Os segredos de Céu: um papo com a cantora sobre seu processo criativo

“Apesar de ser cantora, eu falo baixo. Aliás, sempre que eu começo a falar, vou aos poucos abaixando o volume da minha voz. Então, se vocês não estiverem me escutando, é só falar: ‘Mais alto, mais alto!”.

Era talvez a menor plateia para a qual Maria do Céu Whitaker Poças se apresentou desde que iniciou sua carreira artística, em 2005. No último domingo, numa das charmosas salas do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, cerca de 30 pessoas estavam acomodadas em mesas escolares, formando um círculo, e a olhavam com atenção e respeito. Eram músicos amadores, fãs e gente do meio cultural da cidade - agora 'alunos' da cantora Céu, que naquela tarde ministraria uma oficina gratuita sobre processo criativo, ao qual o Azoofa assistiu com exclusividade.

Da nova geração de cantoras da safra pós Los Hermanos, CéU é sem sombra de dúvida a mais bem sucedida. Não se mede, aqui, sucesso popular ou arrecadação, nem mesmo quantidade de shows: ela não é líder em nenhum destes rankings. O que sustenta a afirmação acima é mais difícil e, por isso, louvável: a construção de uma identidade artística.

Com três discos lançados e diversos prêmios no currículo, Céu conquistou a crítica brasileira e internacional com sua mistura inusitada e intuitiva de ritmos e texturas sonoras; cativou um público que se mostrou fiel e que parece aumentar a cada álbum lançado; e, por fim, firmou-se definitivamente - como ela mesma definiu ao responder uma pergunta de um dos 30 “alunos” naquele domingo - como uma artista “de médio porte” - o que significa, a grosso modo, que Céu pode não ser a cantora mais popular do país, pode não tocar no rádio com a frequência que gostaria nem aparecer na lista dos melhores do Faustão; mas seus shows estão sempre lotados, e ela está longe de ser “indie” e enfrentar as dificuldades e limitações impostas pelo circuito independente, no qual ela começou, no ínicio dos anos 2000, depois de passar a infância e adolescência sob influência musical de seus pais, o compositor Edgar Poças e artista plástica Carolina Whitaker.

“Eu não sei nem dizer quando exatamente eu comecei, porque eu venho de uma família de músicos, então é uma história meio misturada”, conta, hoje com 33 anos, os 34 chegando em abril. A plateia a escuta com atenção e apreço e, embora no início Céu esteja tímida e evite que seu olhar faça contato direto com os presentes, ela vai se soltando conforme relembra sua própria história.

“Eu até tenho que confessar”, ela então recomeça, se mexendo na cadeira de rodinhas “que eu evitei um pouco a música, porque dentro da minha casa o ambiente era tão sisudo musicalmente, tão sério... eu tinha que ouvir coisas incríveis sempre”, diz, sincera, para depois ficar em silêncio, mirar a classe e admitir: “Mas isso também foi um presente que me foi dado. Desde pequena, eu ouvi coisas muito maravilhosas: Villa Lobos, Nazaré, coisas eruditas do Brasil”.

Quem lhe mostrava os discos e a fazia escutá-los com atenção era o pai. “A melhor comunicação que eu tinha com ele era através da música. A gente se falava melhor, se entendia melhor musicalmente. Ele me explicava as coisas. Falava: 'Céu, olha isso'. E.. é, eu acho que ele me ensinou a escutar.”

A mãe não ficava atrás. “Minha mãe nunca foi uma cantora, mas sempre foi uma cantante, sempre cantou em tudo que era lugar - cantou em bar dos anos 70 dedicado aos músicos, onde todos os músicos iam, Chico Buarque tocava viola. Ela conheceu meu pai nesse bar. Minha história de vida musical é assim, e eu sou fruto desse casal maluco aí”, brinca, para depois gargalhar.

No entanto, a influência dos pais e o excesso de deferência deles para com a música dita “formal” fez Céu se questionar, ainda criança, se seria capaz de um dia ser artista como Tom Jobim ou João Gilberto. “Eu pensava: ‘eu, compor? Eu não posso ser capaz dentro desse universo maravilhoso..."

