'Queremos ser vistas'

25/01/2019

As Bahias lançam música e abordam violência contra trans em clipe; leia a entrevista com Assucena Assucena

2019 já começa diferente para As Bahias e a Cozinha Mineira. Depois de dois discos, Mulher (2015) e Bixa (2017), a banda lança a música Das Estrelas, que marca um novo passo na carreira do grupo: a parceria com a Universal Music. De casa nova, o trio formado por Assucena Assucena, Raquel Virginia e Rafael Acerbi entra em estúdio em março para gravar o novo disco.

 

Aproveitando o lançamento do clipe de Das Estrelas, que aborda a violência contra transexuais, Assucena recebeu o Azoofa para falar sobre a parceria e a luta por visibilidade. O clipe, dirigido por Rafael Carvalho, é protagonizado pela atriz trans Renata Carvalho, que interpretou Jesus na peça 'O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu' e foi alvo de censura por um juiz. 

 

“Não nos matam só fisicamente. Nos matam quando querem calar a nossa voz e a nossa arte. Só que a gente construiu um megafone, e esse megafone é nosso”, diz Assucena. Leia a entrevista abaixo.

 

 

O que levou vocês a assinarem com uma grande gravadora?


Assinar com a Universal nos permite ousar mais e ter um fundo financeiro para isso, tanto para gravar videoclipes, que a gente teve poucos clipes de qualidade. Os dois primeiros discos foram feitos de forma muito guerrilheira, eu diria. O primeiro disco, Mulher, foi mais artesanal, e o segundo, Bixa, a gente já teve mais apoio, tanto que levamos dois Prêmios da Música Brasileira, uma surpresa enorme. A gravadora traz a possibilidade da gente usar o laboratório de estúdio, ter acesso a produtores e parcerias, poder regravar quando acha que o trabalho não ficou legal. Isso é um privilégio.

 

Mas os prêmios foram uma resposta positiva desse esforço, certo?


Esses prêmios foram resultado de um esforço guerrilheiro mesmo, no que significa trabalhar com cultura no Brasil, que é muito difícil, e, sendo independente, mais ainda. Mas o independente proporcionou para a gente uma experimentação das formas. Sempre tivemos um desejo radiofônico, tanto que Bixa a gente falou que ia ser mais radiofônico. Mas era radiofônico dentro de um limite, porque tinha músicas menores, mas não pops.

 

Pop no formato, você diz?


Eu achava que Dama da Night seria uma música pop. Mas ela é pop na tentativa da forma, não na prosódia da canção, da poética. Então tem um limite que a gente conseguiu chegar no pop. Uma das características mais impressionantes do artista é quando ele consegue ao mesmo tempo ser extremamente simples, sem ser simplista. Considero Jaqueta Amarela uma canção pop nossa, ela só não é pop porque ela é uma música de cinco minutos (risos).

 

Existe o desafio sempre da descoberta da sonoridade da música. Se for para chegar num lugar pop, bacana, mas temos que respeitar a canção. Se a canção não for pop, ela não vai assumir esse lugar. A gente tem o nosso Q de pop, de um show popstar, com gritaria, esbórnia, contracultura, que também pode ser pop. Não queremos nos prender a uma fórmula porque acho fórmulas perigosas.



(Foto: Pedro Dimitrov)


E o que já dá para adiantar do disco?


A gente entra em estúdio para gravar o disco em março. E sai provavelmente no final de março. Mas o que eu estava querendo dizer é que esse disco tem canções extremamente diretas, mas alternativas no sentido da temática, algo que a indústria fonográfica em larga escala não se interessaria. É para um público de MPB que vem perdendo espaço hoje no Brasil. Estou aqui falando que o disco vai ser pop e não vai ser pop porra nenhuma (risos).

 

Mas ao longo desses anos o público que vocês foram construindo ficou bem diverso, não?


Nosso show tem de adolescente de 16 anos a idosos de 72, que viram shows na época dos tropicalistas e sentem saudade. Então tem essa variável, você vê muitas pessoas negras, muitas bichas, brancos da elite. Então é interessante observar que essa mistura nos nossos shows. E demorou para ter as bichas lacração nos nossos shows (risos).

 

Sério?


Acho que devido ao comportamento musical. Tanto que quando falavam em geração lacração eu não me via dentro dessa nomenclatura. Nossa música nunca assumiu esse lugar, nem a da Liniker, da Tássia Reis, do Rico Dalasam, lacração era um conceito mais de expressão como legal, que brinca com a ilegalidade das coisas e diz ‘ó, isso é legal’. E de repente vira uma gíria, não sou uma geração legal por isso.

