Regis Damasceno - Loop [2020]

02/07/2020

Regis Damasceno lança "Loop", disco gravado durante a quarentena

foto: Marcelo Subrin

 

 

Em março, quando a pandemia fez sua primeira vítima em São Paulo, o músico Regis Damasceno deixou seu apartamento na capital paulista e viajou para Recife, onde vive a filha, Rita. Quase quatro meses depois, ele segue na cidade pernambucana, confinado.  

 

Se uma mudança não programada pode gerar desorganização interna em alguns, em Regis o efeito foi o contrário: em Recife, perto de Rita, ele conseguiu pôr em ordem ideias musicais que, agora, se materializam no disco "Loop", que ele acaba de lançar sob a alcunha de Mr. Spaceman. O álbum sai pelo selo carioca Midsummer Madness e está disponível primeiro pelo Bandcamp, e no dia 17/07 nas plataformas digitais. 

 

 

 

O disco foi gravado no próprio quarto de Rita. Regis precisou apenas de um computador, instrumentos e o auxílio à distância de amigos como Zé Ruivo (teclado), João Victor Barroso (MIDI orchestra), Fish Magic, Mário Quinderé (que assina cinco das 11 letras) e Júlia Debasse (letra em "Here's to the lovers"). A mixagem é de Felipe Couto, a masterização de Clayton Martin e a arte da capa é de Gil Duarte, sob design de George Frizzo. Mas a participação mais especial, porém, aparece logo no começo: Rita canta com o pai a faixa de abertura "Bliss"

 

Regis Damasceno é um dos mais importantes músicos brasileiros na ativa. Guitarrista do Cidadão Instigado, já tocou com Karina Buhr, Marcelo Jeneci, Filipe Catto, Lucas Santtana, Tom Zé, Arnaldo Antunes, Vanessa da Mata e diversos outros nomes de ponta da MPB; produziu álbuns de Pélico e de Karina Buhr e dirigiu espetáculos como Nick Drake: Lua Rosa, Bacurau Show e Criolo: Nelson Gonçalves 100 anos. 

 

Sua porção cantor e compositor aparece em algumas destas produções, mas é como Mr. Spaceman que ela se torna protagonista. O projeto nasceu em 1998, com Regis compondo canções e chamando os amigos para ajudarem a executá-las. De lá pra cá, já são quatro discos e 2 EP's, estes também disponíveis para compra e escuta no Bandcamp. 

 

"Loop" é uma sequência de canções rápidas e diretas com arranjos que evocam toda a trajetória musical de Regis - estão ali os Beatles, sua referência primordial, mas também novas buscas sonoras. Entre momentos sublimes ("Lullaby for a jellyfish") e solares ("Here's to the lovers"), "Loop" é desses discos com uma rara característica: por mais diferentes que sejam entre si, todas as suas músicas têm força semelhante. 

 

Conversei com Regis sobre o disco, a experiência de gravar em casa e outros temas mais. Confira:

 

 

 

 

Eduardo Lemos: Primeiro: como é essa persona solo, Mr. Spaceman?

Regis Damasceno: Montei esse projeto em Fortaleza ainda, por volta de 1997. Tinha uma banda com amigos, mas logo depois parti pra fazer tudo sozinho. Compunha, gravava, lançava. Tem dois EP's e este é o quarto disco. Mr.Spaceman sou eu e minhas canções.

 

Como foi o processo de gravação de Loop? Você me contou que estava fazendo tudo em casa... 

Fiz este disco no quarto da minha filha Rita, em Recife. Saí de SP no fim de março, quando ocorreu a primeira morte devido ao Covid-19, achei que seria bom ficar perto dela nesse momento. Como não saímos de casa, porque não é seguro, então fomos criando uma rotina diária, até ela voltar a ter aulas online. De noite, antes de dormir, eu fui tomando gosto e senti a necessidade de gravar e organizar o que veio a ser o "Loop". Fiz durante o mês de maio.

 

Você já tinha feito isso antes? 

Não, os outros discos foram do jeito padrão, vai no estúdio, grava umas partes, monta tudo, edita, esse processo. Dessa vez o disco veio por necessidade mesmo.

 

São composições atuais, ou parte você já estava pronta? O que te guiou na escolha das faixas que entraram no disco?

Tinha por aqui muito esboço gravado no telefone, coisas de 10 anos que não tinham virado uma canção. Saí ouvindo tudo e avaliando o potencial. Algumas eu fiz durante o processo, como "Bliss", que fiz no ukulele que Rita tem em casa. Fui nesse crivo e acho que consegui um bom material.

