Coluna Telepática: César Lacerda

19/07/2017

Conheci o César Lacerda em 2013. Fabiane Pereira organizou uma festa de celebração de 5 anos do programa Faro MPB, que ela apresenta e nos concede um espaço - hoje em dia tão raro - e possibilidade da gente se expor para além do nosso círculo de sempre. A festa contava com vários artistas, tais como Ava Rocha, Anna Ratto, Brunno Monteiro, entre outros. Lucas Vasconcellos e eu, apresentávamos a noite, representando nossa banda Letuce. No camarim, bastante cheio, pintou algum assunto astrológico. César entrou na onda e disse que era touro. Comentei que minha lua era em touro e adentramos o assunto um pouco mais e brindamos e nos desejamos merda. Gostei dele de cara. Cada artista cantava uma música autoral com a banda base, e eu às vezes fazia um corinho, um lero-lero. César cantou "Herói", e eu nem consegui participar porque fiquei meio perplexa ali com aquela melodia, harmonia. Pensei "não quero estragar isso não". Gostei da voz dele instantaneamente.

No mesmo ano, Julianna Sá iniciou seu projeto "Dobradinhas e outros tais", onde ela juntava dois artistas para um show específico e inédito. Calhou d'eu cair com César. Fiquei feliz. Fizemos um ensaio na casa onde eu estava morando na época. Eu tinha acabado de me apaixonar, e César estava iniciando uma paixão intensa também. Antes do ensaio (e durante também), nos segredamos sobre nossas sagas, trocamos ideias sobre questões amorosas, sobre a vida a dois e quando soube da idade dele, fiquei bem impressionada. Há pessoas que nascem sem idade, César é um pouco assim. E não significa que quando for mais velho, ele vai ser mais idoso ainda, pelo contrário, pode ser que seja um idoso infantil. E isso vai ser ótimo. Nossa apresentação contava com músicas próprias, e umas brincadeiras que fizemos com Jorge Ben, Caetano e com muita audácia, tocamos Insensatez e How Insensitive.

Depois Julianna propôs das duplas do Dobradinha gravarem uma canção inédita para sair num EP. Era quase revéillon, César me perguntou se eu tinha alguma poesia guardada, algo, e eu tinha. Mandei pra ele, e ele devolveu de maneira exuberante e assim saiu "Nossa", nossa música. Letuce tentou regravá-la para o nosso 3 disco, Estilhaça, mas nada se comparava a versão do César, então a deixamos intocada.

Antes de fazer essa Coluna Telepática, sonhei com César, um sonho cheio de significados e força, conversei com ele rapidamente e pensei "Preciso fazer a Coluna Telepática com ele, claro!". César estava no Rio, para lançar seu segundo disco, e sugeriu da gente fazer ao vivo. Levei meu adaptador para 2 fones e partimos para a livraria da Travessa. Entre uma sopa de baroa (ele) e um brownie (eu), apertamos o play e iniciamos a viagem por "Paralelos e Infinitos".

1- Algo a dois

Letícia: Me sinto numa montanha russa, de cara. Aquele início. Mas não estou no Brasil, acho. Sinto que é um parque perto de uma baía nos Estados Unidos. De repente já estou na roda gigante. Lá de cima vejo uma vista linda. Volto pra montanha russa, parece uma volta mais lenta, engraçado.

César: Dançar, dançar! Amarelo. Gelo. Cantar com um passarinho. Natal. Câmera lenta.

2- Touro indomável

Letícia: Estou num carro conversível, acho que ainda estou nos EUA. Uma costa linda. O mar ao fundo. Estou com a pessoa que amo do meu lado, mas sem muita fissura louca, tem uma calma esse passeio de conversível. É leve porque há certeza. A gente não vai morrer agora.

César: Paz. Caminhar. Prosseguir. Prometer. Eu. Polaroid e filme.

3- 21

Letícia: A voz do César é linda demais, acho que estou numa rede ou então fui meditar e essa música veio inteira na minha cabeça. "muito amor carregue essa alegria". Me sinto feliz mas é uma meditação que dá vontade de chorar. Algo sobre se reconhecer. Fico triste, tristeza bonita.

