LAURA WRONA DE VOLTA À ESTRADA

18/09/2020

Cantora e compositora lança novo single

 

Se alguém perguntar por Laura Wrona, diz que ela foi por aí, encontrar a si mesma (e estudar acupuntura). Sem gravar material inédito desde 2016, quando colocou no mundo o ótimo disco "Cosmocolmeia", a cantora e compositora lança seu novo single, Se acaso a casa, nesta sexta, 18, com exclusividade pelo Azoofa. 

 

A faixa foi criada em 2018 e registrada numa gravação caseira. O encontro artístico dela com o músico e produtor Pipo Pegoraro tirou a canção da gaveta. "O Pipo me procurou para que eu fizesse as fotos de divulgação de seu álbum "Antropocósmico", que estava em fase de finalização. Fizemos uma troca: eu faria as fotos e ele me ajudaria a produzir uma faixa", conta. 

 

Em junho deste ano, em meio à pandemia, morando no interior de São Paulo e com os compromissos profissionais suspensos (Laura também é fotógrafa e promove oficinas de artes, que foram canceladas diante da quarentena), a letra da música pareceu ainda mais atual: "no que se segura/ quando tudo está pra romper?".

 

 

 

 

A resposta dessa vez não foi a medicina e sim a arte, que definitivamente se mostrou como sua via mais essencial de integração. “Voltar a produzir música e ainda por cima na parceria com o Pipo, que sempre admirei muito como músico e como pessoa, me permitiu reconciliar com o fazer artístico e inclusive entender que tudo faz parte de um mesmo caminho, sem precisar haver hierarquia de valores ou escolha entre o estudo e a experiência poética”.

 

Produzida à distância, a faixa ganhou instrumentação do próprio Pipo, que tocou quase todos os instrumentos (exceto chocalhos e algumas pontuações melódicas feitas pela Laura). As vozes foram gravadas no estúdio Canto da Coruja em Piracaia, próximo a onde a artista reside atualmente e onde pode chegar sem grandes deslocamentos e tomando os cuidados de distanciamento, uma vez que era somente ela em estúdio naquele momento.

 

Para a mix foi convidado o produtor e engenheiro musical João Milet Meirelles, que acabara de lançar o álbum Taxidermia (de Jadsa), que a impressionou pela produção: “Não conhecia o João. O procurei por causa do trabalho que lançou e foi uma aposta que fiz e que me deixou muito satisfeita”. Já a master ficou a cargo de Florencia Saravia, engenheira de som muito querida no meio musical com quem já havia trabalhado em shows dos trabalhos anteriores.

 

Conversei com Laura sobre a estética sonora de Se acaso a casa, os temas que ela levanta na letra e os planos de continuar produzindo novas canções. Confira: 

 

foto: Ilana Bar 

 


Eduardo Lemos: desde Cosmocolmeia, você 'deu um tempo' na produção de discos e singles. Como ficou a sua relação com a música nesse período? 


Laura Wrona: No ano em que lancei Cosmocolmeia, descobri que precisaria fazer uma cirurgia, da qual levaria três meses para me recuperar. Então um pouco depois que fiz o show de lançamento (em março de 2017, no Sesc Belenzinho) já precisei me retirar para cuidar da saúde. Foi um período difícil, seguido de um término de um relacionamento importante… isso tudo mexeu comigo e interrompi a divulgação do disco precocemente. No final deste ano turbulento, me aproximei da Rita Oliva que estava começando seu projeto Papisa e de início dividimos algumas noites nas quais abri seu show. Acabei me juntando à banda como percussionista e backing vocal e trabalhei um ano no projeto sendo parte da banda de apoio, um papel que eu nunca havia desempenhado antes. Somado a isso, em 2018 comecei a estudar Medicina Chinesa, acho que por conta da necessidade de me cuidar mesmo, de ter uma consciência mais profunda sobre a saúde. Fiz turnê com a Rita estudado para as provas…rs. Me formei acupunturista no início deste ano, pouco antes da quarentena ser anunciada. Esse período de estudos foi bastante transformador e exigiu uma dedicação que não consegui dividir com a música. Mas ainda assim fiz pequenos shows e toquei algumas vezes em praças, com o projeto Calorumano que mantive ao longo de 2018 e 19 em parceria com a professora de yoga Debora Murakami.