 

Além dos artistas que você citou, e aí podemos citar Johnny Hooker, Jaloo, entre outros.  Vocês se vêem numa cena?


O que nos une como movimento é a liberdade como princípio, a liberdade de corpo. Agora, não tem uma nomenclatura para a gente.

 

E qual a história dessa nova música, Das Estrelas?


Das Estrelas nasce da invenção da gente criar personagens, eu líricos a partir das nossas ilusões e desilusões. É muito cara para mim toda a canção de amor, toda a pessoa trans vai entender que ela é muito cara. A busca pelo afeto ela é constante entre a gente, parece muito simples para as outras pessoas, mas o afeto custa muito caro para nós.

 

Eu estava lendo o prefácio de um livro de um filósofo que eu gosto muito, que é o Luquet, e ele dizia que a filosofia nasce da cisão entre o ser humano com o universo. Porque há muito tempo para o ser humano se guiar na terra ele tinha que olhar para o céu, a partir do momento em que ele não precisa mais olhar para cima para se guiar, ele se pergunta quem eu sou e onde estou. E para o Luquet esse é o nascimento da filosofia, que começa com as questões elementares da vida.

 

E por que a gente não se sente parte do todo? Nós estamos no próprio céu e inclusive somos poeira de estrelas. Caetano vai dizer que ‘gente é para brilhar e não para morrer de fome’. Então essa canção pede uma atenção não só do sujeito que eu amo, mas do Brasil, de todos, ‘por que você costumava olhar as estrelas para se guiar no mundo, mas com tudo, você se perdeu’.

 

Uma canção que dialoga muito com o contexto atual, especialmente pensando na comunidades LGBTQI.


E de fato a gente se perdeu. A gente chama de progresso o desmatamento da Amazônia, a construção de hidrelétricas, ou seja, tudo aquilo que poderia ser encarado como progresso, o positivismo vai chamar de selvageria, barbárie de acivilizatório, porque civilizada é a cidade. E nós apagamos as estrelas do céu. Mas, apesar de tudo a lua te segue no céu da cidade cinza para dizer que você ainda faz parte do todo.

 

Eu acho que buscar esse lugar genuíno do ser humano está em nós. Quem ensinou uma criança a ser transfóbica? Ninguém nasce transfóbico ou racista. Então é preciso voltar para esse lugar primário, essa força vital, que alguns vão chamar de Deus, eu vou chamar de Deus, outros vão chamar de orixás, de força maior, e cada um tem a sua beleza de encontrar esse lugar.

 

Mas isso exigiria uma noção de coexistir com o outro, de respeitar o outro.


Outro dia uma travesti foi assassinada por um homem que arrancou o coração dela. A justificativa dele era que ele precisava tirar o demônio dela. Como a gente explica isso? A gente saiu pela Avenida Paulista perguntando se as pessoas conheciam as frases “não matarás” e “amarás ao próximo como a ti mesmo”, que são premissas de várias religiões, e o mais assustador é que todos conhecem. E qual a relação prática que essas frases exercem no cotidiano de um país que se julga cristão? Então o papel dessa música e do videoclipe é questionar.

 

No nosso contexto atual, fazer arte é cada vez mais um ato político pra vocês?


A gente não precisaria nem falar da temática para exercer um ato político, só pelo fato de estar já é um fato político. Nós, o T da comunidade LGBTI+, ainda estamos lutando por visibilidade, porque representatividade ainda parece algo muito distante. A gente está lutando para ser visível, buscar uma proporção empregatícia, de cota nas universidades, entre outros. É claro que representatividade está ligada à visibilidade, mas a visibilidade é algo que urge porque a gente precisa ser vista, sair dos espaços de marginalidade.

 

Que peso a participação da atriz Renata Carvalho traz ao clipe?


O nome da Renata Carvalho é muito forte nesse contexto atual, no momento em que a palavra LGBTI sai das diretrizes de direitos humanos e você tem a Renata como uma figura que foi mais censurada nos últimos anos na arte por ter representado um Jesus travesti. Ou seja, Thiago Lacerda pode ser a imagem e semelhança de Cristo, a Renata não.

 

A mensagem primordial de Cristo era a luta contra a opressão. Jesus era perseguido e foi assassinado pelo Estado. Jesus é Marielle. Renata foi censurada por uma canetada da lei. E eles não nos matam só fisicamente. Nos matam quando querem calar a nossa voz, a nossa arte. Só que a gente construiu um megafone e esse megafone é nosso.

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem, e do blog Quadrinhas, sobre quadrinhos feitos por e sobre mulheres.

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