César: Sonata de outono. Morrer é renascer. Ter. Medir. Deixar ir. Calma.

Não pensamos exatamente na mesma coisa, mas dialogamos, creio.

4- Olhos

Letícia: Estou sentada de frente para a pessoa que eu amo. A gente não se fala. A gente escolheu outra comunicação. Acho que é domingo de manhã. A gente não combinou isso, mas aos poucos isso se configurou. Ninguém quer ser o primeiro a falar, engraçado. A gente está se despedindo de uma dinâmica velha e fazendo uma outra escolha.

César: Torrente. Corrente. Centro, central, trem. Triste povo. Nação. Quem sou eu aqui? Sorri. Ela sorri. Sorrio também. E nos despedimos.

Dinâmicas...sim.

5- Guarajuba

Letícia: Parece uma caixinha de música. É lindo, mas tem algo de macabro também, engraçado. A clássica tristeza da figura do palhaço.

César: Um dia... Um dia... Um dia... Já nem sei se há dia. Haverá dor maior no mundo?

6- Paralelos & infinitos

Letícia: Parece que aquele conversível que eu estava parou em algum motel de beira de estrada. Ainda nos EUA, não sei porquê. Risos. Tem uma piscina nesse hotel. Mergulhamos. Brincamos, fica sexual. Vamos pro quarto.

César: A vida... Colorir... Uma criança... A vida sem drama? Colorir, rir, crer. A vida sem interrupções. Eu já imaginava. Seria feliz. Cidade. Todas elas. Bolhas...

7- Love is

Letícia: Estou num lugar esquisito, um show estranho, está abafado, um pouco claustrofóbico, meio quente. Quero ar. Achei uma varanda, nem sabia qual era a vista, nem sabia que estava tão alta, parece sonho, os cenários mudam rápido, não consigo acompanhar. Parece clipe, parece sonho, as coisas são possíveis. "Love is so special".

César: Daft punk. Robocop. Aquela lata. Viajei... Hahahaha... Voltei. O mundo em expansão!! Magma, big bang, galáxias, leite! Mãe. Lá em casa. O mundo também se expande pra dentro: deve se chamar "saudade" isso.

8- Quiseste expor teu corpo a nu

Letícia: A música começa e eu já quero chorar, não sei porquê. Estou com um choro preso na garganta, a música vai ganhando espaço e eu preciso chorar. "Calar a boca do mundo". Quanto mais calada, mais quero chorar. Acho que estou numa floresta, perdida, mas não devo me achar. E tudo bem. Ouço a palavra "fim" e realmente o disco termina. Reforço da finitude, importante também.

César: Foto. Uma igreja. Envelhecer. Partir. E morrer.

Dias depois de brincarmos de telepatia, fui ao show do César no Oi Futuro, em Ipanema. Com a mão quebrada, ele ninjamente tocou sua guitarra e amaciou os ouvidos da plateia. Vi gente chorando, gente gritando "bravo", vi Lenine na minha frente levantar de pé, e eu fiz tudo isso e um pouco mais. Chorei. E sorri também. Porque me veio a certeza do infinito. A voz do infinito. Saí de lá pensando coisas grandes pra César. E um desejo de mais uma parceria. César é pontual e certeiro na profundeza. Um ou outro meandro, mas ele chega chegando e crava. A voz, a frase, a melodia. Mandei a música "Quiseste expor teu corpo a nu" para minha amiga poeta Bruna Beber, que faz as playlists mais maravilhosas do mundo. Ela disse "Conheço essa voz..." Achei que já tinha conhecido o trabalho dele, mas não. Ela havia o conhecido num sarau onde ambos tinham estado há duas semanas. E disse: "A voz dele é inconfundível". E é sim. Vida longa, César. Ouve junto e tome notas das cenas que você criar, vai que calha com as nossas, vai que é tudo inédito (até mesmo pra você). Combine com alguém que você ame de ouvir juntos e anotar. Vai que algo. Vai que.

Quem escreveu
Leticia Novaes ver mais

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