Biografia de um músico fracassado

Primeiro Capítulo: Airá

A primeira música que eu escrevi na vida foi, na verdade, uma música sem harmonia nem melodia. Era só letra. Não lembro ao certo as palavras, mas com certeza hoje me causariam certa vergonha. Foram escritas, isso eu me recordo, num caderninho de capa azul que alguém me deu de aniversário, alguém bastante esperto para perceber que aquele garoto de 8 anos era mais afeito ao caderninho do que a Power Rangers, por exemplo, embora eu tenha sido bastante fã do Jaspion e do Jiraya, mas isso acabou quando eu tinha 5 anos.

De modo que escrevi essa primeira música para uma garota chamada Airá, colega de sala da 1a série da Escola Estadual Mário D’Elia, loira, alta, um pouco cheinha, muito charmosa, que morava do outro lado do córrego, mas mesmo assim eu fazia questão de levá-la todo dia até a porta de sua casa, que ainda por cima ficava na parte mais alta do bairro, e não me incomodava de depois atravessar de volta sozinho todo aquele caminho, passar o córrego e subir o morro oposto todinho, aonde ficava a minha casa.

E na minha casa ficava o caderninho que recebeu meu primeiro impulso de compositor, hoje com certeza uma relíquia que valerá alguns milhões de dólares num futuro próximo.

Sexto capítulo: Na escola

Passar a noite na escola era uma ideia extremamente inquietante na quarta série. Eu saí de casa esperando que acontecessem coisas mágicas, que eu não sei exatamente quais eram, mas com certeza não era nada daquilo que encontrei: professores vestidos de roupas de ginástica forçando o salame na amizade com os alunos que horas, dias e meses antes eles tratavam como se fossem um número; colegas desesperados para vencer desafios importantes como o Caça Tesouros; todos obrigados a competir até o dia amanhecer.

Eu queria uma festa, eu acho. Pensando hoje. Queria as meninas dando bola pros meninos, um sonzinho rolando e, quem sabe, álcool?, só pra gente experimentar -  mais ou menos tudo o que eu esperaria de uma festa hoje, 17 anos depois.

O caso é que apenas uma competição salvava a honra dos meninos que não gostavam mais de Caça Tesouros: o duelo de bandas. Eram três grupos, cada um representando uma sala da 4a série do Colégio Objetivo Alto Padrão. Eu era da 4a Série Verde, uma sala muito interessante no quesito futebol e qualidade de mulheres, mas que nunca havia tocado nem interfone junto.

(é preciso deixar claro que tratava-se de uma competição de bandas playback).

A nossa música escolhida foi... Meu Erro, dos Paralamas – pense só se eu tinha ou não influência sob meus amigos.

E eu era o baterista.

E a versão que escolhemos tinha – tem – 6 minutos, sendo uns 3 ou 4 dedicados a solos interestelares de bateria.

Fomos a primeira banda a subir no palco. Não sei quem “cantava”, não sei quem “tocava” guitarra e nem sei se tínhamos um baixo ali a fingir vida. Sei que passei aqueles 6 minutos de olhos fechados e, juro, treinei tanto aqueles movimentos difíceis de João Barone que creio ter tocado muito bem, muito bem mesmo, e quando abri os olhos e vi o público em silêncio, interpretei aquilo como consequência do êxtase que havíamos causado. Tive certeza de que venceríamos aquele desafio, e que boa parte da culpa era minha.

Subiu a segunda banda tocando Raimundos (“I Saw You Saying”) e a terceira tocando Titãs (“Domingo”), e em seguida o resultado saiu.

Ficamos em último.

Décimo capítulo: A Revolta

Aos 13 anos eu era um bom jogador de basquete. Magrelo, as orelhas ainda um pouco acima do tamanho permitido, mas sem dúvida um ala rápido, melhor de bandeja do que de arremesso e bastante encrenqueiro, o que às vezes deixava meus adversários nervosos e às vezes esse nervosismo resultava em vitórias para o meu time. Às vezes não.

Até que um dia o professor falou: hoje é dia de teste. Quem quiser ser jogador de basquete no futuro deve passar por esse teste. Hoje vamos saber quem é amador e quem vai ser profissional. Descobri tempos depois que aquilo era só uma seletiva para ver quem ia passar da categoria mini-mirim para mirim. Em todo caso, haviam duas vagas para ala. Eu não passei. Saí da quadra emburrado, ganhei a rua, fui chutando tudo que aparecia na frente enquanto dobrava as esquinas rumo à minha casa, cheguei no meu quarto e dormi.

Mas eu gosto de dizer que, na verdade, eu não passei, saí da quadra emburrado, ganhei a rua, acendi um cigarro enquanto dobrava as esquinas rumo à loja de instrumentos musicais, onde entrei fedendo a nicotina e suor e comprei meu primeiro violão, decidindo então neste ato o meu futuro: dane-se o esporte, eu vou ser músico.

