Exclusivo: Mordomo lança clipe de "Vilma"

Depois de dez anos à frente da banda mineira Vitrolas, Fernando Persiano e Bernardo Dias viram os outros dois integrantes do grupo se mudarem de Belo Horizonte. Com isso, forçou-se uma pausa na carreira do quarteto, que lançou 4 discos até aqui - o último, "Liberdade", é de 2013. Mas Fernando e Bernardo logo viram neste hiato a oportunidade de criarem um projeto só dos dois. Nasceu aí o Mordomo.

O primeiro disco, homônimo, acabou de sair. São 10 faixas, todas de autoria de Persiano, que às vezes assina sozinho, às vezes acompanhado de parceiros como Leo Moraes, Caju e Renato Boechat. "A força da poesia somada a arranjos crus, de sonoridade cuidadosamente simples e certeira, são das características mais potentes. Transitando com facilidade entre o trompete e o vibrafone e entre sons de sintetizadores e sutilezas eletrônicas, apoiados por uma base que engloba violão de nylon, piano elétrico, guitarra, baixo e bateria, a dupla Bernardo e Fernando faz um som autoral e polifônico que se espalha por influências que vão da MPB clássica ao jazz de cabaré dos anos 40", diz o texto de apresentação do trabalho.

Esse "que" de cabaré dos anos 40 está especialmente escancarado na segunda faixa, "Vilma", cujo clipe o grupo lança com exclusividade pelo Azoofa. O vídeo foi dirigido, produzido e editado pelo próprio Fernando Persiano. Confira:

Falamos com a dupla sobre a ideia por trás do clipe, a cena independente de Belo Horizonte e a relação deles com São Paulo. "A cidade nos fez olhar pra dentro e encontrar nossa individualidade, algo fundamental para qualquer artista".

AZOOFA: Como surgiu o conceito do clipe? 

Fernando Persiano: Ele já existe há um tempo. De certa maneira, é uma sequência, no sentido audiovisual, de um trabalho que lancei no fim do ano passado, chamado Art La Vista, série com oito vídeos. Geralmente não existe um roteiro preestabelecido e os vídeos seguem uma linha mais livre, do ponto de vista da fotografia, da câmera quase sempre parada, com filmagens em sequência e em preto e branco. Na verdade, as imagens em sintonia com a música vão dando o direcionamento para a edição.

No caso de Vilma, especificamente, já tinha a maioria das imagens, porque estou sempre filmando, quase compulsivamente. As imagens da floresta foram feitas há dois anos. Quando comecei a pensar em Vilma, esbarrei nessas imagens e vi que tinha tudo a ver, "um cara conturbado, subindo e descendo", e que poderia ser facilmente o paciente de Vilma. O processo de criação, nesse caso, foi mais intuitivo e durou quase um mês. Testei as imagens brutas com o áudio da música e senti que o caminho seria por ali. A partir desse momento comecei a trabalhar as imagens e cortes. Durante o trabalho vou sentindo o que mais o vídeo precisa e acrescentando ou fazendo novas imagens, como foi o caso das imagens internas na escada e no consultório, feitas na semana passada.

“Vilma” tem um clima teatral, meio mambembe, que reflete a narrativa da letra. Como foi a criação desta música? E quem é Vilma? 

FP e Bernardo Dias: Vilma é uma psicóloga e a letra retrata uma sessão terapêutica na íntegra, na qual o personagem é basicamente uma mente obsessiva se dividindo em mil pensamentos, tentado definir e entender seus sentimentos em busca de paz. A criação dos arranjos foi sendo desenvolvida de maneira bem natural e nasceu em camadas. A base de violão foi sendo acompanhada pela levada de bateria, depois a linha do piano foi colocada e ela foi criando uma cara. Queríamos um clima intrigante, porque ela demonstra certa inquietude consciente.

O Mordomo é o primeiro projeto de vocês depois do Vitrolas. Por que decidiram dar uma pausa no Vitrolas e criá-lo agora?

O Vitrolas trabalhou ininterruptamente por 13 anos e a pausa ocorreu pelo fato de dois integrantes terem se mudado de Belo Horizonte. O surgimento do Mordomo aconteceu também de forma natural. Com as músicas na ponta da língua e vivendo na mesma cidade, resolvemos aproveitar esse tempo de pausa da banda para seguirmos dedicados às nossas criações.

Vocês são parceiros musicais há anos. De que maneira essa amizade influenciou o resultado final do disco?

