Da Lama Ao Caos faz 25 anos e é celebrado em livro

 

"Da Lama Ao Caos", o disco de estreia da Nação Zumbi, comemora aniversário de 25 anos em 2019. Lançado em abril de 1994, o álbum tornou-se um dos mais influentes da música brasileira das últimas décadas. É dele o posto de 13º melhor disco nacional da lista da Rolling Stone, por exemplo, e certamente o ponto de partida ideal para quem quiser conhecer o Manguebeat, movimento de bandas e artistas pernambucanos que teve a banda de Chico Science e o Mundo Livre S/A como principais expoentes.


Em 12 faixas (sendo duas vinhetas), "Da Lama Ao Caos" tem méritos de sobra para ser chamado de 'clássico': a poética incisiva de Chico Science ganha seu primeiro registro fonográfico, e faixas como "A Cidade", "Praieira", "Da Lama Ao Caos" e "Rios, Pontes e Overdrives" apresentam ao país uma banda cuja sonoridade, especialmente ao vivo, é avassaladora.


Entretanto, a proposta do grupo em misturar rock com maracatu e embolada, amplificado pela força dos tambores de alfaia e letras políticas (que, ao mirar numa espécie de etnografia de Recife, também acertavam o Brasil), não foi imediatamente entendida por crítica e público. Como às vezes se dá com os clássicos, "Da Lama Ao Caos" estava à frente do seu tempo - tão à frente que, um quarto de século depois, o disco poderia se passar por um trabalho lançado em 2019.


"O álbum fala de um estado caótico, na lama ou em grandes centros urbanos. É como se um homem-caranguejo saísse de um manguezal para um centro urbano, em busca de um novo modo de vida, mas, de um modo ou de outro, ele sempre é castrado dos seus direitos, é sempre roubado. Da lama ao caos é justamente isso: a cara do Recife, as necessidades que o Brasil passa, as diferenças sociais", disse Chico Science à época.


Mas como nasceu o disco? Quem eram os personagens envolvidos? A Edições Sesc São Paulo lança neste mês o livro digital Da lama ao caos: que som é esse que vem de Pernambuco?. Escrito pelo paraibano radicado no Recife, o jornalista e crítico musical José Teles, o livro reconstrói a trajetória do disco que transformou a música brasileira. Colunista de música do Jornal do Commercio, de Recife, desde 1987, Teles foi testemunha privilegiada do nascimento do álbum e da cena manguebeat.


Teles entrevistou músicos, produtores, empresários, diretores de gravadora, designers, fotógrafos e jornalistas para recontar a história e os bastidores do disco que colocou Recife - a “quarta pior cidade do mundo”, de acordo com relatório de 1991, da ONU - no centro de toda a cena cultural dos anos 1990. O livro é o primeiro da coleção Discos da Música Brasileira, organizada pelo crítico musical Lauro Lisboa Garcia.


Em entrevistas a Eduardo Lemos, Teles e Lisboa comentam o lançamento do livro, relembram suas primeiras impressões ao escutar o disco em 1994 e reverenciam sua atualidade. "As letras podem ser cantadas contra este novo governo conservador do Brasil", diz Teles.

 



Vocês se recordam das primeiras sensações que tiveram quando escutaram o disco pela primeira vez? Já dava pra sacar que aquilo era um clássico?


Teles: Na verdade, pra gente que conviveu com o desenvolvimento do grupo, o disco era o resultado do que acompanhamos, da música com que já estávamos acostumados, sua preservação.


Lauro Lisboa Garcia: Lembro que fiquei impactado logo na primeira audição, ainda sem entender muito bem aquele aparente "caos". Como conta Teles no livro, nem as gravadoras estavam preparadas para o que seria "um sucedâneo para a bem-sucedida axé music". Enfim, a partir dali me tornei um dos fãs mais assíduos da banda. Fazia tempo que não tínhamos notícia de algo tão forte na música criada em Pernambuco.


