A mixtape afetiva do Madimboo

O trio formado por músicos da banda de Johnny Hooker fala do seu primeiro disco, 'Flertar é Humano'

O trio Madimboo (Divulgação) / Foto da capa: Pedro Escobar

 

 

Há pouco mais de cinco anos, os músicos Artur Dantas, Felipe Rodrigues (guitarra) e Thiago Duarte (bateria) criaram a banda Madimboo. Os três se conheceram na banda de Johnny Hooker, em 2014, com quem tocam até hoje. Ensaios pra lá, trocas pra cá, o trio gravou um EP e agora, três anos depois, lança o seu primeiro disco, 'Flertar é Humano'.

 

O álbum mistura passado e futuro e bebe da música regional pernambucana ao eletrônico: há frevo, brega, reggae, pop. Um baile para se jogar e flertar. Sintetizar todas essas referências não foi das tarefas mais fáceis. Foram três anos entre o lançamento do EP 'Candeia', em 2016, com três músicas, e o atual disco. O tempo serviu para os músicos entenderem melhor a força de cada composição e o papel de cada um na banda.

 

Gravado entre dezembro de 2018 a maio de 2019, em Recife, o disco tem participação de Natália Meira, Catarina Dee Jah, Feiticeiro Julião, Alan Amezon e Johnny Hooker. Duas faixas já ganharam clipe: "Bafo" e "Contato". No segundo vídeo, a ideia foi fazer uma montagem dos stories do trio desde 2015. Segundo Artur, o clipe poderia ter o titulo "volta ao mundo em 80 dias de ressaca". 

 

O vocalista bateu um papo com o Azoofa contando mais sobre a banda e o disco.

 

Primeiro, como vocês três se conheceram?

 

Nos conhecemos em Recife, em 2014, quando Johnny Hooker decidiu juntar uma banda de apoio para futuros shows e gravação do "Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito". Naquela época eu já tinha alguns projetos solos que me serviam de base pra colocar em prática minhas composições. Foi das bases de um projeto de música eletrônica (Lunar Tapes), que tinha começado em 2012, que surgiram as músicas "Caetano Veloso", "Candeia", e "Camomila", que entraram no nosso primeiro EP "Candeia". Na época, Felipe Rodrigues (guitarra) que já tocava com Johnny, tinha acabado de sair da banda Voyeur e tocava com Catarina Dee Jah. Thiago Duarte vindo da periferia de Olinda, cresceu e se desenvolveu tocando em várias bandas, fazendo Bailes na noite até entrar para o Conservatório de Música de Pernambuco onde começou os estudos com base em Polirritmia que viria ser característica marcante do nosso primeiro álbum.

 

Como esse primeiro disco foi pensado? Vocês tocam há 5 anos, gravaram um EP em 2016... Que momento foi esse de: agora é hora do disco?

 

O disco se desenvolveu a partir do nosso entrosamento. Foi um processo que existe mesmo antes da criação da Madimboo, quando nos conhecemos na banda de Johnny. Mudei a forma de compor pra me adaptar ao trio e surgiram muitos questionamentos sobre como ressaltar as nossas qualidades enquanto banda. A partir do ponto que começamos a criar um repertório, muita coisa mudou e a gente desenvolveu nosso estilo. O objetivo sempre foi compilar essas canções em um álbum. Existiu uma breve pausa pra entender o que tínhamos nas mãos, pois o material era muito forte, em nossa ótica. O momento certo aconteceu, mesmo que ainda com muito atraso, mas o "atraso" foi tempo necessário para criação desse disco tão audacioso. 

 

Vocês lembram do primeiro show do Madimboo? Como foi?

 

O primeiro show foi em Recife, em 2015, com o coletivo Baktum que realizava eventos na época. Foi basicamente em uma pequena casa de shows, cheia de amigos. Eu desesperado com a forma que tocava controladores na época, acho que esqueci alguma peça em casa. Bebi bastante, foi tanta nóia que lembro que um saquinho com bolinhas pequenas que impedem o PC de oxidar no case se abriu. Uma bolinha entrou na entrada do USB e eu fiquei me perguntando por que o USB não encaixava rs. Naquela época o som se aproximava mais do meu projeto eletrônico e adaptei algumas letras. Era uma grande jam em que a gente improvisava tudo. Quem tocava bateria na época era Rafael Céu, que também tocava com johnny.