Na espaçosa sala do Museu da Língua Portuguesa, o público, que já demonstrava grande interesse pelo rumo da conversa, se mostrou ainda mais curioso para saber como aquela artista - um exemplo e inspiração para eles - driblou a desconfiança em si mesma e chegou ao ponto de estar ali, no papel de cantora de sucesso que ministra oficina de criação. “Bom, no final do colegial, minhas amigas falavam assim: 'Deixa de ser louca, você precisa fazer alguma faculdade, faz faculdade de música', e eu ficava ‘cara... não, eu não quero fazer’. Mas, em casa, eu tinha o incentivo de uma família de artistas, que nunca me incentivaram de uma maneira “normal”. Então, eles falaram ‘Legal, beleza. Você quer cantar? Você quer fazer isso? Então estuda.' Faculdade? Não. Faz curso, vai tocar na noite, aprende o que você quer,  escuta, ouve, escuta, escuta muito.’ E assim eu fui, meio engatinhando no escuro para o que eu queria, de uma maneira um pouco mais subjetiva e não tão formal, né?”

Naquela tarde de domingo, Céu estava vestindo blusa rosa, calça branca e trazendo no pescoço um delicado colar prateado. Embora algo nela deixasse claro que o papel de entrevistada não lhe faz ficar muito à vontade, ela certamente parecia mais relaxada do que quando está na presença de jornalistas. Talvez porque ela soubesse que dentro daquela sala ela estava entre iguais, embora, até aqui, apenas um deles, Céu, conseguiu fazer da música o seu sustento. Os outros 30 sonham em ser algo próximos a ela. Tê-la ali, à sua disposição, fazia brilhar o olho de cada uma daquelas pessoas – entre elas, uma poeta paulistana de chapéu panamá, um cantor com pinta de líder de banda de axé, uma compositora nascida em Moçambique que ficou toda orgulhosa quando Céu confessou que Mia Couto é seu escritor preferido no momento.

Como fãs, era inevitável que eles quisessem saber quem são os ídolos da cantora. “Quando eu tinha 14 anos”, ela responde ”ficava ouvindo Louis Armstrong com Ella Fitzgerald o dia inteiro”. Com o tempo, porém, suas paixões foram se ampliando. “Eu sou louca pela Jamaica. Não só pelo reggae do Marley, mas também da leitura que o país fez da música americana. E tem o dancehall, o rocksteady, o dub. De música americana, ouço muito blues e jazz, especialmente jazz. Sempre gostei muito. E música africana. Afrobeat. Lembro da primeira vez que eu ouvi, eu fiquei em choque, parada, estatelada”, ela conta e em seguinda interpreta uma careta de quem realmente está tomando um choque. Todos riem, inclusive ela.

Em 2005, Céu lançou seu primeiro disco, homônimo. Imediatamente, ela caiu nas graças da crítica especializada brasileira. Duas músicas do álbum foram incluídas em trilhas sonoras de novelas da Rede Globo, e ainda foi considerada pela prestigiosa revista francesa Les Inkorruptibles como uma das 5 maiores revelações daquele ano. Seu maior feito, porém, aconteceria em julho de 2007, quando alcançou a 57ª posição no ranking da Billboard internacional, igualando um recorde somente atingido por um artista brasileiro com Astrud Gilberto, em 1963. E pensar que, poucos anos antes, Céu ainda não colocava fé em suas criações. “Eu demorei muito pra mostrar uma música minha pra qualquer pessoa do mundo, foi um processo longo”, ela conta, recebendo olhares cúmplices de sua plateia. “E eu já tocava em barzinho, eu já fazia bastante cover dos clássicos e tal. Quando eu tocava em barzinho, eu já tinha o olhar super restrito do tipo de cancão que me interessava. De alguma maneira eu já estava fazendo uma edição sobre o que viria a ser o meu trabalho depois”.

“Eu não cantava clássicos, já toquei alguns clássicos de algumas músicas que a galera pira, e eu também achei muitos indícios, mas eu não escolhia. Gostava de colocar algumas coisas  obscuras do Jorge Ben, até do próprio Jobim, já fazia coisas que não era exatamente Madalena do Van Lins, Wave, sempre tem essas... E ai eu tinha vontade de já fazer, mas a minha música, a minha música mesmo, demorou... demorei muito. Foi isso o que você me perguntou, né?"

A pergunta de Céu não é despropositada. Não raro, dá a impressão de que está construindo seu raciocínio simultaneamente à sua fala. Às vezes, no meio de uma frase, ela mesmo se interrompe e fica alguns instantes em silêncio – não muito tempo, mas o suficiente para trazer à tona uma nova ideia que lhe surgiu no meio do caminho e que a linha de raciocínio original não iria contemplar.

