É pela cultura: leia o que 16 músicos tem a dizer sobre o fim do MinC

Após a votação a favor da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff pelo Senado brasileiro, na semana passada, o vice-presidente Michel Temer assumiu o governo e anunciou os nomes dos seus ministros. Naquele momento, o Brasil soube que o Ministério da Cultura, criado em 1985, não existia mais. Ou que Temer o havia fundido com o Ministério da Educação, o que, na prática, configurava menos uma proposta do que um vulgar arranjo político, o de cortar um ministério para passar a ideia de austeridade econômica.

Naquela quinta-feira, o Brasil soube que a Cultura - o maior patrimônio do país, como um músico aqui embaixo dirá - foi rebaixada. Não é prioridade. Ao chamar os artistas para a briga, Temer - um político conhecido por sua "habilidade" em lidar com os meandros de Brasília - cometeu uma falha estratégica constrangedora. Ateou álcool na chama da defesa da democracia, que ardia em fogo baixo depois do golpe - nos dois sentidos - sofrido por aqueles que eram contrários ao impeachment. A classe artística, historicamente ligada a defesa da democracia e historicamente desunida, imediatamente se mobilizou. Em poucos dias, em diversas cidades do país, uniram-se profissionais do teatro, da música, do circo, da dança, do cinema e das artes plásticas em ocupações, em assembleias, manifestações, em grupos de discussões na internet. Rapidamente, e muito efetivamente, Michel Temer teve que acordar e dormir pensando na tal Cultura que ele, dito poeta, não respeitou. Porque, como dirá um artista aqui embaixo, se há uma coisa que artista tem é voz.

É a voz de alguns deles que você vai ouvir aqui. Convidamos 16 artistas para nos contarem livremente o que pensam sobre o fim do Ministério da Cultura.

Reportagem: Eduardo Lemos | Arte: Marina Malheiro

"O fim do MinC representa um modelo político, de gestão e de relação social que esse pseudo governo - não consigo chamá-lo de governo legítimo - quer implementar.A extinção do ministério não me surpreende, de certa forma, porque é isso que esse governo representa: um pensamento radical, de direita e retrógrado. Não há interesse em promover a cultura, o pensamento crítico e as ações sociais. Então, o fim do MinC é só um dos tantos símbolos de retrocesso que estamos assistindo.Voltamos 30 anos atrás em 1 semana.A gente tem que se juntar como sociedade, não como segmento, pra reivindicar a saída desse governo. Não temos que negociar nada com quem deu um golpe no país".

"Abaixo a retórica descarada de que artista não trabalha e que arte e cultura seria algo como um adereço das questões essenciais, e portanto deve-se cortar gastos. Ao meu ver,é uma estratégia inteligente de minar de vez com as potencialidades do ser humano brasileiro, de assassinar simbolicamente mas também pragmaticamente toda a diversidade nacional, eliminar o outro. Porque eles, que se fazem de sonsos ao diminuir a cultura, sabem muito bem que a cultura é a essência do homem e de um povo, é a relação do ser com o mundo. Quando se estrangula a possibilidade do campo cultural, tiram toda a liberdade da sociedade, com o agravante de que se estimulou no Brasil que cultura a gente vê na Globo, que seria o grande Ministério da Cultura, validando o que é bom ou não, dando todas as diretrizes estéticas, políticas, éticas, morais, etc....Então é assim: quer manter o povo no cabresto, então corte sua cultura. É tudo uma orquestração nefasta contra a democratização cuja cultura é o alvo simbólico, é o coração golpeado, porque cultura é tudo, é nosso poder investido, é o próprio corpo.Cultura não só forma como é a própria forma, então por trás disso, ao meu ver, está também o controle econômico da cultura, contra o mercado independente, além do controle de mente de um país pobre, analfabeto e alienado. Isso não ē novo. Durante a ditadura e além dela, a Globo impôs seu império ditando as normas. Tudo está interligado. Todos sabem o poder intrínseco que a cultura tem em relação a todos os campos. Ela é o instrumento maior que nos temos em relação ao outro e a nós mesmos. O papo é longo... mas pra completar, e só frisando que é muito contraditório (apesar de saber que isso é premeditado) estarem supostamente resolvendo a crise só que desempregando milhares de profissionais, desarticulando toda a construção feita. Isso só trará mais pobreza.Nada mais antidemocrático ou antinacionalista que negar a maior potência de um povo.Há muito o que dizer. Mas assim como em todos os períodos sombrios, a cultura resistiu e criou suas condições. Só que agora vai ser maior porque acho que o grande trabalho da cultura não é só defender o MinC - até porque a cultura atravessa o estado - mas o grande trabalho que temos agora é resignificar a própria cultura no nosso país, reinventar essa relação do Brasil com a cultura, fazer um MinC ainda mais popular, ligado a uma nova estrutura política, ligado a uma nova cosmovisão capaz de nos integrar e reconectar a nossa essência. Outra coisa: cultura não é coisa de artista ou de guardiões de tradições significativas. Cultura pertence a todos. Tudo é um ato artístico inventivo. O corpo político só existe na medida que está em pleno movimento cultural, então engana-se quem acha que tá acabando com a "mordomia" do artista. Quem acha isso vai descobrir que está cortando seus próprios dedos e dos seus filhos. Corta-se a energia vital de um povo e cria-se um câncer.Cultura é cura, é bem estar, cultura não é cinema, música... Cultura é SER. Então, o governo golpista temerário é contra o ser".

