Seleção brasileira: 10 novos artistas pra você ficar de olho

No melhor clima de Alta Fidelidade, de Nick Hornby, convoquei o meu amigo e colega de profissão Yuri de Castro, do Fita Bruta, para fazermos aquilo que o personagem principal deste livro mais gosta: fazer uma lista. Escolhemos discutir, analisar e definir quais são os novos nomes da música brasileira que merecem nossa atenção. Não vamos negar que o critério foi, acima de tudo, emocional. Listamos os artistas que mesclam criatividade e originalidade com o (suspeito) sentimento de emoção que causa aos dois.

Nomes como Criolo, Tulipa Ruiz, Metá Metá e tantos outros mereciam constar na seleção. Mas, como toda lista que se preze, alguém tem que ficar de fora.

Então, ficamos assim: a lista de hoje é essa.

Passem amanhã e talvez mudemos de ideia.

Lucas Santtana

Até quando um artista pode ser considerado novo? Quais critérios devem ser aplicados? Idade, tempo de carreira, número de obras produzidas? No caso de Lucas Santtana, os três itens acima não nos permitem classificá-lo como “promessa da nova MPB”: Lucas já passou das 40 primaveras, tem quase 15 anos de carreira e conta com 5 discos-solo.

Mas, a despeito disso tudo, é o artista mais importante desta nova geração – porque o “novo” talvez se meça mais pela originalidade do artista e de sua obra do que por qualquer critério numérico. Compositor de mão cheia, Lucas passeia entre o pop e experimental, entre canções assobiáveis e etéreas. Vem a cada disco se aperfeiçoando como letrista – especialmente quando canta (celebrando ou se decepcionando com) o amor. Ao vivo, é um colosso e soa mais pesado do que nos discos.

Se há um nome que poderia salvar o pop brasileiro - esse pop brasileiro cujo desejo é ser popular como Lulu Santos, mas que produz canções esperando a benção da Tropicália -, esse nome é Lucas Santtana.

Ouça: Cira, Regina e Nana

Céu

A obra da cantora paulista é uma verdadeira... viagem. Viagem que começa por sua voz, original e malemolente, que se transporta entre o português e o inglês com naturalidade espantosa. Depois, o som, que faz visitas regulares à música brasileira – tem samba, tem forró - ao reggae jamaicano – do early reggae ao ska - ao jazz e à música africana.

Sob a batuta do produtor Beto Villares, CéU estreou com um disco de letras metafóricas e exercitando a mistura de ritmos descrita acima. Isto ficou ainda mais forte no álbum seguinte, “Vagarosa”, cujas peças quase que abandonam o formato clássico da canção para explorar as sensações das batidas. Em 2012, veio o terceiro disco e a primeira virada sonora: Caravana Sereia Bloom é dominado pela estética brega, das estradas empoeiradas, uma coleção de músicas para se ouvir numa viagem sem rumo.

E CéU não existe apenas em sua própria discografia. Suas participações em discos da Nação Zumbi, Bina & Ehud e até de Herbie Hancock provam que estamos diante de uma artista, embora nova, pronta.

Ouça: Comadi

Rodrigo Campos

No último Prêmio da Música Brasileira, o compositor Rodrigo Campos levou a taça na categoria Revelação. Embora tardio – o primeiro disco de Rodrigo é de 2009 -, o título é o reconhecimento formal do talento deste músico paulista nascido em São Mateus.

Suas letras são, na verdade, crônicas. Crônicas de uma São Paulo exageradamente urbana e distante de si mesma, perdida entre as relações de trabalho e as relações pessoais. Isto está explícito em seu disco de estreia, “São Mateus Não é Um Lugar Assim Tão Longe”, e ganha ares quiméricos no álbum seguinte, “Bahia Fantástica” que, sob a produção de Rômulo Fróes, expandiu seu espectro musical, deixando um pouco de lado o samba e abraçando outros gêneros, como o afrobeat.

