Conta Gotas: O Passo Antes da Linha

Parte A

Quero começar de antes do começo.

Quero começar dizendo que minha reflexão musical é viva, e, por tanto, diária. Explico: antes de embarcar aqui para Espanha minha sequência de dias foi bastante atribulada com uma agenda extremamente bem montada (o que não me era exatamente raro, mas também nem assim tão dura, e nem tão quase sem exceções para furá-la como foi; portanto, tornou-se um estado obrigatório, antecedendo um possível típico!), com afogamento nos encontros, profundos sacrifícios para agendar um tempo em ócio além-trabalho com alguém que realmente me fizesse fraquejar para isto (e confesso que sim, vez ou outra furei minha agenda, ou melhor, anotei o furo nela, o que pode descaracteriza-lo como furo e assim fingir-me em tranquila adequação). Enfim, um tempo de emoção e frieza cronometrada, mas, ainda assim, ali, no tempo, emoção.

Mas qual a reflexão musical que se encaixa?

Se encaixa!

Se encaixa porque, nesse quase não respiro, havia falta desse ócio – também cronometrado – meditativo! Então que minha conexão digital, virtual, escambal, era quase 100%. Fritava sem intervalo em tudo que me tivesse as voltas de resolver: as últimas participações que gravavam no meu primeiro disco solo, os ensaios do Vitrola Sintética, os meus pros shows que farei aqui, seguro, lugar pra ficar, documentos e... e tropiquei. Me explodi! Eu de todo não, mas meus olhos sim. Veio-me uma sinusite crônica que salpicou por todo em rubro meus olhos (que se diga: ainda não passou). Esse sim o famoso e verdadeiro “sangue nos olhos”. Mas volto-me aos quase 100%. Quase porque havia um momento de “salvação”. Um só. E ele foi o ‘palco’. Isso, o palco! Ele foi descarada e amplamente meu templo meditativo. Um instrumento de conexão. Não tenho dúvidas de que, ter realizado um show com o Vitrola Sintética na casa Parintins no sábado (23/05) - que antecedia a viagem já na quarta - para quem contribuiu no nosso financiamento coletivo pelo “Catarse”, e dois dias depois ter subido sozinho - porém com o auxílio luxuoso e delicado dos meus grandes amigos Tatá Aeroplano e Gui Calzavara - ao palco do Puxadinho da Praça com o público comungando positivamente as energias enquanto me expunha a todas as verdades líricas – corrosivas ou não - de minhas canções na pureza da voz, piano e violão, me elevaram ao “nirvana”. Ou abriram caminho para essa reflexão. Esse momento, para mim – e só garanto agora que percebi – é de fato minha real meditação e elevação, pois não havia mais nada, mais ninguém, nenhuma satisfação a prover, nenhuma agenda a organizar, nenhuma resposta a dar ou receber... aliás, sim, respostas a se dar e receber, mas em simultâneo! Eu estava respondendo a mim, era de dentro, e uma vez a mim respondido respondia-se também a quem mais fosse. Então - repito - isso foi e é meu zen meditativo, meu esvaziamento do ruminado bruto que estufava o comprimir da circulação. Ou o dilatar dela, que acabou por jorrar em fluxo o sangue pros olhos - eles que segurem a barra! O palco tornou-se um instrumento de conexão e evolução. Uma via aberta, que, claro, assim sempre me foi, mas que agora, parece, tenho mais certo.

Parte B

Entrei no avião com aquela cara de viagem de sempre, daquelas que se alimenta da esperança da sua fileira estar vazia. Daí, quando percebe que não é o caso, pensa se vão funcionar os filmes, se vai caber o violão ali em cima, se ninguém vai colocar coisa por cima pra não arrebentar com ele, que comida vão servir e etc.

Como, claro, não foi mesmo o caso - e nesse caso, que bom que não foi o caso - sentei-me ao lado de um senhor, Nelson, que já puxou assunto de cara, e que eu devolvi, e que fomos assim conversando até certo ponto, quando ele me perguntou: bom, se chegar a comida e você estiver dormindo, te chamo? e eu disse: claro; ele respondeu: ok, o mesmo pra mim; e aí fomos assistir filmes, tentar dormir (o que não aconteceu nem comigo nem com ele), ler e etc. Daí conversávamos mais um pouco, parávamos outro pouco, e assim seguiu-se até a aterrissagem.

Nelson, 77 anos, 11 filhos espalhados pelo mundo, vive em Ilhéus. Seu sobrenome? Suassuna.

Primo de Ariano.

Me fez pensar que alguma conspiração do cosmos deu-me de presente o pé direito pra iniciar a viagem. Ele me agradeceu pelo voo agradável que teve ao meu lado. Eu lhe disse o mesmo e pedi pra tirar uma foto.

“Seu Suassuna”, como ele mesmo diz que lhe conhecem.