 

Duas canções você assina sozinho ("Fields" e "Red Arches"), e ambas são peças instrumentais. Como é a decisão se uma música deve ou não ter letra?

Algumas canções não precisam de letra para existir, algumas já são temas, se bastam. As palavras podem facilitar a comunicação, claro, mas o código musical é importante e precisa ser apreciado. Essas duas e "Turn on", também instrumental, senti assim: elas comunicam subjetivamente, o que acho bom.

 

Exceto por “The Sound in Town”, as músicas não ultrapassam 3 minutos de duração. Isso é uma coincidência ou você procurou criar um álbum mais direto?

Sim, quis ser mais direto, sem fazer introduções longas. A atenção das pessoas tem mudado com tanto estímulo sonoro, visual, e a percepcão tem se alterado. Isso e o fato de eu gostar de letras curtas, não repetir muito. Fui mais conciso, achei que tinha de dizer o que está no disco de forma urgente. "The sound in town" merecia ser como é, lenta, pesada, vazia e melancólica, tal qual o título sugere. Essa letra é do Mário Quinderé, e foi escrita no ano passado, no mundo antigo normal.

 

A participação da Rita está já na faixa de abertura, o que me passa uma mensagem super afetiva. Como foi tê-la no disco? Sei que a Rita tem demonstrado interesse por música não é de hoje...

"Bliss" foi feita aqui com ela perto. Ela tem demonstrado cada vez mais o gosto pela música, consegue ouvir notas, tem ampliado a percepção e, claro, começou a gostar dos Beatles. Compus esse ciclo de acordes, fiquei repetindo por algum tempo, ela ouvindo ali perto, curiosa. Pedi que ela cantasse qualquer coisa, ela veio com a melodia completa e essa letra. É um presente da vida.

 

Duas coisas me chamaram a atenção quando escutei o disco pela primeira vez. A primeira é que não se trata de um álbum minimalista (no sentido que se pode esperar de uma produção com as limitações de ser feita em casa e durante a pandemia); pelo contrário, os arranjos são construídos com várias camadas, e algumas canções têm resultados sonoros bastante grandiosos. Como você chegou neste caminho?

Eu já tinha feito um disco minimalista em 2009, "Work for idle hands to do", em parceria com a Julia Debasse, só violão, piano, cello, vozes. E não acredito que a limitação técnica te leve ao minimalismo. Fiz este disco com o que tinha aqui: um computador e minha placa de som. Como não estou em minha casa e com meu equipamento, contei com a ajuda de amigos em Recife que me emprestaram violão, guitarra, controlador midi e microfone. E fui sentindo vontade de dar mais estofo pras canções, preenchendo ou esvaziando, fazendo os arranjos soarem bem. O caminho foi sendo feito durante o processo.

 

A segunda: para mim, trata-se de um disco solar, embora tenha seus momentos de intranquilidade. O resultado final da escuta aqui foi de esperança e força. Você tem essa percepção também?

Sim, sem dúvida. Alguma esperança sim, tem de haver. Tem a melancolia de que gosto mas tem uma sensação de que pode ter uma saída. 

 

Loop, o título, remete à repetição dos dias, esse efeito estranho da quarentena. Como a pandemia tem te afetado, profissional e pessoalmente?

O título remete sim ao entra e sai dos dias, sempre iguais, durante este período que os seres humanos têm vivido no ano de 2020. Estamos nos adaptando ainda. A pandemia é assustadora mas pode trazer coisas positivas. Gosto de ficar em casa, mas gosto de ter a possibilidade de sair. Agora não podemos. Isso tem afetado demais a todos, eu vivo de ser músico há 30 anos. Sei que a performance musical não vai voltar a ocorrer tão cedo. E também sei que a atenção das pessoas para a performance musical tem se deteriorado nos últimos anos. É um período muito difícil mas espero que consigamos provar nossa adaptação.

 

Por fim, como foi a experiência de manter-se criativo neste momento difícil? Muitas pessoas relatam ter dificuldade para produzir (às vezes até para se concentrar), e de repente você criou um disco…

Acredito no trabalho e no esforço. A dose de criatividade tem de existir, mas não ajuda em nada ficar esperando a inspiração chegar, o momento certo. Qualquer momento serve, um minuto concentrado é melhor que 30 minutos no computador, fazendo nada, como fazemos. Já tinha a maior parte das ideias desse disco em mim, de maneira desorganizada. Consegui continuar criando e organizei para que aqueles pedaços de música se materializassem em canção. Espero continuar fazendo isso, tenho ainda uma pasta com certamente mais um disco. Se a pandemia durar até o fim do ano, é quase certo que eu lance mais um.

 

 

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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