"Retrocesso é a melhor palavra pra definir o fim do Minc. Também sinto um tom de retaliação do presidente interino para com os artistas, que em sua maioria foram contrários ao impeachment. Acho que ele está dando um tiro no pé comprando essa briga porque os artistas estão se organizando. E se tem uma coisa que a gente tem, é voz".

"Eu não reconheço quem não me reconhece. A extinção do Ministério da Cultura nas primeiras cinco horas do Governo Temer foi um ato de violência. Violência contra nós artistas, negros, imigrantes, povos indígenas, comunidade LGBTT, ativistas digitais e analógicos, intelectuais, produtores, mestres de tradições ancestrais, ou, em categorias mais amplas, contra trabalhadores, não trabalhadores, empresários e profissionais liberais. Nos últimos 13 anos e meio o MinC criou os mecanismos institucionais de reconhecimento e potencialização desta concepção de cultura, ampla e diversa, que abrange desde a potencialidade econômica do audiovisual e da música ao mais distante ponto de cultura do Brasil profundo. Portanto, não reconhecer a cultura é negar o próprio país e, no limite, a própria existência. Nada mais violento do que isso".

"O fim do MinC significa o final de uma era de evolução em termos de ações afirmativas para o fortalecimento da diversidade cultural. Um retrocesso histórico. É muito triste ver um país como o Brasil, internacionalmente reconhecido pela sua riqueza cultural, sofrer mais um golpe como esse".

"O fim do Minc é muito maior do que o próprio Minc. O fim do Minc vem punir a diferença, a possiblidade de indecisão e mutação coletiva que são as demandas da sociedade. É muito grave que, por exemplo, os pontos de cultura estejam ameaçados e rumando ao sucateamento, eles preservam e cuidam das culturas locais por todo Brasil. Assim como é grave a lógica de exclusões praticadas às fundamentais ações governamentais dos direitos das mulheres, dos direitos humanos, das diferenças raciais e todos os micromundos que compõem o macro real (e que nesse momento estão sendo tratados como micro e imaginário). O artista faz parte de uma coisa toda que é o pensamento, e ele não é nosso, é coletivo. O fim do Minc já não pede mais a volta dele, ou melhor, pede a volta dele com o fim desse governo, que não é legítimo e não o reconhecemos. O fim do Minc pede a volta do pensamento".

"O que há de mais terrível no fim do MinC é a ascenção de uma mentalidade muito conservadora, tacanha e obscura, de pessoas que ainda acreditam e associam o trabalho do artista não só como algo sem valor, como coisa de vagabundo. A gente achava que isso já tinha sido superado. Mas o fim do MinC trouxe, também, coisas positivas, que eu venho percebendo nos últimos dias. Grande parte dos artistas não quer a volta do MinC, mas a volta do governo. Não adianta ter ministério da Cultura num governo comandando por esse... delegado. Essa mobilização atual não se restringe ao fim do ministério, ela é pelo fim desse governo".

"O fim do MINC é um sintoma fortíssimo da doença grave pela qual o país está passando: a retomada do poder por pessoas que estão agindo deliberadamente, em resumo, contra a construção da democracia, contra a diversidade religiosa, cultural, de gênero e de cor. Profundamente arraigado no ódio contra o diferente, e claro, principalmente contra o pobre, num trabalho para aumentar ainda mais a diferença econômica entre as pessoas. A extinção do MINC foi um baque muito grande pra mim, porque, apesar da crise dos últimos anos, no ministério de Gil e Juca foi criado, pela primeira vez no Brasil um PROGRAMA de cultura, e várias secretarias pela diversidade cultural. A criação do MINC é praticamente um marco da própria democracia no pais, já que ele começou a existir em 1985. Só que a classe artística estava abertamente contra 'o interino'. Era de se esperar mais esse golpe. Embora eu esteja sofrendo pessoalmente por causa do fim do MINC, não peço a volta dele. Eu simplesmente não dialogo com este des-governo".

"A extinção do MINC é uma mensagem direta aos artistas. Uma medida simbólica para satisfazer os apoiadores do impeachment, que sabem o quanto estamos empenhados em resistir. Mas isso só vai fortalecer o nosso discurso contra este golpe bizarro. Este assunto tem que ter a devida atenção, mas não podemos perder o foco, que é negar Michel Temer como presidente".