Claro que antes de Chico Science e Nação Zumbi outros grandes artistas pós-tropicalistas tinham feito misturas de rock com ritmos nordestinos, como o baiano Raul Seixas e o pernambucano Alceu Valença, mas aquilo era o novo, era a tradição popular (coco, ciranda, maracatu) com linguagem contemporânea. Sei que, como Teles conta no livro, foi difícil quebrar as barreiras, porque até as próprias rádios do Recife não tocavam suas músicas e no Sudeste eles eram considerados regionais, o que a meu ver é um grande equívoco (não só em relação a eles) no eixo Rio-São Paulo, apesar de as letras terem personagens, cenários e situações locais.


Pra mim soava como rock moderno, com linguagem própria, até porque o rock nacional dos anos 1980 já andava saturado. Aquele som novo era um grande estímulo. Falando de coisa pessoal, passei anos curioso para conhecer os lugares e as referências da Bahia que havia na música de Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Gilberto Gil. A música da Nação Zumbi também me levou a Pernambuco pra isso, a fim de entender melhor aquela linguagem, até como um toque de música de protesto da periferia, similar ao hip-hop que tínhamos ainda ascendente por aqui. Acredito que como eu, outros colegas também passaram a se interessar por tudo que se fazia de música nova em Pernambuco a partir deles (fossem as bandas ou artistas ligadas ao mangue beat ou não), e isso continua até hoje. Os caras realmente abriram uma grande porta.


Como surgiu a proposta de criar um livro sobre "Da Lama Ao Caos"?


Lauro Lisboa Garcia: Em 2005 o Sesc Pompeia realizou um projeto chamado "Disco de Ouro", em que convidou diversos jornalistas especializados para votarem nos discos mais importantes da música brasileira. Eu era um deles. Então, no ano passado, o editor Jefferson Alves de Lima (Edições Sesc) me propôs escrever uma série de livros-reportagens sobre alguns dos discos presentes naquela lista. Porém, não queria repetir os títulos mais óbvios, sobre os quais já se falou muito, como "Clube da Esquina" e "Tropicália".


A princípio escolhemos cinco títulos e ao longo do processo houve algumas mudanças. Um deles nem estava naquele projeto "Disco de Ouro", mas é um marco importante de um gênero pouco explorado na literatura musical brasileira, que é a chamada axé music. Como coordenador da série, escolhi preferencialmente jornalistas que acompanharam de perto a criação desses discos ou que tivessem intimidade com o tema, porque além de detalhes sobre os bastidores das gravações a proposta é buscar as referências que resultaram nesses trabalhos e também a influência que tiveram (e ainda têm) sobre outras bandas e artistas que os sucederam. Seja esteticamente, comercialmente ou socialmente. São discos que soam fortes até hoje, não ficaram datados nem pela sonoridade nem pela estética.


Naturalmente, a música brasileira tem uma infinidade de discos importantes para se abordar. E é provável que a série continue. Nessa primeira fase selecionamos álbuns de quatro Estados mais influentes na História da música brasileira: Pernambuco, Bahia, Rio e São Paulo. São três álbuns da década de 1970 e dois da década de 1990.


Teles, você estava ali, no espaço e no tempo exatos em que o Manguebeat nasceu e tornou-se um dos movimentos mais fortes e influentes da música brasileira das últimas décadas. A que você atribui o surgimento dele? Quais elementos - musicais, mas também sociais e estéticos - estavam ali e ajudaram o movimento a aparecer?


José Teles: No livro tento explicar isto. Eram tempos de mudanças, de renovação da música pop no mundo inteiro. O pessoal que fazia música no Recife estava ciente disso, e antenada. Chico pra mim foi o diferencial, a formação dele era bem peculiar, de periferia, conhecer de cultura popular, ao mesmo tempo querendo saber o que rolava lá fora. Por acaso juntaram-se pessoas de classes sociais, ambientes diferentes e daí surgiu uma música diferente.


Como era o Chico pessoalmente?


José Teles: Não fui íntimo dele, tomamos algumas cervejas, batemos papo, mas a turma dele era o pessoal que arquitetou o manguebeat. Chico era bem humorado, espirituoso, lidava bem com suas limitações intelectuais, era um grande cara.


