QUESTIONÁRIO DA QUARENTENA #1

01/06/2020

"Tenho descoberto nessa quarentena que eu sou junto": Dani Black responde a 10 perguntas sobre esses dias de isolamento social

 

O cantor Dani Black (Foto: Marcos Hermes)

 

 

Dani Black estava prestes a lançar o registro audiovisual do show "Frequência Rara Ao Vivo", gravado no Tucarena, em 2019, quando a pandemia do novo coronavírus paralisou tudo. Agora ele vai lançando as faixas do projeto virtualmente e mantendo o contato com o público via redes sociais, o espaço que nos sobrou para interagir.

 

"Lançar as músicas na quarentena fez com que o lançamento fosse bem único. As músicas falam muito sobre olhar pra dentro, olhar pra si mesmo. Elas navegam por um universo bem interior.  Embora o show seja bem pra fora, expansivo e role muito som, o conteúdo das músicas convida as pessoas a olhar pros sentimentos, sensações, pra elas mesmas. Nesse momento isso pareceu ganhar ainda mais sentido", disse Dani ao Azoofa.

 

Quem acompanha o perfil de Dani nas redes sociais sabe que não é raro encontrar ali um post dele com o violão, cantando, tocando ou "trocando", como ele parece preferir dizer. Para ele, as lives dessa quarentena "escancararam o quanto a gente ama se comunicar e estar junto". "Fazer com que a distância não exista tem muito mais a ver com estarmos focados em uma mesma intenção".

 

O disco de estúdio, previsto para o segundo semestre, segue nos planos. Foi feito “para as pessoas fecharem os olhos e entrarem na experiência. As canções mexem muito comigo, vieram de um lugar muito sincero e sinto que vai ser importante entregar esse trabalho agora para o público depois do ao vivo”. O que ele ainda não sabe dizer é como serão os shows no futuro. Detalhes que vão ficar para logo mais.

 

Enquanto termina de divulgar o show e prepara o trabalho de inéditas, Dani Black topou responder ao Questionário da Quarentena, um pingue pongue com 10 perguntas sobre esses dias de isolamento social.

 

 

 

 

Você lembra o que fez no último dia antes do seu isolamento começar?

 

No meu último dia antes do confinamento eu tava numa aula de teatro. Tô fazendo um curso de teatro livre e, já por causa do covid-19, a gente não estava numa sala, estávamos numa praça. Foi interessante porque fizemos um exercício de andar por lá vendados, sem olhar a praça, só senti-la e se deixar ser conduzido por outra pessoa que te pega pelo braço e vai encaminhando pelo espaço. Foi a última coisa que fiz antes do confinamento. E, pensando agora, esse exercício que foi feito tem muito a ver com confiança, uma coisa que tem sido muito pedida agora. A gente se deixar ser conduzido mesmo e ir ouvindo o que tem que fazer, ir fazendo, mas experimentando as coisas de um jeito que a gente não experimentou. É bem parecido com o exercício de teatro, parecia que eu tava me preparando pra esse momento.

 

 

Você já pensou em como gostaria que fosse o seu primeiro show com público?

 

Nosso primeiro show com público eu quero que seja uma grande comemoração. Uma grande celebração da travessia de tudo isso que a gente viveu, do reconhecimento da importância de cada um na vida do outro e uma comemoração dessas músicas novas que a gente tá lançando e vão poder ser cantadas num show para as pessoas. Vai ser um momento muito alegre e muito gostoso.

 

 

O que você descobriu sobre você nesses dias de isolamento social?

 

Eu tô descobrindo, né? Tô descobrindo muitas coisas. Tô descobrindo que eu sou mais amoroso e mais afetuoso do que eu percebia, que sou mais profundo do que eu percebia. Tô descobrindo um sentimento de solidão dentro de mim, uma sensação que eu preciso ressignificar, compreender. Que lugar é esse que eu me sinto sozinho, em que independente do que aconteça, eu sinto que estou sozinho? Ao mesmo tempo, este momento também me traz uma resposta: eu não sou sozinho, eu sou muito junto com as pessoas, tenho muitos parceiros, muitas pessoas que eu posso contar. Eu tô me relacionando mais com as pessoas nesse momento e isso tá me fazendo perguntar o que é essa sensação de solidão que nós temos e, no final das contas, se olharmos bem, tem mais a ver com querermos manter uma sensação de que algo está faltando do que de fato sermos sozinhos. Eu tenho descoberto nessa quarentena que eu sou junto.

