Azoofa Indica: Nani Barbosa

Aos 14 anos, Nani Barbosa olhou o palco, olhou a plateia, sentiu um frio na barriga e decidiu que aquele inominado sentimento que lhe invadia em pleno Teatro Municipal de Presidente Prudente, minutos antes de ela se apresentar como flautista de um grupo instrumental, aquele sentimento era o melhor do mundo.

A despeito da pouca idade, a menina Nani tinha razão.

Tanto que a mesma Nani, exatos 20 anos depois, amanhã sobe novamente a um palco, mas desta vez em São Paulo e desta vez para lançar seu próprio disco. Seu primeiro disco. "Naif", o nome do álbum, será apresentado num dos espaços mais prestigiados da música brasileira, o Sesc Pinheiros (saiba mais aqui). E é sobre memória música, voz, criação e feminismo que Nani fala nesta entrevista exclusiva ao Azoofa.

AZOOFA: “Naif” é teu primeiro álbum solo. Como nasceu a ideia de gravá-lo?

Nani Barbosa: Em 2013, eu participava de alguns projetos coletivos em que inseria composições de minha criação, quando percebi que algumas canções precisavam de um projeto próprio para nascer e amadurecer. Então, a ideia de um projeto de álbum solo foi se delineando e se transformou no disco “Naïf”.

A tua formação musical é bastante extensa, assim como a tua experiência em grupos e coletivos musicais. Queria que você voltasse no tempo e contasse um pouco sobre como começou a tua relação com a música, quais as primeiras memórias que você tem sobre se encantar com a música.

Eu comecei a estudar música aos 7 anos, em Presidente Prudente (SP). Inicialmente, fui só acompanhar minha irmã mais velha que estava aprendendo piano, fui sem pretensão nenhuma. Entrei no curso de violão e logo me apaixonei pela música de forma arrebatadora. Segui fazendo todos os cursos que na época existiam na cidade. Me formei em violão erudito, depois estudei flauta transversal e canto. Eu era nova, mas meu programa preferido era ir pros ensaios dos grupos e orquestras em que participava. As duas primeiras memórias que me marcaram muito me vem na mente neste momento. A primeira é um pouco antes de me apresentar com um dos grupos instrumentais em que eu participava como flautista. Eu tinha uns 13 ou 14 anos de idade e estava na coxia do teatro municipal da cidade. Naquela excitação antes de entrar no palco, me emocionei e pensei “não tem lugar que me deixe mais feliz no mundo do que este.”

A segunda memória foi na decisão sobre qual curso de gradução eu ia fazer. Passei por um corredor, em algum lugar, e ouvi alguém tocando um piano. Arrepiei e algo transcendeu dentro de mim. Logo percebi que queria cultivar e compartilhar essa transcedência com outras pessoas através da música, mesmo se ainda tivesse que amadurecer os modos de concretizar isto. Depois disso entrei na faculdade de Musicoterapia.

No disco, você assina produção, direção e autoria. Como foi a experiência de tomar conta de tudo? 

Na verdade, foi um grande desafio e aprendizado. Achei importante passar por isto tudo como amadurecimento artístico, mas ao mesmo tempo não foi premeditado. A partir dessas canções das quais eu já tinha a concepção para voz, loops e violão, fiz um primeiro show intimista para mostrar para amigos e convidei o baixista Matias Nuñez para participar. Fizemos um show lindo e emocionante. Num segundo show, chamei o percussionista Kabé Pinheiro, que agregou à sonoridade e  completou o que faltava. Estávamos nesse processo e quando fomos gravar, senti que seria natural continuar a estimular as ideias que surgiram nos shows. Tínhamos um prazo relativamente curto para gravação e eu acabei encarando a produção e direção, porque sentia que a coisa estava fluindo, e que o disco já estava com uma identidade. Tudo deu mais trabalho do que eu imaginava, mas fiquei muito feliz com o resultado.

E todas as músicas do disco são de sua autoria. Como é o teu processo de criação?