 

 

Você lançaram oficialmente o disco há pouco mais de um mês, no Baile Perfumado. Como vocês têm sentido o disco desabrochar nos shows desde então?

 

A ideia sempre foi montar um show com todas as músicas muito fortes e o disco compila isso. Fizemos esse ano alguns shows tocando 90% do que seria o disco, usando iluminação e figurino. A estréia de fato foi no Baile Perfumado, para a qual chamamos todas as participações do álbum, mas esse show já tava desabrochado, se posso dizer. A cada apresentação que passa, a tendência é sentir mais as nuances das músicas, ganhando mais intimidade com o timing do show. É importante dizer que a gente sempre busca fazer diferente. 

 

O disco me soou um pout pourri de estilos: tem o batidão, um bolerinho, outra em pique de marchinha electro... a sonoridade do disco tem muita referência a outros tempos e estilos, mas traz um som fresco... era uma intenção fazer essa referência, mas apontar novos caminhos?

 

Isso. Existiu a necessidade de acessar uma memória musical, sempre no tom de "baile", como uma rádio antiga, quase esquecida, com vários ritmos se misturando. As músicas no seu contexto são frescas e, ao mesmo tempo, existia a intenção de tornar atemporal, no sentido de visitar o passado sem tirar o olho do que tá acontecendo e do que pode surgir. Eu imagino a música pop como algo inédito que já escutamos e que tá presa dentro da gente. As músicas falam sobre afeto, e sobre como seguir vivendo. Naturalmente, como bom canceriano, me apego bastante a tentar superar o passado. Essa é a intenção.

 

 

Essa mescla - às vezes percebo que artistas baianos, pernambucanos, têm mais facilidade em beber da música popular, sem vergonha dessas referências. Algo cultural, talvez. É só uma impressão?

 

Sim, não ter vergonha de acessar Paul McCartney compondo uma música de brega ou um frevo anárquico que já foi muito explorado pelos tropicalistas, mas inserido em outro contexto, que não é nem um pouco distante da nossa realidade no carnaval. O disco foi pensado de forma para incluir vivências de diferentes lugares e classes, não foi feito exclusivamente para jovens modernos apreciadores de arte ou exclusivamente para motoristas de ônibus que tocam seu Braguinha vintage no engarrafamento.

 

Isso vem muito da experiência ao vivo que tivemos, situações de tocar em locais punks do Centro de Recife, como também em praças periféricas em cidades do interior. Eu diria que o som é hipster demais pra sermos populares e popular demais pra sermos hipsters. Isso aconteceu no Tropicalismo e no próprio Manguebeat, era um desejo para o nosso som.

 

Por falar em Bahia, a música "Caetano"... ele é uma grande referência pra vocês? Aliás, essa é a única música do EP de 2016 que entrou no disco? Por que a escolha?

 

Entrou "Camomila" também, a pedido das pessoas, aí tivemos que criar outros caminhos para ela. Já "Caetano Veloso" era um desejo colocar no álbum pela força que tinha no repertório e nas pessoas. Já tínhamos também a ideia de despir ela dos arranjos pesados que existem na nossa primeira versão e na regravação de Johnny.

 

Caetano é uma referência muito grande na banda, na criação de ambientes sonoros e letras. Muitas músicas que nem citam ele, trazem uma paisagem do Nordeste e o mistério que encontrei muito nos discos dele. O próprio pensar em música vem muito da leitura do "Verdade Tropical". A banda é, em parte, uma extensão desse pensamento que já sentíamos antes dessa leitura. Caetano foi um match certeiro.

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem, e do blog Quadrinhas, sobre quadrinhos feitos por e sobre mulheres.

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