O artista em processo: Erlend Øye


"Eu preferia dançar com você / do que falar com você." Esta é a primeira frase de "I Rather Dance With You", uma das mais famosas canções do Kings of Convenience, banda que levou o cantor e compositor norueguês Erlend Øye ao estrelato indie em 2004. E é ela vem à memória quando Erlend, quinze anos depois, conta que anda em crise com as palavras e agora está muito mais interessado em fazer música instrumental e investigar as possibilidades dançantes de instrumentos acústicos. 

 

Conhecido também por ter criado outra banda de grande sucesso no universo independente - o The Whitest Boy Alive, de sonoridade mais eletrônica -, Erlend é um artista inquieto. Seu trabalho solo é resultado de suas andanças mundo afora. Em sua estreia em disco, "Unrest", de 2003, cada faixa foi gravada em um país diferente com a colaboração de músicos locais. O sucessor, "Legao", de 2014, mostra-o acompanhado de uma banda de reggae islandesa. Embora troque de cenários constantemente, uma música de Erlend Øye é algo que se reconhece de longe. Mais notável do que sua circulação e interlocução talvez seja, apenas, a capacidade de soar sempre coerente com sua trajetória. 

 

Sua movimentação intensa pela música não é só uma estratégia profissional que dá certo, mas uma consequência de uma vida quase nômade. Erlend já morou na Alemanha, na Itália e no Brasil - um lugar que ele confessa ter lhe causado certa estranheza. Ele está de volta ao país após sete anos para shows em São Paulo (nesta terça, 11, no Auditório Simon Bolívar) e no Rio de Janeiro (nesta quinta, 13, no Circo Voador). Nos espetáculos, o norueguês apresenta sua nova banda, La Comitiva, formada por três músicos italianos e cuja excursão vem lotando casas de shows pela Europa. 

 

A Eduardo Lemos, ele comenta sobre seu processo de criação ("ver uma música nascer é incrivelmente bonito e a parte mais feliz da minha vida"), sua transição entre diversos gêneros musicais ("o que me inspira mais são as mudanças") e diz que nada irá substituir a alma humana como fonte criativa ("não tenho medo algum dos robôs!"). 




Onde você está agora respondendo a essa entrevista?


Nesse exato momento estou em Val Paraiso, Chile, uma belíssima cidade à beira mar. Há uma série de casas coloridas à minha volta. E neste momento estão cozinhando comida italiana. Na minha nova banda, La Comitiva, há várias pessoas que gostam de cozinhar.

 

Você é um admirado compositor de canções. Como costuma nascer uma música de Erlend Øye?


Normalmente, o que acontece é… Bom, recentemente eu ganhei um ukulele de aniversário e o instrumento me inspirou de uma maneira diferente do que se dá com o violão. Então eu acabei fazendo várias músicas novas que foram orientadas pela sonoridade do instrumento. Normalmente, o que me inspira são as mudanças. Eu também acabo me inspirando pelos períodos mais intensos da minha vida seguidos pelos momentos mais calmos. Nos períodos calmos, acabo refletindo sobre o que rolou nos momentos intensos.

 

Dos anos 90, quando você iniciou sua carreira, até aqui, seu processo de criação se alterou ou mantém-se igual?


Ah, com certeza mudou. Porque… por exemplo, atualmente eu não estou tão interessado nas palavras quanto estive minha carreira toda. Estou criando mais músicas instrumentais. Sinto que falei bastante coisa até aqui nas minhas letras, e não acho que precise dizer coisas parecidas… Mas as melodias continuam aparecendo, e eu tenho me dedicado à usá-las em canções instrumentais.

 

Numa entrevista para o jornal alemão DW, anos atrás, você dizia que desejava fazer música "from the idea of Woodstock, where bands play, people listen and things are spontaneous”. Coincidentemente, hoje cedo, eu lia no jornal sobre aplicativos/robôs que fazem roteiros de filme, trilha sonora e até pintam quadros. Como você imagina o futuro da sua função de criador de canções?


Bom, nós, humanos, amamos estar com outros seres humanos e isso nunca vai terminar. Eu amo encontrar outras pessoas que escrevem e cantar suas canções, e amo o fato de que essas canções são baseadas em suas histórias de vida. Isso nunca deixará de ser interessante, sabe? Eu definitivamente não tenho medo de robôs. Eu acredito, sabe… que a alma humana continuará sendo nosso principal motor de criatividade.

 

Você é reconhecido por uma intensa e diversificada produção, de coisas mais acústicas à música eletrônica. Circular entre diferentes estéticas e universos é sua maior busca enquanto artista?


