contrário, e é curioso ler isso agora. Talvez o jornalismo é que esteja dentro de uma bolha. Pro artista, qual é o peso da crítica hoje, num momento em que as redes sociais permitem que o artista receba retorno imediato e direto do seu próprio público?

 

O Mauro jamais gostou de mim, ele não entende ou não se emociona com a minha poética. E até aí tudo bem. A gente não mandou o disco pra ele (já sabendo que ele nunca curtiu meus lances), e aí lançamos o disco dia 10 de julho e horas depois já tinha uma resenha dele, achei super estranho porque ele foi pior que alguns jovenzinhos que ouvem 30 segundos de uma música e já descartam, não vão até o fim. Sinto que ele não ouviu o disco todo. Falou que eu fiz duas músicas para o meu ex, [mas] Lucas e eu lançamos “Estilhaça”, justamente para falar sobre nossa separação. O Climão nasce 5 anos depois da minha separação, a quantidade de vida que tive depois foi imensa, risos. Ele achar que uma mulher tem que orbitar em volta de um homem me dá pena. A literatura dele não me toca, faz crítica adivinhatória, tá perdidão. Com tudo que tem acontecido comigo mesmo depois desse texto dele, sinto que o peso da crítica é bem pequeno. Tive um ano inacreditável de lindo.

 

É preciso ser meio obsessivo pela sua própria arte pra que a coisa aconteça de verdade?

 

É preciso ser obsessiva e distraída, uma combinação complicadíssima que ainda não entendi, mas demorei anos para talvez imaginar que é isso um pouco: sagas e fissuras sobre a obra, sobre a produção da coisa em si, e momentos de pura despretensão e delírios.

 

Você consegue sondar seu inconsciente e me dizer porque você faz música?

 

Eu faço música para tirar um bicho do meu corpo. Quando eu canto, me livro de muita coisa. Nasci meio carregadinha, sinto. Vênus retrógrada, capricórnio, enfim, poderia ser mais cagada da cabeça, mas meu pai é médium da umbanda e minha mãe sempre me levou pra reiki e cura magnificada, isso me ajudou muito, e ambos eram muito musicais, embora minha mãe fosse professora de francês e meu pai bancário do Banco do Brasil. Nunca faltou música lá em casa e desde cedo entendi que quando eu tinha uma sensação, boa ou ruim, era bom abrir a boca e emitir som, era uma terapia, era um alívio. Aos poucos fui juntando as sensações. Os diários com o canto. Mesmo quando me divirto cantando (e são muitas vezes), também estou me curando. É lindo o público amar o que eu faço, mas antes de tudo, faço pra me entender enquanto gente nesse planeta. Quando eu só falo, não me entendo, preciso cantar pra entender. Pra subir.

 

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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