Na casa de Fernanda Cabral: uma conversa sobre música, arte e o show "Praianos"

Fernanda Cabral abre a porta de seu apartamento. Sorriso no rosto, os cabelos negros e compridos estão soltos e encostam levemente em seu vestido azul com detalhes em flor. Ela logo me leva para uma sala espaçosa e de poucos móveis: na entrada vê-se uma mesa de madeira com alguns livros em cima, e logo adiante duas poltronas fazem companhia a um sofá claro que fica próximo à janela – aquela típica janela grande de prédios antigos – que recebe com graça o sol forte que faz lá fora, embora esteja um dia frio.

“Você aceita um café?”, ela me pergunta, eu digo que sim e vamos para a cozinha. Sento em uma das duas cadeiras que fazem jogo com uma simpática mesa redonda, enquanto ela ferve a água.

E começamos a conversar.

Fernanda nasceu em Brasília e viveu os últimos 14 anos morando em Madrid (ESP) e viajando pelo mundo a trabalho. Isso não a impediu, porém, de manter um leve sotaque paraibano, reflexo do tempo em que viveu em João Pessoa quando era criança e cidade pela qual constantemente revela seu carinho e apreço.

Mas foi aqui em São Paulo onde tudo começou para ela – ou, ao menos, aonde se deu sua descoberta como cantora. “Eu morei aqui entre os 14 e 16 anos, e fazia o coral do Grupo Tarde (USP). Uma vez, fomos apresentar um espetáculo no Masp só com músicas do Chico Buarque. Foi a primeira vez que eu subi num palco como cantora”. O ano era 1990.

Agora, 23 anos depois, cá está Fernanda novamente na capital paulista, mas agora como cantora profissional, carreira prestigiada na Espanha e prestes a apresentar, nesta sexta-feira, 30, na casa de shows Tom Jazz, o espetáculo “Praianos”, baseado em seu primeiro disco homônimo lançado em 2011.

O cheiro de café bom está tomando conta da cozinha. Enquanto fala, Fernanda alcança dois copos que estão dentro de um armário alto, os coloca vagarosamente na mesa e nos serve o café adoçado com açúcar mascavo. Voltamos à sala para a sala. O sol continua forte.

Pergunto-lhe sobre a série de shows de divulgação do disco, lançado há dois anos simultaneamente na Europa e no Brasil. “Eu fiz o lançamento do álbum em Madrid no Teatro Tribuñe, em que já tinha tocado algumas vezes. Depois, vim para o Brasil lançar o disco no Festival Cena Contemporânea, de Brasília. Em seguida, toquei no Estação Nordeste e no Festival de Areia. Aí fiz shows em Brasília e em São Paulo. A minha intenção era seguir tocando aqui, mas na primavera eu acabei voltando para a Espanha e me apresentei em algumas outras cidades, como Málaga. Em setembro de 2012, voltei a São Paulo e me apresentei no Sesc Vila Mariana”.

Nesse show, ela conta, a ideia inicial era se apresentar no teatro do Sesc, mas a organização sugeriu que ela fizesse o show no palco aberto que fica entre os corredores do local. A princípio, Fernanda não gostou muito da ideia, mas quando começou a tocar e observar a reação da plateia presente, percebeu que foi a melhor escolha. “Como eu estou nesta fase de apresentar meu trabalho, tocar ali no meio do público permitiu que muita gente que normalmente não iria ao show – por não me conhecer – pudesse ter um primeiro contato com o trabalho. Foi um dia em que vendi bastante disco, porque as pessoas foram parando e curtindo o show, depois perguntando “mas quem é você que eu nunca ouvi falar?”. Ali, ela conheceu alguns dos fãs paulistanos que a acompanham até hoje e que se juntam aos diversos admirados espanhóis.

[caption id="attachment_1168" align="aligncenter" width="609"] Fernanda Cabral no Teatro Casa del Reloj, em Madrid[/caption]

Curiosamente, a história de Fernanda com a Espanha não começou por conta da música, mas sim do teatro. Aos 23 anos, ela se formou em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília. Ao criar um monólogo sobre Frida Kahlo que recebeu diversos prêmios, Fernanda foi presenteada com uma bolsa para cursar Pós Graduação e  Artes Cênicas na RESAD (Real Escuela Superior de Arte Dramático), em Madrid. Arrumou as malas com a certeza de que a aventura duraria 2 anos.

Durou 14.

No final do primeiro semestre em Madrid, enquanto caminhava por uma das mais famosas avenidas da cidade, a Gran Vía, ela deu de cara com o charmoso Star’s Cafe. Achou que aquele lugar precisava de música, entrou e sugeriu ao proprietário que ele a contratasse para tocar lá uma vez por semana. O dono topou e, durante três anos, Fernanda e um amigo violonista, Mario Juarez "El Pájaro", fizeram diversos shows cujo repertório era basicamente bossa nova e clássicos da música brasileira, por influência dos discos que sua mãe ouvia em casa. O sucesso foi grande, e muitos dos músicos espanhóis com as quais ela trabalharia no futuro, como Pedro Guerra, foram conhecê-la por conta das apresentações no Star’s Cafe.

Sua carreira na música começou a se desenvolver paralelamente ao seu trabalho como atriz. Por 10 anos, Fernanda se apresentou em diversas casas de teatro de Madrid e até ministrou oficinas de teatro para bebês, um conceito inédito para a época, e que hoje é bem difundido no Brasil e no mundo. À sua porção atriz, Fernanda credita parte de sua paixão por fazer música em cima do palco. “A partir do momento que você sobe no palco, você já é cênico. E eu acho muito legal artistas que misturam música e interpretação. Eu tive uma professora russa que me disse: “Você é essa mistura, não deixe de usá-la nunca”. Eu tenho uma versão do show de Praianos que é bastante cênica, cada música tem uma direção diferente... E é um trabalho muito orgânico. Por isso, gosto muito de Maria Bethânia, acho que ela faz isso como ninguém. E, da nova geração, sou super fã da Fabiana Cozza, que é uma cantora super teatral”.