Influencia em vários aspectos. Não tivemos pudor em expor nada e, por isso, todas as ideias foram testadas e ouvidas, por mais ridículas que fossem. Temos uma liberdade de trabalho sem limites e do ponto de vista da intimidade, conseguimos fazer com que nossas ideias fossem extremamente complementares durante o processo de criação.

Como anda a cena independente de BH? Há um espírito colaborativo entre os artistas, algo que a gente vê bastante aqui em São Paulo, de músicos que participam uns dos projetos dos outros?

Moramos em São Paulo de 2006 a 2009, na época em que viajávamos com o Vitrolas, e depois voltamos pra Minas. Percebemos a cena autoral de Belo Horizonte num momento bem promissor. Além de muitos artistas terem lançado discos e evoluído musicalmente, há um movimento de bandas e produtores que começou há 10 anos e hoje amadurece em parceria com produtores e artistas já experientes, que conquistaram muita coisa em termos de organização e colaboração. BH hoje é uma das cidades com a cena mais organizada e atuante do país e vive um momento rico de criação e produção cultural que renderá bons frutos. São ótimos artistas, casas de shows voltadas para a cena independente, estúdios de gravação, leis de incentivo e programas do governo que contribuem para um grande momento à frente.

Vocês são fãs de clipes? Podem listar alguns dos preferidos de vocês e comenta-los?

Não somos devoradores de clipes, mas eu, Fernando, sou atento à fotografia e aos cortes das cenas de videoclipes que vejo e de filmes também, sobretudo os alternativos. Em geral, minha influência vem daí. Gosto e me identifico com os vídeos do Jonathan Tadeu, músico de BH, principalmente do seu trabalho solo que saiu este ano. “Whitney Houston” (assista) é um clipe construído a partir de um vídeo antidrogas feito em 1967, mas parece feito para a música. “Começar de Novo” (assista) é muito criativo, brinca com a repetição de imagens, com o tempo das coisas e seus acontecimentos. Foi filmado durante um encontro de amigos. Outro videoclipe que me chamou atenção foi da música “The Upsetter”, da banda inglesa Metronomy, que conheci apenas no ano passado. A música, assim como o clipe, traz uma carga emocional bonita e envolvente, além de uma simplicidade interessante, algo que busco nas minhas músicas.

Qual a relação de vocês com a cidade São Paulo?

Moramos por três anos em São Paulo com o Vitrolas, de 2006 a 2009. Foi um momento de mudança de mercado, no qual o modelo antigo estava em decadência e o novo chegando ainda com poucas diretrizes. Vivíamos nos equilibrando entre a dificuldade de ser grande e a cegueira de não conhecer o novo. A cidade nos fez olhar pra dentro e encontrar nossa individualidade, algo fundamental para qualquer artista. Hoje temos essa consciência observando, inclusive, as canções que compusemos nesse período, talvez as mais existencialistas. Temos um carinho enorme pela cidade, pelas pessoas e oportunidades que encontramos lá.

Vocês têm previsão de se apresentarem por aqui?

Ainda não há uma data marcada, mas estamos organizando uma circulação do Mordomo pelo país e isso certamente irá acontecer depois do carnaval. São Paulo deve ser uma das primeiras cidades dessa turnê. As expectativas são boas e avisaremos aos leitores do Azoofa quando tivermos a data.

***

arte | belisa bagiani

fotos | divulgação

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

Comentários
Postagens relacionadas

21/06/2019 Geral

Lançamentos de junho

18/06/2019 Geral

Making of Mariana Aydar

12/06/2019 Geral, Entrevistas

O Artista em Processo: Tiê

Shows relacionados
O SOM DA CASA
13/07/2019 - 20:00 hs
até 19/10/2019 - 20:00 hs
Casa dos Trovadores
grátis
O SOM DA CASA
ITAIPAVA DE SOM A SOL SP
26/09/2019 - 21:30 hs
até 04/10/2019 - 21:30 hs
Ginásio do Ibirapuera
ITAIPAVA DE SOM A SOL SP
KING CRIMSON
04/10/2019 - 21:30 hs
Espaço das Américas
R$150 a
R$850
comprar
KING CRIMSON
BON JOVI
25/09/2019 - 20:00 hs
Allianz Parque
R$180 a
R$780
comprar
BON JOVI
PAULA LIMA
29/07/2019 - 19:30 hs
SESC Carmo
R$10 a
R$6
comprar
PAULA LIMA
ANA CAROLINA
26/07/2019 - 22:00 hs
até 27/07/2019 - 22:00 hs
Tom Brasil
ANA CAROLINA
NEI LOPES
25/07/2019 - 19:30 hs
SESC Carmo
R$10 a
R$6
comprar
NEI LOPES