Este é o primeiro single de um disco? O que você planeja daqui em diante?


Este single estava guardado desde 2018, quando tivemos o resultado das eleições presidenciais. Não sabia bem o que fazer com ele, ficou guardado até que surgiu a oportunidade de gravá-lo, a partir de uma permuta que fiz com o Pipo Pegoraro, músico, produtor e amigo querido. Fiz as fotos de divulgação para seu disco Antropocósmico e em troca ele me ajudaria a produzir uma música. Assim fizemos esse single, que não faz parte de um disco, mas que dialoga com os trabalhos anteriores… o vejo como uma faixa de transição para uma próxima etapa. Tenho algumas músicas guardadas e pretendo lançá-las no ano que vem, penso que trabalhando com diferentes produtores por faixa. Por enquanto seria um EP, mas conforme o andamento do processo pode ser que venha um álbum. Acaba saindo muito caro gravar um disco inteiro e esse formato de single e EP é uma forma de reduzir um pouco esse gasto. Só sei dizer que não pretendo me afastar novamente por tanto tempo, pois me dei conta de como essa via de expressão artística é importante para mim.



 

O single tem uma estética sonora interessante, que traz referências eletrônicas e ao mesmo tempo preserva o som natural dos instrumentos. Como foi produzi-la e como foi se desenhando esse caminho?


A faixa foi produzida pelo Pipo Pegoraro. Fiz uma gravação no meu computador com os recursos que tenho, um setup básico mas que me permite esboçar as ideias musicais que desejo desenvolver. Mandei para o Pipo e ele me devolveu já com a música resolvida, entendeu muito rápido o que eu imaginava esteticamente, foi um encontro muito fortuito. 

 

Ele mesmo tocou todos os instrumentos e gravou no Caso Raro, estúdio que mantém em sua casa. Daí acrescentei algumas linhas que toquei aqui com um teclado midi e fui gravar as vozes no estúdio Toca da Coruja, no interior de São Paulo. A produção foi toda à distância, um jeito com o qual não estava acostumada mas que me surpreendeu pela viabilidade.

 

Queríamos que a música tivesse uma cara mais eletrônica, mas mantendo a timbragem dos instrumentos. Convidei o João Milet Meirelles depois que escutei o EP Taxidermia, da Jadsa, que o João co-produziu e mixou. Gostei muito da mix desse trabalho e do lugar da voz na produção, algo que levo bastante em conta. O João trouxe esse aspecto eletrônico que faltava e contribui também sugerindo algumas inserções de voz e ambiências. Ao final a masterização da Florencia Saravia deixou tudo mais encorpado. Foi um trabalho que teve muita convergência no entendimento e na soma de todos que participaram, fiquei feliz com o resultado.

 

 


 

O ser humano passa a vida buscando por felicidade ou paz, mas raramente procura dentro de si. A letra trata um pouco deste movimento de autoanálise, e até autocuidado. Como você enxerga este tema?


Quando escrevi essa letra estava muito abalada pelo rumo que a política estava tomando no país e não só isso, o clima de intolerância e hostilidade que predominava. Precisei perguntar a mim mesma o que me dava eixo no meio desse caos exterior e quis levar essa pergunta às pessoas, no intuito de trazer essa reflexão, pois quando perdemos a referência de mundo externo o que nos resta é buscar dentro, no que construímos ao longo de nossa trajetória, as referências que cultivamos, nossa subjetividade e capacidade de ressignificar a vida. Penso que não se trata de uma busca por felicidade ou paz, mas sim de encontrar a força motriz que nos impulsiona, uma força que independe das condições exteriores mas, que uma vez acessada se converte em potência de transformar a realidade. Não creio que governo algum possa nos dar esse acesso, que sempre pertenceu a cada um de nós, embora possa muito bem nublá-lo com a atmosfera destrutiva que vem sendo promovida. Então essa música é um chamado para a confiança no instinto da Vida, que é maior que qualquer tentativa de controle. Trocaria a palavra "felicidade" por alegria e “paz” por confiança - em si, na Natureza, na transformação que podemos fazer movimentando essa energia. 



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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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