Outra forma de conhecer Rodrigo é escutar o projeto Passo Torto, que ele toca ao lado de Rômulo e Thiago França. Ali, o músico mostra outro lado – mais experimental, e no segundo disco, mais soturno e pesado – que reforçam ainda mais seus múltiplos talentos.

Ouça: Fim da Cidade

Alice Caymmi

Desde o início da década passada, o Brasil assiste ao surgimento de dezenas de novas cantoras – nenhuma como Alice Caymmi. A neta de Dorival tem apenas um disco lançado – homônimo, de 2012 -, mas foi o suficiente para se distanciar da obra do avô – ao menos musicalmente, mas não sentimentalmente – e da classificação genérica de “nova cantora da MPB”.

A obra de Alice, embora restrita ao primeiro disco, é bastante experimental e, em alguns momentos, difícil. Mas mostra mais personalidade do que afetação. Alice corre riscos – e no caso dela, por conta da expectativa natural que a envolvia, isso não é pouco.

Além disso, Alice transita com facilidade entre a obra do avô, PJ Harvey, Olodum – tudo que cai na sua mão vira algo novo, próprio, vira Alice Caymmi. Fiquemos de olhos em seus próximos passos.

Ouça: Arco da Aliança

Apanhador Só

Com méritos, diga-se de passagem, o Apanhador Só monopolizou os elogios que vinham de sites e blogs especializados nas novidades musicais brasileiras. Isso foi em 2006, com o lançamento do primeiro EP. O cenário repetiu-se em 2010, com o debute oficial e auto-intitulado. Curiosamente, a biografia da banda gaúcha foi algo relativamente comum na efervescência da música independente brasileira na primeira década desse século.

Então, o outro mérito do Apanhador Só não é somente manter-se no imaginário dos que tentam com algum custo listar os frescores realmente inspiradores do cenário nacional. Na verdade, em 2013, tal fato é consequência. Uma das obras marcantes deste ano é justamente de Alexandre Kumpinski, Felipe Zancanaro, Andre Zinelli e Fernão Agra. Se chama "Antes que tu conte outra" e é um álbum completamente diferente não só da estreia da banda mas de todos os pares que disputam um espaço no pop-rock brasileiro. O single se chama "Despirocar" e as promessas vão além dos títulos: elas realmente - finalmente! - se concretizam.

Ouça: Despirocar

Ruspo

Ruy Sposati assina como Ruspo um outro destaque de 2013. Antes disso, faz-se importante explicar quem é Sposati: jornalista (inclusive ligado ao Conselho Indigenista Missionário) e que, em maio deste ano, teve seus equipamentos arbitrariamente confiscados pela Polícia Federal. Entenda: Ruy Sposati está na outra ponta dos interesses que comandam (e desmandam) este país. Ao lado dos oprimidos pelo poder do dinheiro e das máquinas agrícolas, Sposati aproveitou alguns intervalos em aldeias e terras batidas para compôr seu primeiro álbum intitulado sugestivamente "Esses Patifes".

Basicamente, é um disco que respira o trabalho do jornalista. O grande mérito de Ruspo é conseguir, além do roteiro quase perfeito, traduzir tudo isto em música. E elas são mais que reveladoras: são dialogadoras. E são também emergenciais. A voz do compositor (e as narrativas) são todas conduzidas por programações eletrônicas feitas em seu computador. "Esses Patifes" merecia mais espaço por ser tão urgente e também tão incisivo em questões políticas e musicais muito interessantes.

Ouça: "Anastácio" que, ironicamente, pergunta como alguém pode querer não viver sem energia elétrica -- ou melhor, como alguém consegue, meu deus, não se render a esse capital, ora vejam só!

Karol Conká

Muita gente deve ter ouvido o nome de Karol Conká na época em que Emicida e congêneres de uma novíssima geração do rap nacional surgia para o estrelato. E foi bem isso. Porém, ao contrário de seus pares, Conká demorou a revelar-se bem mais do que um novo nome. Em um ano em que Criolo e Emicida lançaram um álbum ao vivo, Edi Rock lançou seu trabalho autoral fora dos Racionais MCs e que Marcelo D2 esquece o samba, é gratificante ouvir "Batuk Freak", primeiro álbum da rapper curitibana.