Tirando que nada disso aconteceu, foi isso que aconteceu.

Décimo oitavo capítulo: A banda

Escolher nome de banda é uma coisa muito complicada, especialmente quando você tem 15 anos e tudo o que gostaria era de um nome que representasse a sua rebeldia de condomínio fechado. Nós conseguimos exatamente isso: nossa banda um dia começou a se chamar Circulação Alterada, e foi inspirada no clássico texto publicado pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) em placas amarelas que avisam que tais e tais ruas mudaram de direção.

Literatura de rua, meu caro.

Ensaiávamos no tempo livre do tempo livre, ou seja, tínhamos todas as tardes da semana para ensaiar – tempo livre – mas só ensaiávamos nos intervalos do tempo livre, talvez porque fossemos muito bons músicos, talvez não. A decidir. Tocávamos em bares, festas de 15 anos, festas beneficentes, na escola, na semana de jogos esportivos.

Uma vez tocamos numa festa de 15 anos e digamos que antes de subir no palco nós abusamos do lança-perfume. A verdade é que já tínhamos abusado do preço, cobrando o dobro do que cobraríamos normalmente só porque a garota de 15 anos era caidinha por um dos membros da banda. A coisa toda se deu assim: subimos no palco notadamente alterados, tocamos como se estivéssemos no Madison Square Garden comemorando 30 anos de carreira e, quando o show acabou e descemos à pista para enfim colher os louros de tão espetacular apresentação – ou seja, paquerar meninas -, ouvimos dizer que um gordinho maleta estava a nos criticar. Embora naquele momento tenhamos percebido que “putz, se pá o lança perfume zoou nossa capacidade de definir o que é bom e o que é ruim”, já era tarde demais e fomos todos os quatro dar uma prensa no gordinho.

Trigésimo Quarto Capítulo: Sozinho

Depois de tão bem sucedida carreira como parte de uma banda que ficará marcada na história do Brasil – ok, do Brasil não, mas de Franca (interior de sp), talvez. Tá. De Franca não, mas pelo menos na história pessoal de cada um, vai – resolvi que era hora de dar uma guinada nessa história e seguir carreira solo.

Vantagens de tocar sozinho: você não precisa debater com ninguém sobre qual será o repertório. Você toca aquilo que sabe e, se apertar, tira uns coelhos da cartola que, se você estivesse acompanhado, não seria coelhos, e sim micos.

Outra vantagem: o cachê é só seu, e mesmo que isso não represente muita coisa – tocar sozinho é certeza de ganhar menos do que tocar com banda -, ao menos você não tem o desprazer de, ao final de uma noite cansativa, dividir cédulas com outras pessoas, ainda mais se você é um garoto de 17 anos com dívidas a pagar na lanchonete, como era o meu caso. O dinheiro era pouco, mas era só meu. Meio militar isso, né? Mas é verdade.

Desvantagens de tocar sozinho: tá tudo na sua responsabilidade. Primeiro, arranjar a data: ir lá falar com o dono do bar ou seja dono do quê, explicar todo o seu trabalho e ser obrigado a comemorar que ele te deu aquela terça-feira à noite “como teste”, e ainda por cima com pagamento vinculado à arrecadação de couvert (imagina na Ninguémteria...).

Outra desvantagem: os bêbados. Quando você está em banda, os bêbados pedem música, reclamam, enchem o saco, mas com um certo respeito, ou temor, afinal, são quatro homens no palco contra um bêbado na plateia. Agora, quando você está sozinho, é um contra um, e quase sempre você perde. O bêbado é capaz de infernizar a sua vida com (1) bilhetinhos pedindo Zé Cabaleiro, Trabalhistas ou Lei de Zépellin (2) se dirigindo ao palco e dizendo “pô, toca logo o Engenheiros do Hawaii que eu tô pedindo! e (3) cuspindo, falando e azucrinando que você não toca nada e que ele vai reclamar com o dono.

Uma vez um bêbado me falou: toca esse violão direito. Eu disse: mas porque, está errado? E ele: está muito blem blem blem blem.

E você maldizia seus pais quando eles se negavam a concordar que você largasse os estudos para se aperfeiçoar como músico.

Quadragésimo Segundo Capítulo: Põe sozinho nisso (ou a namorada à minha espera)

Eu e ela terminamos o namoro às 14h, logo depois do almoço, em plena praça de alimentação da escola – na época não existia praça de alimentação, muito menos espaço gourmet. Era cantina mesmo. Ainda esperei ela acabar aquele prato de salada antes de me levantar, ligar meu discman e ir embora indignado.

Ela terminou comigo, na verdade. Por isso a indignação.

