Os discos de 2018 de Mauricio Pereira e Arthur Nogueira

Qual foi o disco de 2018 pra você?

 

Fiz esta pergunta a oito artistas brasileiros e, ao longo destes últimos dias de dezembro, vamos publicar as respostas. O único critério era que o álbum escolhido tivesse sido lançado este ano. Pedi aos artistas que escrevessem livremente sobre suas razões e sentimentos acerca dos discos.

 

A série contou com textos originais lançados sempre em dupla: Filipe Catto e La Baq, Samuca e Luiz Gabriel Lopes, Maria Beraldo e Alessandra Leão. Abaixo, encerrando a série, eis as escolhas de Mauricio Pereira e Arthur Nogueira:




MAURICIO PEREIRA: “Desastre Solar”, de Laura Lavieri, e “Azul Moderno”, de Luiza Lian

 

Pois então, querido leitor do Azoofa, vamos falar de 2018…


Que ano, hein? Aconteceu tanta coisa, e tão intensamente, que ficou até difícil parar quieto pra ouvir um disco até o caroço. Pra mim, ainda por cima, que fiz e lancei disco esse ano, foi muito tempo dentro do trabalho, trabalho de fazer e de lançar, de divulgar e viajar. Fiquei muito satisfeito com o “Outono no Sudeste”, e adorei - absolutamente adorei - trabalhar com o Gustavo Ruiz, mas nessas faltou tempo e espaço pra ouvir toda a música que eu gostaria.


Mas não é do meu disco que eu quero falar. Foi um ano de muito disco bom, nossa… eu tava vendo a lista da APCA (que é apenas uma delas), são 50 petardos, dos gêneros mais variados, muita coisa boa mesmo.


Pra mim tem dois discos que chamaram a atenção nesse ano. Duas artistas jovens, com trabalhos muito pessoais, discos muito bem produzidos, e, principalmente, cantando muito. O “Desastre Solar” da Laura Lavieri e o “Azul Moderno” da Luiza Lian. Ouvindo esses discos juntos, um depois do outro, parece que eles me dão retratos complementares da alma, da pegada, da libido, da poesia, de sonoridades. Da época.


E são duas maneiras de fazer pop do bom.


O da Laura seduz. Nos temas, no jeito de cantar, nos timbres. Tipo um disco noturno, urbano, olho-no-olho, reto no jeito de botar o afeto na mesa, curvilíneo no jeito de cantar esse afeto. Tem um lado black music nele que eu amei, e ela regravou umas pérolas com autoridade: “Deixa Acontecer” me arrepiou. A sonoridade tem tudo a ver com a onda do disco, é barroco, é moderno, e me provoca, assim como as letras; o canto da Laura traz muita coisa nas entrelinhas. Adorei “Mais um Whisky”, do Gui Amabis, me faz pensar como cabem cenas e sutilezas dentro duma canção. E pra terminar, o gosto de ouvir a Laura cantar: ela não precisa levantar a voz pra ser contundente, o canto dela tem muita intenção, ela conta muita história enquanto canta. Enfim: discaço, bateu forte no meu lado escorpiano, me disse respeito, me botou na noite.

 


O da Luiza é diferente, me traz outro tipo de noite, a noite sagrada. É outro tipo de pop, ritual, espaços e silêncios. Se o da Laura traz uma trip do apartamento, o da Luiza tem uma trip de terreiro, natureza. E o chão desse terreiro é a eletrônica que o Charles Tixier injeta no disco sem piedade: um belo caso em que a sonoridade vem pra multiplicar o poético. O canto da Luiza tá muito maduro, ele abre caminhos sem pressa, respira e faz a gente respirar, e no rastro, oferece abrigo e melancolia. Conecta com o centro da Terra, com o pequeno fato no coração da metrópole. Nesse tempo meio bruto e sem espírito, em que a ruidagem abafa o mundo interno, o disco da Luiza bate que nem trovão, voz e synth.


Por fim, fora a toda sonzeira (e mais as belas canções que elas cantam lindamente), o que me chamou foi que esses discos tem muita alma: essas duas artistas me deram duas leituras finas do mundo em que a gente vive agora.

 

 

 

ARTHUR NOGUEIRA: "Negative Capability", de Marianne Faithfull

 

Certo dia de 2018, acordei com a notícia de que havia um novo disco de Marianne Faithfull no mundo. Corri para ouvir. Logo no primeiro verso — "Misunderstanding is my name" —, da belíssima balada "Misunderstanding", fui tocado pela honestidade com que ela pinta seu retrato musical aos 71 anos. Com a participação de Nick Cave no piano e nos vocais de "The Gypsy Faerie Queen", "Negative Capability" se ampara em elegante e direta sonoridade acústica, que valoriza o que é superior no álbum de uma compositora que ainda tem tanto a dizer: as canções. O resultado é belo. Belo no sentido preciso da expressão que dá título ao disco: o termo "negative capability", em português "capacidade negativa", foi usado pela primeira vez pelo poeta John Keats (1795-1821), referindo-se a trabalhos literários cujo senso de beleza supera qualquer consideração filosófica. O belo resulta das incertezas, dos mistérios e das dúvidas, sem se pretender fato ou razão.

 

Nesse mergulho para dentro de si, depois de tantos problemas de saúde, Faithfull se agarra a um repertório majoritariamente inédito. "Tudo passa, tudo muda / não há como continuar a mesma" ("Everything passes, everything changes / There's no way to stay the same"), conclui em outra grande beleza, "No moon in Paris". Em meio a reflexões tão presentes sobre o tempo, a solidão, o amor e a morte, é sintomática a releitura madura da canção com que ela começou sua carreira, em 1964: "As Tears Go By", dos Rolling Stones. Pouco se falou sobre "Negative Capability" no Brasil, mas para mim esse é um dos álbuns mais importantes e comoventes do ano.

 

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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