 

 

Qual foi a sua maior extravagância?

 

A minha maior extravagância foi lançar um trabalho novo nesse momento (risos). Foi pegar toda a abundância de uma criação que veio ao longo de um bom tempo sendo feita e jogar tudo isso no mundo agora, com todo o brilho e carinho que isso tem dentro. Foi uma extravagância maravilhosa de se fazer.

 

 

Qual foi o seu maior medo até agora?

 

Acho que o maior medo que tive até agora foi o medo da morte. Porque no final das contas, o lance de se proteger da doença tem por trás um medo enorme da morte. Um medo de ficar doente e morrer. É louca essa pergunta que você fez, porque ela traz um lugar bem profundo do que realmente mexe com as pessoas nessa situação. Porque a gente fala de todas as coisas que esse momento tá nos fazendo sentir e causando instabilidade, mas no fim das contas será que algum deles não é direcionado para o medo da morte? Ou, ainda, para o medo da solidão? Talvez sejam esses os medos mais profundos que estejam por trás desse momento e que eu tenho olhado, sentido e compreendido cada vez mais.

 

 

Fotos: Marcos Hermes

 

O que mais te irritou nessa quarentena?

 

Eu tive momentos de irritação e acho que tem a ver com as coisas que começam a emergir e se mostrar e são coisas desconfortáveis, que estavam ali escondidas e num momento como esse, de isolamento, elas se mostram. Isso pode causar irritação porque existe uma resistência em olhar pra essas coisas. Se estavam escondidas, é porque tivemos a intenção de esconder e se elas estão vindo, é porque de alguma forma decidimos parar de escondê-las e trazê-las para a clareza. E até que a gente tope receber isso como um presente, uma informação que vai nos jogar pra um outro patamar de relacionamento com a gente mesmo, a gente pode passar momentos de irritação. Então eu já passei por tudo nessa quarentena - de momentos muito alegres, muito gostosos de sentir que as coisas tão me impulsionando e já passei por momentos de choro, de irritação, de angústia, de introspecção, sentindo essas coisas que tão aí pra serem olhadas e, justamente por estarem sendo olhadas, sinto que estou me despedindo delas. Mas é isso, me irritaram coisas que nem sei explicar direito o quê. São aqueles dias em que falamos “nossa, eu tô muito irritado e ainda não sei o porquê”.

 

 

Nesse isolamento você percebeu que não pode viver sem...

 

Eu descobri que não posso viver sem as pessoas, sem me relacionar. Eu não posso viver sem compartilhar o que eu sinto com outra pessoa. Eu não posso viver sem querer compreender as outras pessoas, sem perceber que tudo tá conectado e perceber que isso é muito bom.

 

 

Se você tivesse que escolher uma trilha para essa quarentena, qual seria?

 

Quando eu li essa pergunta veio um nome na minha cabeça e eu tenho andado muito com ele na mente e ouvido muito, então Gilberto Gil é a resposta.

 

 

Quais mudanças você espera no mercado da música, no jeito de fazer shows e até de consumir música?

 

Quando a gente voltar a fazer os shows, voltar a poder estar juntos, vai ser uma grande celebração, não só de poder reviver algo que se gostava de fazer antes, mas também de compreender em um outro nível o que se reunir representa. Sobre consumir música, a inventividade tá viva nesse momento, então o próprio tempo vai contar pra gente as soluções que a gente encontrou nesse período e que podem enriquecer o mercado e o jeito de trocar, escutar e consumir música a longo prazo.

 

 

Quando a quarentena acabar, você...

 

Quando a quarentena acabar eu vou dar um beijo e um abraço enorme em todas as pessoas que eu amo muito e vou celebrar isso fazendo os shows do “Frequência Rara”.

 


 

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Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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