CLAPTON 75 ANOS

01/04/2020

5 fatos sobre o guitarrista que completou 75 anos

(Ed Caraeff/Morgan Media Partners)

 

 

O guitarrista, cantor e compositor Eric Clapton completou 75 anos no dia 30 de março. Com uma carreira de quase seis décadas, o Slowhand (apelido dado pelo empresário de seu ex-grupo, Yardbirds, Giorgio Gomelsky, em tom de brincadeira no começo de 1964, referente à reação da plateia ao esperar Clapton trocar as cordas quebradas de sua guitarra durante os shows: batendo palmas lentamente — "to be given the slowhand", o que, na Inglaterra, pode ser interpretado como uma forma de expressar tédio e/ou ansiedade) passou por poucas e boas em sua vasta trajetória. Conflitos familiares, fortes amizades com artistas contemporâneos e inúmeros recomeços pautaram a história deste que é um dos nomes mais influentes da guitarra no século XX. Abaixo alguns acontecimentos marcantes:

 

 

(Reprodução/Life in 12 Bars)

 

 

Infância

 

Nascido em Ripley, Inglaterra, em 1945, Clapton passou boa parte de sua infância achando que seus avós, Rose e Jack Clapp, eram seus pais. Por volta dos sete anos, descobriu a verdade ao ouvir uma tia perguntando à Rose se ela "tinha notícias da mãe de Eric". Lhe foi revelado, então, que sua mãe, Patricia Molly Clapton, na verdade sua irmã (filha do primeiro casamento de Rose, com Reginald Cecil Clapton), tinha 16 anos na época de seu nascimento e, sem condições de criar um bebê, o entregou para os pais e sumiu no mundo. Seu verdadeiro pai, Edward Walter Fryer, era um aviador canadense servindo no Reino Unido que, nas horas vagas, também mostrava talento como pianista. Foi se apresentando num bar da região que conheceu Patricia e logo começaram um breve romance, terminado quando a notícia da gravidez veio à tona. O pequeno Ric, como era chamado na época, ainda teve um traumático reencontro com sua verdadeira genitora aos nove anos. Cara a cara com Patricia (já casada e com dois filhos), perguntou se, enfim, poderia chamá-la de mãe. A resposta foi negativa. Para ela, Eric deveria continuar tratando seus avós como pais, em gratidão a tudo que haviam feito por ele — realmente Rose e Jack sempre foram muito presentes e criaram o garoto com muitos mimos e carinho, apesar da infância pobre. Se sentindo frustrado e, sobretudo, rejeitado, Eric se transformou em uma criança calada e reservada, passando a ter problemas na escola. No entanto aos 13 anos, já mostrando habilidade para a música, matriculou-se em artes na Hollyfield School. O resto é história.

 

 

(Divulgação)

 

 

Clapton is God

 

Imortalizada inicialmente em um muro do bairro londrino de Islington no final de 1965 ou início de 1966 (não se sabe ao certo), a icônica frase 'Clapton is God' logo se espalhou por inúmeras paredes e banheiros de casas de shows da cidade. O músico, então com passagens por Yardbirds e John Mayall & The Bluesbreakers, vinha se tornando uma figura requisitada na ainda crescente cena musical da região e já contava com um número significativo de seguidores e fãs admirados com sua virtuosidade. A princípio envaidecido pelo bordão, Clapton passou a se sentir encabulado com o tempo, dizendo nos anos seguintes que, apesar de desejar ser o melhor guitarrista do mundo, nunca tinha, de fato, aceitado que o era. Na verdade querer ser o melhor guitarrista do mundo, para ele, era um ideal, não uma meta. Em 2016 especulou-se que a primeira pichação com o slogan tenha partido de Hamish Grimes, divulgador que havia trabalhado para a banda Yardbirds.

 

 

(Divulgação)

 

 

Relação com Jimi Hendrix

 

Convidado para se apresentar na Inglaterra em 1966, Jimi Hendrix colocou uma condição no pedido: conhecer Eric Clapton. Solicitação aceita, o guitarrista americano partiu para a Europa e no dia 1º de outubro daquele ano se encontrou — por intermédio de Chas Chandler, baixista da banda Animals — com o Slowhand no palco da Regent Polytechnic College, onde acontecia um show do Cream, grupo integrado por Clapton na época. De lá partiram para um bar, onde beberam e conversaram sobre os mais diversos assuntos. Jimi chegou a beijar as mãos de Eric em sinal de carinho e passou a chamá-lo naquela noite de "irmão de alma da Inglaterra", tamanha a afinidade e respeito entre eles. Com o início da amizade, Clapton adotou um estilo mais descontraído de tocar, começou a usar o mesmo corte de cabelo e roupas parecidas com a de Hendrix, além de homenagear o parceiro com a música "Sunshine Of Your Love", no Cream, e com uma regravação matadora de "Little Wing", no Derek and the Dominos. Assim como Albert King, Steve Ray Vaughan e, aqui no Brasil, Edgard Scandurra, Hendrix, canhoto, sempre tocou com guitarras para destros de ponta-cabeça. Apesar disso, Clapton comprou por impulso, em certa ocasião, uma pequena Stratocaster branca canhota para dar de presente ao amigo. Com a certeza de que iria encontrar Hendrix — em turnê pela Inglaterra — no clube noturno Lyceum em 17 de setembro de 1970, durante um show da banda Sly and the Family Stone, partiu para o local com a "lembrança" em mãos, mas nada de Jimi por lá. No dia seguinte a notícia trágica: Hendrix havia morrido após uma mistura fatal de drogas e álcool. Devastado, Clapton confessou que foi a primeira vez que a morte de outro músico o afetara. Negou-se a ir no funeral do amigo. Não queria que a cerimônia se tornasse um evento midiático.