Uma das coisas que me inspira é, certamente, me mover dentro do cenário da música. Na época em que resolvi experimentar a música eletrônica, era um universo novo que eu queria entender e descobrir o que havia ali. Atualmente, com o ukulele, o cavaquinho e outros instrumentos, estou empolgado sobre determinados aspectos dos instrumentos acústicos: como você pode torná-los 'dançáveis', por exemplo… E, bom, isso também tem a ver com um problema que apareceu recentemente: meus ouvidos já não os mesmos de antes,e tive perda auditiva considerável. Na prática, significa que eu não posso ficar fazendo muita música alta. Por isso insisto no universo acústico. Outro aspecto que me interessa nele é a sua facilidade. Gosto de fazer músicas na rua. Simplesmente sentar e fazer música.

 


 

Essa capacidade de se transformar em muitos não se restringe à música - isto aparece no seu dia a dia, já que você viveu em diferentes cidades e países e pode experimentar diferentes culturas. Vida e arte parecem bastante próximas para você, não?

Certamente. Pra mim, ser músico é a minha vida, não é algo que eu faço como um trabalho e depois volto para minha vida real. Eu não saio em turnê pra fazer uma grana e depois volto a viver normalmente. Minha vida real é estar na estrada, cercado por pessoas legais, tentando lavar algumas roupas e ter uma boa noite de sono. Eu realmente não sinto saudade de casa, porque a melhor coisa que eu sei fazer é tocar. É o que dá sentido à minha vida.

 

Te interessa mais o que está por vir do que o que você já fez?

Hmmm… não sei, eu tenho muito respeito pelo que fiz até aqui. O lance é que se você se concentrar nas montanhas que já escalou, isso pode te deixar louco. Isso é algo muito difícil pra mim, porque fiz várias coisas na minha carreira que foram bem recebidas. Mas é mais difícil ainda ficar tentando refazer o que deu certo. Prefiro buscar outras montanhas igualmente altas para subir.

 

Você faz 2 shows no Brasil nos próximos dias. O que este show tem de mais especial? 

Estar com La Comitiva me dá a possibilidade de tocar músicas da minha carreira inteira. Vai ser especial por isso e por mim, que não toco no Brasil há sete anos e estou muito curioso para ver a reação das pessoas. Eu espero que elas conheçam as músicas, cantem comigo e se emocionem.

 

Você viveu no Rio de Janeiro por um tempo, e já esteve no país outras vezes. Como foi essa experiência?

Viver no Brasil foi difícil porque eu não podia sair andando pelas ruas e viver a vida que se apresentava. O único lugar que talvez eu tenha conseguido sentir uma certa liberdade foi em Ipanema, onde era possível simplesmente se sentar com o violão no colo e conhecer pessoas. Nesse sentido, foi um pouco frustrante viver no Rio e ter que temer as coisas. Isso acabava por bloquear minhas descobertas no país. Nunca consegui de fato conhecer muitos músicos, algo que tive facilidade em outros países. O Brasil sempre me inspirou muito musicalmente, mas é curioso que nem tanto quando eu estive no Brasil. Você entende? A minha relação com o país se deu mais pelos discos que escutei. Espero que seja diferente nesta minha passagem por aí.

 

É preciso ser meio obsessivo pela sua própria arte pra que a coisa aconteça de verdade?

Sim, eu acho que você precisa por bastante gasolina para fazer a sua arte acontecer. Definitivamente não é fácil. Independente de quem você é ou de onde você vem, fazer as coisas acontecerem é muito difícil, exige muita sorte, perseverança e é preciso fazer de novo, de novo e de novo, mesmo que você falhe. Eu sou muito feliz pelo que me aconteceu. Se eu não tivesse seguido nessa trilha da música, eu não conseguiria ser feliz, não conseguiria ter um emprego ao qual eu não desse importância.

 

Você consegue sondar seu inconsciente e me dizer por que você faz música?

No começo, eu quis fazer música porque era um lugar onde eu podia ser criativo e podia criar coisas. E permaneço nela por essas mesmas razões. O fato da música ser um reflexo da minha vida é a coisa mais linda que eu posso compartilhar com o mundo. E é lindo também que essa música possa ser compartilhada com pessoas que não falam a mesma língua que eu. É impressionante ver uma canção nascendo. De repente, uma nova música aparece e você começa a criar e fica dentro dela por três ou quatro dias. Essa é uma parte incrivelmente feliz da minha vida. É o oposto da depressão.

 

***

agradecimento especial a Nicola Maniglia

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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