Com um punhado de hits, Conká é certeira sem em momento nenhum se escorar em fórmulas batidas dos gêneros que se relacionam com sons vindos do Caribe ou do ghettotech. Vale a pena acompanhar o álbum como uma peça única e com condições claras de ser radiofônico -- não fosse a esquizofrenia da comunicação de massa controlada por poucos e ouvida por muitos no país. Além de tudo isso, ainda rola uma regravação sensacional de "Caxambú", sucesso de Almir Guineto o qual era um dos prediletos do pai da rapper.

Ouça: Gandaia

Selton

É difícil pra muita gente aceitar que há tanta coisa boa rolando por fora dos jabás e da sintonia fina dos aparelhos na sala de estar. Ainda mais incrível deve ser avisar ao desavisado que muitos italianos e outros europeus estão adorando uma banda brasileira chamada Selton. Eu pagaria pra ver essa informação sendo jogada na mesa de jantar ocupada com aquele papo de sempre de que não há nada de bom pintando por aí.

No caso do Selton, a parada é a seguinte: em 2013, eles lançaram o terceiro álbum da carreira, chamado "Saudade". O título é quase-óbvio: eles querem conquistar os palcos de casa. A banda gaúcha reuniu canções em italiano, inglês e português e, até agora, conseguiu ser um dos álbuns de 2013. O álbum abre com "Qui Nem Jiló (Saudade)" que conta com a participação de Arto Lindsay (que assina também a versão em inglês da canção de Luiz Gonzaga) e pode levar o Selton da pequena histeria na Europa para um novo público em sua própria terra natal.

Ouça: Qui Nem Jiló (Saudade)

Cacá Machado O disco de Cacá Machado é inaugurado com "Sim", canção na qual se debruçam Elza Soares e José Miguel Wisnik para fazer deste um dos melhores "singles" do ano. Sim, entre aspas porque é um tanto torpe falar em "single" em um país que não vende CD. Mas "Eslavosamba" é um disco para se ter em casa. Pelo motivo óbvio, claro, que é ouví-lo com mais atenção. Mas um segundo motivo tem seu charme: saber direitinho quem é quem em cada canção do álbum.

Sim, "Eslavosamba" é do criolo doido tamanho número de participações -- e pega toda a leva de novos e interessantísmos e pertinentes nomes da música popular brasileira contemporânea. Passando pelos óbvios Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos e Romulo Fróes (que compõem o Passo Torto e estão inseridos em milhões de outros projetos sensacionais), "Eslavosamba" recruta Ná Ozzetti, Arthur Nestrovski, Guilherme Wisnik, Juçara Marçal, Arrigo Barnabé, Celso Sim e os já citados Elza e Wisnik. Não tinha como ficar ruim. E não ficou. Discaço.

Ouça: Sim

Emicida "Cê tá louco, tio? Falar de Emicida em 2013? Esse é mais conhecido que o xvideos". Caso o caro leitor me indague isso, saiba: está certo. Mas há, aqui, um detalhe técnico e outro importantíssimo. No caso do primeiro: 2013 é o ano do debute oficial de Emicida, "O Glorioso Retorno De Quem Nunca Esteve Aqui" (anteriormente, todos os lançamentos do rapper foram considerados mixtapes). O segundo é o mais importante: é do paulistano a música mais bonita do ano: "Crisântemo". Falando sobre a falta do pai e sobre como é ter saudade de algo que nunca se viveu por causa de uma morte inesperada, Emicida rima incrivelmente em cima de um samba fundo de quintal.

Os outros detalhes são claros: Emicida talvez seja nosso maior expoente atual do rap, concentrando admiração não só de um público fiel, mas também de quem está à margem do hip-hop. A tática de recrutar um time de popstars (de Neymar à Pitty) deu certo e, hoje, o rapper circula muito bem na música brasileira. E, diga-se de passagem, o fato tá bem pouco calcado em um trabalho de assessoria. É música e respeito mesmo.

Ouça: Crisântemo

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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