 

 

(Divulgação)

 

 

Falecimento do filho Conor

 

Não é segredo que certas etapas da vida de Clapton foram extremamente atribuladas devido ao seu consumo excessivo de álcool. O vício foi crucial para o enfraquecimento de seu casamento com Pattie Boyd, ex-esposa do amigo George Harrison, mas as traições também pesaram bastante na hora da separação. Em uma das escapadas do guitarrista, em 1985, nasceu Ruth, fruto de um relacionamento com Yvonne Kelly. Um ano depois, a modelo italiana Lory Del Santo deu à luz Conor, que viria a protagonizar um dos momentos mais tristes da vida de Eric. Apesar de pouco tempo juntos, Lory e Clapton mantiveram contato após o nascimento do filho, cada um em seu país, principalmente depois de Eric parar de beber em definitivo — muito devido ao baque com a morte de Stevie Ray Vaughan e membros de sua equipe em um trágico acidente de helicóptero em 1990, após um show em parceria no Alpine Valley Music Theater, Wisconsin — e cair na real de que deveria cuidar mais da saúde e passar mais tempo com a família. Em 1991 convidou Lory e Conor para um encontro em Nova York, para, enfim, poder realizar um legítimo programa de pai e filho. E assim foi. A dupla, pela primeira vez sozinha, foi ao circo e se divertiu como nunca. Eric finalmente compreendia o significado de ser pai e Conor, muito animado com os planos do dia seguinte — a ideia era irem ao zoológico —, mal conseguiu dormir, tamanha a ansiedade e alegria por compartilhar um tempo com o pai. Na manhã seguinte, Conor brincava de pega-pega com a babá no apartamento onde estava hospedado com sua mãe, no 53º andar do Galleria Condominiums, na 117 East 57th Street, quando não percebeu que uma das janelas — que sempre permaneciam fechadas no prédio — estava excepcionalmente aberta para uma limpeza geral. O zelador do prédio, inclusive, já havia alertado a todos sobre a manutenção. O mesmo fez a babá, dizendo para Conor manter distância do local. Não deu tempo. O menino despencou de uma altura inimaginável, atingindo o teto de um edifício de quatro andares ao lado e morrendo na hora. Ao saber da notícia, Clapton pensou por um instante que tudo ainda poderia ser um grande engano. Chegou ao local, confirmou o acontecimento com a polícia e, apesar de arrasado, arranjou forças para acalmar Lory, completamente fora de si, e prestar auxílio a quem precisasse. No hospital mais próximo deu o último adeus ao filho e, mesmo com o coração dilacerado, fez da desventura uma coisa produtiva: manteve-se sóbrio em memória de Conor (há algo mais penoso para um alcoólatra do que manter-se sóbrio em momentos profundamente difíceis?), que foi lembrado posteriormente nas canções "Tears in Heaven", "My Fathers Eyes" e "Circus Left Town".

 

 

(The Sun)

 

 

Neuropatia periférica e princípio de surdez


Em 2016, Clapton revelou à revista Classic Rock Magazine sofrer de uma doença chamada neuropatia periférica, enfermidade relacionada aos anos de abuso alcoólico, que afeta o sistema nervoso e pode provocar dormência, dores e fraquezas nas mãos e pés — impossibilitando-o, assim, de tocar guitarra. Segundo ele, tudo começou com uma dor nas costas que evoluíram e passaram a causar até sensações de choques elétricos em suas pernas. Dois anos depois foi a vez de contar à rádio BBC 2 que também estava começando a ficar surdo. Apreensivo, disse que cada vez mais ouvia fortes zumbidos em seu ouvido. Embora tenha sido fotografado em 2017 em uma cadeira de rodas e com a saúde visivelmente frágil durante uma passagem por Los Angeles, o músico segue normalmente sua agenda de shows pelo mundo (bom, seguia antes da pandemia) e, segundo o próprio, pode até se aposentar dos palcos em breve, se permitindo, no entanto, continuar gravando em estúdio — seu disco mais recente é I Still Do, de 2016.

 

 

Quem escreveu
Daniel Branco

Daniel Branco é redator e editor de conteúdo musical do site Azoofa. Lá coordenou a série em vídeo Azoofa Apresenta, escreve sobre o novo e o velho da música e entrevista bandas e artistas dos mais variados gêneros. Nomes como Criolo, Marina Lima, Kl Jay, Rincon Sapiência, Black Alien, Planta e Raiz, Kamau, Rashid, Bnegão, Supercombo, Plutão Já Foi Planeta e Francisco, el Hombre já passaram pela sua casa para trocar uma ideia, tomar uma cerveja e ouvir um LP – o que, para fins profissionais, chamávamos de Azoofa Live. Tem sempre uma história sobre um artista, um som, um show ou um disco na manga, mesmo que ninguém tenha perguntado.

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