O Lauro Lisboa chama o Manguebeat de 'último grande movimento' da música brasileira. Você acha que o mercado da música mudou demais, talvez a ponto de eliminar a possibilidade de surgir "grandes movimentos" (como também seria o BRock ou a Tropicália), ou realmente nada mais apareceu com tanta força coletiva?


José Teles: Não descarto a possibilidade de movimentos. Aqui mesmo no Recife agora existe uma cena que trabalha a música enfatizando a melodia, o canto, um certo tipo de instrumentação, que pode acabar movimento. Acho que surgirão outros movimentos, com características de sua época.

 

José Teles em foto de Ricardo Labastier

José Teles (Foto: Ricardo Labastier)

 

Uma das forças do manguebeat está na sua capacidade de influenciar a produção musical brasileira da década de 90. Quais grupos ou artistas você entende que se inspiraram nos elementos do movimento?


José Teles: Muita gente. Acho que O Rappa foi um grupo influenciado, assim como o Afro Reggae. Mas o que o manguebeat fez foi levar o pessoal de vários estados olhar para a cultura que o cercava, a manifestações da cultura popular de suas regiões. Isto por sinal aconteceu vinte anos antes como Quinteto Violado, que influenciou muita gente país afora.


A atualidade das canções é uma das réguas usadas para marcar quais discos se tornam clássicos. O que te soa mais 2019 neste disco?  


José Teles: Acho a sonoridade pouco datada. Mas o que realmente é atual são as letras, pela atual conjuntura política brasileira. Na época as letras eram focadas nos problemas do Recife. Hoje podem ser cantadas contra novo governo conservador do Brasil.


Dentro do Manguebeat, quais outros discos você também enxerga como essenciais e que poderiam, eventualmente, ganhar um mergulho literário como este que você faz em "Da lama ao caos: que som é esse que vem de Pernambuco?"


José Teles: "Samba Esquema Noise", da Mundo Livre, claro, e "Samba pra Burro", de Otto, são os que me vêm à cabeça agora.


Que tal a experiência de lançar um livro digital? Como você enxerga esse nicho do mercado literário?


José Teles: Pro leitor habituado ao livro físico deve ser meio frustrante. Pra mim, que só leio impresso quando não tenho o digital, é ótimo. É muito prático. Você compra o livro, e em um minuto ele chega a você. E, afinal, de um livro o que vai ficar com a gente não é o cheiro ou vê-lo numa estante. É o conteúdo.


Lauro, de que maneira você acha que a pesquisa do José Teles ajuda aqueles que querem entender ou conhecer melhor a história do disco?


Lauro Lisboa Garcia: Falei acima sobre a axé music e coincidentemente tem a ver com a história da Nação Zumbi. Teles vai fundo nos antecedentes musicais dos integrantes do grupo, em que o samba-reggae também estava presente, entrevistou os profissionais mais importantes envolvidos na gravação do disco e antes dele (como os produtores Liminha e Paulo André), conta histórias detalhadas de personagens presentes nas letras das canções (que muita gente que não é do Recife não conhece), episódios pitorescos das gravações no lendário estúdio Nas Nuvens, no Rio, dá uma visão panorâmica do mercado de discos no momento em que a banda se projetou e mostra como e por que o manguebeat foi um dos movimentos mais importantes da música moderna brasileira, talvez o último que se configurou como manifesto mesmo (antes deles só teve o tropicalismo, as outras cenas não se consideram como movimentos). Teles há décadas é o homem de imprensa mais bem-informado sobre a cena musical do Recife e do Nordeste, foi numa matéria dele que Chico Science teve a primeira foto estampada numa página de jornal.

 

***

 

Serviço:

 

Lançamento digital Da lama ao caos, de José Teles

Coleção Discos da Música Brasileira (org. Lauro Lisboa Garcia)

Dia 29 de abril de 2019, nas principais lojas virtuais

Em breve, também em versão impressa

 

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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