Às 16h, cheguei em casa e, às 16h02, sentei na beira da cama e treinei alguns exercícios cujo objetivo era segurar o choro, e eu estava indo muito bem e ficando cada vez mais habilidoso nisso, mas nesse dia não deu certo. Saí do quarto às 18h26, tomei banho, peguei o violão, o carro emprestado não lembro de quem e fui para a Cafeteria, onde eu iria tocar naquela terça-feira gelada por quatro horas, das 19h às 23h, para ganhar alguma coisa em torno de 50 reais. Cafeteria, aliás, era apenas seu nome de registro, porque entre os músicos ela era a Ninguémteria, uma brincadeira bastante criativa com o fato de que nunca aparecia ninguém por lá.

Embora naquele almoço ela tenha deixado claro que gostaria de nunca mais me ver na sua frente, ela disse que iria me ver tocar naquela noite. Então planejei: quando eu a visse entrando pelo recinto, eu charmosamente pararia a música que estivesse tocando e charmosamente começaria a tocar a música que fiz pra ela. Todos os presentes ficariam olhando aquela cena. Ela ficaria mais emocionada que encabulada e tentaria invadir o palco, mas os seguranças a impediriam. Só nos veríamos depois no meu camarim, entre toalhas brancas e taças de vinho.

Esperei isso acontecer até as 22h50, quando admiti que ela não iria aparecer. Nem ela, nem ninguém. Ninguémteria.

Quinquagésimo Terceiro Capítulo: O Fim

“Eduardo, aonde você estava quando percebeu que sua carreira de músico nunca iria decolar?”, me pergunta Jô Soares. Eu me ajeito naquele sofá, dou um gole na caneca de água, o Bira dá uma risada enrustida.

- Foi em São Paulo, Jô. Eu estava tocando em um bar.

“Você tinha 20 anos, é isso?”

- Isso.

“E você tinha acabado de se mudar pra São Paulo, pra fazer jornalismo...”

- Exatamente.

“E aí você veio pra cá também achando que sua carreira de músico fosse finalmente dar certo?”

(eu vou responder mas antes penso: caramba, esse Jô fala demais. Já tá contando a história toda. Imagina quando eu for no Faustão.)

- Sim.

Ele começa a contar alguma história DELE, de quando ELE veio pra São Paulo e tal, e quando ele começa a citar nomes de atores do teatro que eu não conheço nem quero conhecer, entro em um coma profundo, e só retorno quando explode a risada do Bira. Aparentemente a história do Jô tinha sido engraçada.

“Bom, Eduardo, mas você me dizia que estava tocando num bar de São Paulo...”.

- É, Jô. Era um bar ali perto do Mackenzie, onde eu estudava. Eu estava acompanhado de um amigo percussionista e tocávamos música brasileira. Era a primeira vez que eu tocava num bar da capital, então pra mim aquilo era exatamente o ápice da minha carreira. Estava tudo indo muito bem, quando de repente ficou muito melhor: eu estava iniciando uma canção no violão, e a canção ainda estava naquele momento em que as notas ainda não dizem exatamente qual música é aquela, e então subitamente aquele público todo – umas 30 pessoas, na verdade – começou a bater palmas, e quem estava sentado se levantou, quem estava de olhinho aberto ficou de olhinho fechado e quem estava bêbado deu sinais de que iria chorar. Eu senti o chamado. O chamado do sucesso. Senti ele dizer: vai, filho, que o sucesso é seu. Fechei olhinho também e comecei a cantar, só que...

“Só que o que?”

- Só que eu comecei a cantar uma música e o público começou a cantar outra.

Eu fechei os olhos esperando a risada do Bira com quem sabe que vai machucar o rosto. Mas tudo o que veio foi um silêncio.

De repente a voz do Jô.

“Como assim?”

- É. Eu comecei a cantar Lenine e o público começou a cantar O Rappa. Eu falava “Se você quer me seguir / não é seguro”, e eles diziam “ô ô ô ô my brother”, e eu...

“Sua carreira acabou...por causa... de uma música... do Rappa?”.

- É, pois é.

“HAHAHAHAHAHHAHAAHAHA”

Era o Jô rindo.

“HAHAHAHAHAHAHAHAHHAAHHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAAHAHHAHA”

Era o Bira rindo. O Derico rindo. Até a Airá devia agora estar em casa rindo, chamando seus filhos gordinhos e charmosos e falando VENHAM VER O PANACA QUE GOSTAVA DA MAMÃE NA ESCOLA, A CARREIRA DELE ACABOU POR CAUSA DE UM Ô Ô Ô BROTHER, ela devia estar rindo muito que tudo tenha começado por causa dela e daquele maldito caderninho azul.

*

Todas as artes são originais e de autoria de Belisa Bagiani. Meu muito obrigado a ela por dedicar seu tempo e "talento" a um músico fracassado.

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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