Parte C

Em Madrid pego o mesmo trem quase todos os dias pra um projeto a que vim realizar (além dos shows, que se iniciam em breve, também estou em um projeto na Universidad Autónoma de Madrid). Sempre caminho até a estação Sol (que me nego a dizer - já dizendo - que agora se chama “Vodafone Sol”, e que isso deprime o povo daqui) e depois pego o trem até Cantoblanco. Nesse trajeto sempre escuto alguma coisa. Num desses dias escutei - pela enésima vez - o disco “Balangandãs” da Ná Ozzetti (aproveito pra reverenciar e dizer que a Ná gravou no meu primeiro disco solo que deve sair no final do ano, e que foi foda!), mas voltando ao “Balangandãs”; esse disco naturalmente me leva até Carmem Miranda, que nesse dia me fez refletir sobre o julgamento que ela sofreu - e que Tom Jobim também passou - quando foram viver fora do país, de supostamente terem traído a pátria, abandonado o Brasil e etc. Com isso pensei o quanto foi importante que eles tenham feito isso, o quão fundamental foi pra nossa obra e pro patrimônio nacional que eles tenham ajudado a levar a nossa boa música pro mundo. Isso reverbera até hoje!

Aqui em Madrid tenho convivido bastante com gente ligada à arte, estou num quarto da casa/ateliê de um artista plástico madrileno chamado Antonio Herrera DeLa Muela (figura espetacular que voltarei a falar nos próximos textos). Sendo ele do mundo independente, como eu em São Paulo, naturalmente que convive com o povo todo, também independente, do teatro, música, dança e etc. Numa dessas noites de vinho me pediram pra tocar alguma coisa. Toquei uma canção gravada no meu solo, uma dessas que são mais puras de voz e violão. Isso fez com que Carmen (atriz, amiga de Antonio) viajasse até a Bossa Nova e lembrasse trechos de músicas de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell e etc. Também surgiram no papo da mesa: Tribalistas (o que me foi bastante curioso, já que há muito tempo nem escuto falar) e, claro, Sergio Mendes.

O fato é que a Carmen daqui fortaleceu na minha cabeça a importância da Carmen daí; do Tom, do Vinicius, do Baden, e de tantos outros de antes e depois.

Também me fez pensar que além da importância pessoal que essa viagem trará - de poder compartilhar o que faço com outras culturas e referências através dos shows -posso, em parte, ajudar a seguir o trilho da nossa memória.

Aqui um parêntese para explicar que farei uma turnê de aproximadamente nove shows por Espanha (Madrid, Ourense - Galícia e Vigo - Galícia) e Portugal (Lisboa, Almada e Oeiras) mesclando canções do meu solo (em gravação) e do Vitrola; com piano, voz e violão. Alguns desses shows - que acontecerão nas Fnacs de Portugal e Espanha - serão pockets de lançamento do “Sintético”, o nosso novo do Vitrola Sintética.

Voltando: seguir o trilho da nossa memória não é retroceder, é dinâmico, é seguir pro lado mais orgânico, vivo, cru, do nosso “sangue nos olhos”! E com isso podemos amplificar e fazer sobreviver toda a riqueza cultural que temos. E compartilho dessa empreitada com meus amigos que caminham por aí - ou por aqui - e digo, por exemplo, que o Tatá Aeroplano esteve há pouco com seus shows em Portugal, que a minha querida amiga Bárbara Eugênia vem logo mais (inclusive participa do meu show na Fnac Oeiras, dia doze de julho), que o Cícero também esta por aqui, que o Hélio Flanders vem já já, que o Tigre Dente de Sabre, ano passado, também deu suas bandas pela Europa, que nós mesmos, do Vitrola Sintética, fizemos uma turnê na Argentina em 2013 (que, aliás, nos deixa muitas saudades), que o Maurício Pereira vira e mexe também embarca pra a terra dos hermanos argentinos (como agora), que o Metá Metá esta na África (aproveito pra somar meu apoio à Juçara Marçal contra a inexplicável e estúpida censura à capa de seu disco pelo Itunes), que você que esta lendo lembra de vários outros artistas que estão fazendo o mesmo (ou talvez até você seja um deles), e que, por fim, diante disso, a gente pare pra agradecer e não esquecer quando nos dão a mão; e assim podemos levar essa mão dada pra onde formos.

Isso é a nossa cultura! E reforço aqui, do texto recente publicado pelo amigo e grande músico Guilherme Kastrup, a atenção ao absurdo que estão fazendo com a sanção de uma nova lei em Pernambuco. Essa lei limita o horário dos eventos de rua, o que fere a sobrevivência da cultura do povo, do chão, a nossa identidade, nossos verdadeiros terreiros que influenciam a canção popular que, por sua vez, espalha parte disso e traz o interesse em conhecer de perto e conviver com a riqueza que temos de canto a canto. E mais do que isso! Nos faz orgulhosos, vivos e entendidos de onde viemos.

Pra finalizar - e me ocorreu enquanto escrevia - me faz sentido dedicar esse texto e o meu carinho a Ná Ozzetti, que foi tão generosa comigo, e é com a nossa música, que essa simples dedicatória não alcançará toda a importância, mas que, assim, pelo menos, boto mais um grão no jus a sua história. Ela, além de permear essa escrita e me acompanhar em audição, agora também permeia minha obra e minha memória.

Obrigado.

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Felipe Antunes ver mais
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