[caption id="attachment_1170" align="aligncenter" width="450"] Fernanda Cabral no Teatro Tribueñe, no lançamento de Praianos[/caption]

Embora tenha vivido uma década e meia fora do país, Fernanda nunca deixou de respirar o Brasil, sua música e sua língua. Compositora das 14 faixas de “Praianos”, todas as suas letras são em português e exploram temas bastante regionais, como o mar e a natureza. Musicalmente, embora flerte com arranjos eletrônicos, sua música é notadamente influenciada por ritmos nordestinos.  “Minha intenção é, agora, olhar mais para a minha carreira aqui. Eu sou canto-autora. Quando eu canto para um público que tem o mesmo “idioma emocional” que o meu, o retorno é muito diferente e muito mais bonito. Quando eu canto na Espanha, é claro que eles entendem boa parte do que canto, mas não tudo. A receptividade deles vai além da palavra. Isso para mim era incrível – uma brasileira cantando músicas próprias e vendo o público espanhol cantar junto”.

Os novos ares brasileiros já começam a fazer efeito no trabalho de Fernanda. Seu próximo disco, que ela começa a gravar em 2014, terá composições criadas com artistas locais, como Fernando Brant – eterno parceiro de Milton Nascimento e da turma do Clube da Esquina. “Esse disco terá uma energia muito brasileira, também porque me emociono muito por estar tocando com músicos brasileiros. É muito diferente. O fato de falar o mesmo “idioma emocional” influencia muito positivamente a produção de música, a troca”, explica. “Mas eu acho que vai acontecer o contrário do que rolou no primeiro disco: se no Praianos eu pensei o Brasil estando longe do país, agora no segundo álbum eu com certeza vou querer falar um pouco do que vivi lá fora, mas com esse olhar diferente, distanciado, de quem agora está aqui”.

O show que ela apresenta nesta sexta-feira no Tom Jazz terá 13 canções, a maioria gravadas em “Praianos”. Acompanhada de Gustavo Souza (bateria), Lucas Vargas (contrabaixo) e Rafael Abdalla (teclados), ela diz que, no palco, as músicas propositalmente se mostram diferentes das que estão no disco. “Não acho que o show deva ser igual ao disco, pelo contrário – até porque não daria, já que o álbum possui dezenas de convidados. E gosto de saber que a música se transforma e ganha novos caminhos estéticos. Eu já cheguei a tocar essas músicas em formato voz e violão, voz e percussão... Gosto dessa liberdade”.

[caption id="attachment_1171" align="aligncenter" width="609"] Fernanda Cabral em show na Sala El Huristán[/caption]

Liberdade que também aparece na direção de sua vida profissional. Artista independente, Fernanda cuida de quase todos os processos de sua carreira - é ela quem grava e edita seus vídeos, faz contato com jornalistas e atualiza suas páginas na internet. “É claro que neste modelo existem algumas desvantagens. Mas, no geral, eu acredito que ser independente ainda é melhor do que ser vinculado a uma gravadora, por exemplo. Eu acredito muito no meu trabalho. Se eu tivesse uma gravadora, talvez eu fosse obrigada a fazer este trabalho de outra forma. Então, o meu caminho pode ser mais lento, mas é mais fértil e mais verdadeiro”.

Além de mostrar faixas como “Sinal Verde”, “Sob o Infinito” - veja o clipe abaixo - e “Hora H Dia D”, parceria com Chico César, Fernanda interpreta “Rainha do Mar”, de Dorival Caymmi (sobre o compositor baiano, ela diz: “se existe um artista que me influenciou e me influencia muito até hoje, é Dorival”) e “Grãos de Mar”, de Márcio Arantes com Chico César – este, aliás, chegou a ser aluno de sua mãe, a cineasta Elisa Cabral, quando era criança. Ele e Fernanda foram trabalhar juntos pela primeira vez em 2004, em Lisboa, quando Chico a convidou para cantar em seu show na capital portuguesa. Hoje, possuem diversas canções juntos e continuam escrevendo em parceria.

Enquanto o sol lá fora vai perdendo força e se entregando aos primeiros minutos do fim de tarde, eu comento minha percepção de que sua música é muito visual, cinematográfica até. Fernanda se ajeita no sofá. “Muita gente me fala isso, e eu concordo”, ela diz. “Tudo na minha vida sempre foi ligado à imagem, desde pequena. Minha mãe tinha um laboratório de fotografia em casa, eu ficava vendo aquele processo mágico da imagem surgir e sempre estava colada na minha mãe nos sets de filmagens...Com certeza vem daí.”

Em duas horas de conversa fácil e prazerosa, Fernanda é simpática, atenciosa e desenvolta para falar diversos assuntos, mas seus olhos brilham especialmente quando fala de sua música para além das datas de shows, conceitos de discos e outras explicações; em quase todas as respostas, Fernanda faz questão de reforçar sua crença no poder da arte em modificar o olhar humano. “Eu entendi que ser artista é como uma missão, sabe? Não quero ser mais uma cantora. Quero, de alguma forma, transformar as pessoas”.

*

PS 1: Para ouvir o disco "Praianos", clique aqui.

PS 2: Compre seu ingresso para o show no Tom Jazz (aqui) ou participe da lista amiga (R$ 20,00) enviando e-mail para fernandacabraldivulgacao@gmail.com | assunto: Show Fernanda Cabral Tom Jazz

PS 3: se um dia Fernanda Cabral te oferecer um café, diga "sim" - é muito bom : )

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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