Algumas criações surgem de cantarolar na rua, como “Hoje a Lua é Minha”. Outras surgiram da exploração de um determinado ritmo como nas palmas, como em “La Fiesta”. Algumas letras surgiram de temas ou ideias que eu queria falar, como em  “O que não é mercado”, “Canto Obá” e  “Prudência”.  Já para a interpretação e arranjos de voz, vejo que algumas vezes priorizo mais um conceito do que a busca por uma sonoridade confortável para quem vai escutar. Em “Avareza”, por exemplo, a voz assume um papel pontiagudo, talvez essa frequência aguda pode não ser confortável para algumas pessoas. Outras vezes, a voz assume diferentes texturas, produz camadas de loop e experimentação. Existe essa busca no meu trabalho.

Na letra de “O Que Não É Mercado”, parece haver uma crítica à cultura de massa que (ainda) exerce grande domínio na nossa sociedade. Como surgiu essa letra?

Queria fazer uma música de amor, mas comecei a escrever e vi que não ia rolar, estava muito mais pulsando uma ironia ácida presente na vida cotidiana. A busca desenfreada do lucro, da moda, do que dá resultado imediato. Tudo precisa dar resultado e audiência. O resultado foi que saiu mesmo como bolero, em que na canção latino-americana é ligada às canções de amor e ironicamente questiono: qual é a única coisa que não dá mesmo pra comprar de verdade?

Sobre o show no Sesc Pinheiros: o que você está preparando? E que tal será tocar por lá?

Haverá no show músicas do disco, algumas mais recheadas com as participações especiais e os arranjos que estamos preparando. Também terá uma música em espanhol e uma releitura do cancioneiro brasileiro que não estão no disco. Estou feliz e em expectativa de apresentar essas versões e arranjos neste show. Estamos - equipe técnica e músicos - nesse clima de lançamento e o Sesc Pinheiros vai ser um lugar perfeito para esta estreia.

No palco, você estará acompanhada de Kabé Pinheiro (percussão/bateria) e Matias Nuñez (baixo/vozes), e ainda das participações especiais Rodrigo Bragança (guitarra/efeitos) e o grupo A Quatro Vozes. Como rolou a escolha dos músicos e das participações?

Kabé Pinheiro e Matias Nuñez já estão no projeto desde o início e junto comigo formaram o trio que gravou o disco. Com o grupo A Quatro Vozes, temos uma história junto há pelo menos 4 anos, em que participo com elas de um coletivo de cantoras num espetáculo lítero-musical. Admiro a força, beleza e presença das meninas do A Quatro Vozes. Elas vão trazer isso nesse show, especialmente na participação na música “Canto Obá”. Já sobre o Rodrigo Bragança, eu acompanho o trabalho dele há algum tempo. Nós estávamos flertando sobre uma colaboração dele neste trabalho e quando se confirmou o lançamento, achei que teria tudo a ver, e ele topou imediatamente.

O show acontece no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Qual é, na sua opinião, a importância de uma data como essa?

Na história do Brasil, há um século atrás, a Chiquinha Gonzaga era um escândalo. Mulher, pianista, compositora, mãe, querendo viver de sua arte. Tinha como parceiros na música outros homens músicos, seu melhor amigo era o Antônio Callado, que era negro. Que afronta pra sociedade da época! Antes disso, no Brasil e no mundo, quase não se tem notícia de mulheres compositoras, criadoras. Muitas que existiram, hoje se sabe, não receberam os devidos créditos por suas obras, algumas tendo obras atribuídas a compositores homens de suas épocas. Também na história da humanidade, um século é muito pouco tempo para se reverter pensamentos, comportamentos e atitudes. Apesar de “todo dia ser o dia da mulher”, essa data levanta uma série de discussões muito importantes para a sociedade e que serão por um bom tempo ainda.

Há uma discussão latente sobre a posição da mulher na sociedade atual (vide o caso criado depois do texto de Fernanda Torres na Folha, cujo desenrolar está resumido aqui). Como você enxerga o feminismo hoje? 

Eu enxergo que também o feminismo passa por um processo de ajustes nos dias de hoje. Acho que em todas as pautas e assuntos reivindicados na atualidade são muito importantes, temos refletido e vivido isto intensamente. Por outro lado, tenho entendido que existe uma inteligência feminina, que quando consegue ser exercida, ela é muito potente e certeira. Essa inteligência agrega o feminino e o masculino. Ela não distingue gênero, mas sim, consegue ser maior que isto, justamente por ser agregadora. Acho que a virada chegará com o tempo à medida que o feminino e o masculino forem valorizados e trabalharem em parceria.

***

arte | belisa bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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