EX-MÓVEIS SE REÚNEM NO REMOBÍLIA

26/11/2020

Banda já lançou três músicas e planeja mais uma para dezembro; faixas vão compor EP

 Remobilia - por Coma La em Casa

 

 

Remobiliar a casa para voltar a tocar junto. Foi essa a ideia dos músicos André Gonzales, Beto Mejía, Esdras Nogueira, Fernando Jatobá e Gustavo Dreher, ex-integrantes do Móveis Coloniais de Acaju, ao se reunirem em um novo projeto, o Remobília. A ideia era tocar junto de novo e trazer as experiências de seus trabalhos solo para esse novo universo compartilhado, acompanhados de Thiago Cunha (bateria) e Rodrigo Balduino (baixo).

 

Desde o fim da banda, em 2016, cada um vem se dedicando aos projetos pessoais. André Gonzales se jogou no trabalho com pessoas da terceira idade chamado o Sr. Gonzales Serenata Orquestra; Esdras gravou quatro discos instrumentais e excursionou pelo Brasil e Europa; e Mejía pôs toda sua energia na paternidade e na criação do projeto musical infantil "Onde o infinito é som", além de ter lançado outros dois outros trabalhos solos. Cada um em seu projeto, mas sempre colaborando com os outros. A reunião era questão de tempo. 

 

"Saudade de tocar e produzir juntos, a gente já estava contribuindo muito um com o trabalho dos outros, e desse envolvimento veio a vontade de montar a Remobília. É um encontro novo com velhos amigos", conta Esdras em entrevista ao AZOOFA. A reunião já rendeu três músicas, "Nós", "Sol no rosto", com participação do Mateo Piracés (Francisco, el Hombre) e "Jogo", todas lançadas durante a quarentena. Outra faixa deve ser lançada ainda em dezembro e as quatro vão compor um EP, ainda sem nome.

 

As canções trazem a mistura do rock com o ska que destacou o Móveis na cena independente no final dos anos 1990 e pregam um sentimento de união, otimismo e reflexão sobre como estamos agindo na sociedade. O clipe ensolarado de "Sol no rosto" traz o depoimento de uma enfermeira e homenageia os profissionais de saúde do sistema público.

 

 

"Beto trouxe a letra e a música bem desenvolvidas, era sobre o momento auge de muita gente na pandemia, a hora que bate aquele solzinho e traz uma alegria e uma luz para gente. Mas a ideia vai além disso e faz uma homenagem a todos os trabalhadores da saúde que até hoje tem dedicado suas vidas no combate à pandemia. Para gente é super importante entender o outro nesse momento que estamos vivendo de pandemia, de políticas nada democráticas tomando cada vez mais voz, tanta gente perdeu entes queridos. Queremos espalhar que a nossa música traga esse conforto e aproxime as pessoas, e foi uma coisa natural do lado de cá também, nada muito pensado, aconteceu”, conta Esdras.

 

 

 

MÓVEIS <3 FÃS

 

Se na época do Móveis Coloniais o grupo arrastava fãs por onde passava, os músicos vivenciaram uma experiência diferente ao lançar o Remobília distante fisicamente do público. "No nosso caso é curioso porque a gente nunca fez um show, a banda começou com algumas datas de festivais pelo Brasil já marcados, mas foram cancelados. Daí produzir juntos e buscar essa conexão com o público unicamente pelas redes sociais tem sido desafiador e bom demais", diz.

 

"O Móveis foi incrível e viver de música nesse momento de crescimento cultural, essa efervescência do começo dos anos 2000, cheio de possibilidades para a cultura em todo o Brasil. Começamos a viajar a partir de 2005, depois do lançamento do disco ‘Idem’, e desde então não paramos mais. O público da banda foi conquistado show a show, e fizemos muitos amigos Brasil afora", lembra Esdras.

 

O Móveis surgiu em 1998, em Brasília, e não demorou muito para arrebatar público e crítica na cena independente. Era uma época de baixar e trocar arquivos, a ideia do streaming estava longe. No entanto, a cena provocou uma mudança no olhar das gravadoras, que viram a presença das bandas independentes crescer, conquistar público e também a mídia. Foram 18 anos de estada até o anúncio da pausa por tempo indeterminado, em 2016. De lá pra cá, o que não faltou foi mudança no meio musical.

 

"Vejo como uma engrenagem que está sempre andando e sempre em desenvolvimento. A gente pegou o começo da internet, o surgimento do mp3 e todo debate em torno dessa distribuição digital, surgimento dos smartphones e da explosão das redes sociais, da monetização nas redes, e tudo isso faz parte hoje da nossa história. Para se manter no jogo e ativo não dá pra ignorar essas mudanças, temos que entender tentar usar para espalhar coisas boas", diz ele.

 

 

Esdras conta que a banda soube usar a democratização que rolava na época no acesso às músicas a seu favor. "Lembro de um show em Belém que fizemos, nosso primeiro por lá, todo mundo conhecia nossas músicas porque alguém copiou e espalhou e na hora foi aquela surpresa. Teve outro episódio quando fomos convidados a palestrar na Campus Party e falar sobre esse envolvimento com as diferentes redes sociais e como fazer bom uso delas. Nosso foco é e sempre foi a aproximação real com o público e hoje temos ainda esse pensamento na Remobília".

 

 

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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