Isso aconteceu especialmente quando Céu respondia a uma pergunta sobre seu processo de criação. “Arranjo, produção, timbre de voz, letra, acorde, tudo. Tudo é muito autoral”. Ela faz uma pausa, ri e admite. “Eu sou quase obsessiva, eu acho. Eu gosto muito de cuidar de todos os detalhes, eu entro com uma coisa... igual, logo que eu comecei a cantar, comecei a ouvir muitos timbres de cantoras que eu achei muito bonitos. E não só o da cantora que era puta cantora, afinadíssima e tal. Eu criava. Por exemplo, uma cantora que eu gostava muito - amo muito, aliás - chama Betty Carter. Ela é quase... às vezes ela é quase desafinada, mas o timbre vocal dela é uma coisa... ela tem um veludo! Então, eu sempre fui muito atenta ao acabamento, sabe, ao som. No começo, eu não sabia o que música eu queria fazer. Ainda era nebuloso. Mas o que não queria sempre esteve claro, e isso foi muito importante”.

Depois do primeiro álbum e uma série de apresentações no Brasil e na Europa, Céu demorou ainda quatro anos para lançar seu segundo trabalho, “Vagarosa”. Dele para “Caravana Sereia Bloom”, o número 3 de sua carreira, foram mais 2 anos. “Eu sou uma artista que demora para lançar algo novo”, ela diz, para logo se corrigir. “Na verdade, não sou eu que demoro – o mundo é que está rápido demais. Eu adoraria ser mais ágil. A minha música está intrinsecamente ligada à minha vida. Se eu parar e falar “agora eu preciso gravar um disco porque já passou muito tempo, a galera tá cobrando...”, eu com certeza vou fazer um disco ruim. Eu preciso de um tempo para dizer: “agora eu tenho uma nova história para contar”.

Ao refletir sobre o tempo que leva para criar seus álbuns, Céu faz um alerta interessante sobre as dificuldades enfrentadas por sua geração. “Tem um outro motivo para isso: hoje em dia, o artista tem que se desdobrar muito. Quando eu olho para minha carreira, eu vejo que 90% não tem a ver diretamente com criar música. Nós vivemos uma crise nesse sentido”.

Por outro lado, a cantora celebra os novos tempos, em especial os modernos programas caseiros de gravação. “Eu uso muito o Garage Band, que é um programa bem tosco e bem simples, mas que me ajuda muito para registrar as ideias que eu vou tendo. Ele acaba virando um caderno de rascunhos, para mim é a mesma coisa, é como se eu tivesse escrito numa página. No meu último disco, tem uma música que se chama “Retrovisor”, e o começo é todo gravado no Garage, bem tosco mesmo. E como o disco fala de movimento, de viajar, de estrada, eu quis deixar isso explícito na gravação.”

Os fãs – não só de Céu – possuem um curioso e compreensível fascínio pelas turnês realizadas pelos artistas. Shows em cidades desconhecidas, quartos de hotel, culturas diferentes - ser pago para rodar o mundo fazendo shows. Há algo nessa mistura que, aos olhos do público, lhe parece o melhor dos empregos e o mais próximo do paraíso que o ser humano pode chegar. Céu, no entanto, faz questão de desmistificar o viajar, assim como Herbert Vianna fez em “Brasília 5:31” e Lucas Santtana em "Streets Bloom", esta gravada pela cantora em seu último disco.

“Eu gosto muito, muito, muito de viajar. Mas às vezes é difícil. Me acontece direto uma coisa muito esquisita: eu estou lá em turnê, viajando por vários dias, naquele ritmo “vai pro show/volta pro hotel/dorme”, “vai pra outra cidade, faz o show/hotel/dorme”, e no outor dia “vai pra outra cidade...”. E, nessa loucura, já aconteceu de, em um determinado show, eu errar o nome da cidade. “Valeu fulano!”, e não era fulano... (risos). Já aconteceu também de eu acordar no meio da noite e eu não saber aonde eu estou. “Streets Bloom” foi uma música que eu encomendei pro Lucas Santtana pensando nisso”, diz, para depois resumir. “É muito legal viajar? Sim. Mas tem um lado meio B que às vezes a galera não conta...”

O encontro acaba pouco mais de 1 hora depois. Uma foto coletiva, com Céu posicionada no centro e sorrindo com sinceridade, é tirada com o objetivo de que não se formasse uma fila em que cada um dos 30 presentes pediria para tirar a sua foto com ela. Inútil dizer que esta medida não se mostrou eficaz, como é inútil dizer que Céu atendeu um a um com paciência e simpatia.

***

Arte | Belisa Bagiani (inspirada nos chamadas placas de gradientes de céu, as variações de cor que acometem o céu.)

Apoio | Helena Lemos

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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