"Fico mais feliz do manifesto [da ocupação Funarte-SP] sair do que uma fala minha, sabe? Não é por mim ou pela minha banda, é pela cultura do país. Aqui vai o manifesto: Artistas, produtores, trabalhadores da cultura, intelectuais, estudantes e defensores da democracia de São Paulo, ocupam o Complexo Cultural MinC-Funarte-SP em ação de desobediência civil contra o golpe parlamentar, jurídico e midiático ocorrido no Brasil. Não reconhecemos a legitimidade deste governo golpista e repudiamos o consequente desrespeito dos direitos assegurados em nossa Constituição. Este governo não tem autoridade para fechar ministérios, secretarias ou desmontar políticas sociais conquistadas. Por isso, como agentes da cultura, ocupamos este espaço para denunciar e exigir o fim deste governo ilegítimo. Dialogando com as outras ocupações e crescentes atos de repúdio ao golpe, deixamos claro que esta é uma ocupação plural e abrangente. Por isso convidamos artistas e população de São Paulo a se juntar à nossa ocupação com ensaios, performances, intervenções, debates e demais atividades culturais como forma de resistência contra o estado de exceção instituído pelo golpe".

"Nos últimos 5 anos tive uma intensa agenda de shows fora do país, e te digo que a coisa mais imediatamente associada ao Brasil é a sua cultura. Ninguém pensa em ciência, economia ou tecnologia quando você diz que é do Brasil. A cultura é o capital simbólico mais forte que o Brasil tem no mundo. Portanto, acabar com o MinC é simplesmente negar um dos maiores potenciais que o país tem".

"A cultura é uma das maiores riquezas do Brasil, e quando digo cultura não estou pensando na OSESP. Tô falando de congada, folia de reis, boi maranhense, batuque, capoeira, samba de roda. Tô falando de música porque é minha área, mas tem as artes plásticas, o teatro, o cinema. As políticas públicas são fundamentais em todas as áreas que envolvem manifestações culturais. Perder um Ministério da Cultura nessa altura do campeonato é jogar fora a possibilidade de incentivar e preservar essa riqueza toda; é boicotar uma série de projetos maravilhosos como os Pontos de Cultura; boicotar os comitês que estão discutindo Brasil afora as demandas dos profissionais da cultura; é enfraquecer a ANCINE, que viabiliza filmes lindos e gera uma economia do cinema com muitos postos de trabalho. Quem trabalha na cultura sabe que é uma luta. E o fim do Minc é uma derrota enorme nessa luta".

"Com a extinção do MinC, é clara a intenção desse governo ilegal e leviano boicotar a cultura. Não é uma questão econômica, como eles dizem. Qualquer pessoa sensata sabe que não há futuro saudável sem educação e cultura. Importante, muito importante dizer também que haverá um prejuízo irreparável com o fim do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Lutemos!"

"Está claro que não foi por questões econômicas que o ministério foi extinto, pois era um dos orçamentos mais baixos de todo o governo, e a economia gerada com essa extinção não faz nem cócegas para a união. O fechamento é ideológico, um presente para a parte conservadora da população, a mesma população que apoiou o golpe, um golpe fundo na construção de uma sociedade mais igualitária, diversa e plural!"

"A Cultura tem um papel transformador na vida das pessoas. A música me tirou da bolha ainda adolescente, me aproximou de muita gente e me ajudou de desconstruir uma série de pré-conceitos que nossa sociedade tem e que herdamos por inércia. Um governo que não deseja cultura não entende seu povo, suas muitas facetas, e jamais entenderá todas as suas demandas, pois desconhece o próprio país".

"O fim do ministério da cultura, assim como todas as outras atitudes desse presidente interino não me surpreendem, quem chega ao poder do jeito que ele chegou não está bem intencionado e não quer nada de bom para o país. Precisamos restituir a democracia, o estado de direito, daí teremos de volta o Minc, um ministério com representatividade feminina, os programas sociais e nossa dignidade".

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

Comentários
Postagens relacionadas

20/09/2019 Geral

Lançamentos de setembro

03/09/2019 Geral, Entrevistas

O Artista em Processo: Luiz Gabriel Lopes

30/08/2019 Geral

Lançamentos de agosto

22/08/2019 Geral, Entrevistas

'Duvidaram da volta do Barão'

13/08/2019 Geral, Entrevistas

5 perguntas: Rodrigo Suricato

Shows relacionados
JAZZ IN FESTIVAL
21/09/2019 - 17:00 hs
até 07/12/2019 - 17:00 hs
Teatro Porto Seguro
JAZZ IN FESTIVAL
COLETIVO RODA GIGANTE
22/09/2019 - 13:00 hs
até 18/11/2019 - 13:00 hs
JazzB
COLETIVO RODA GIGANTE
JUÇARA MARÇAL
07/10/2019 - 20:00 hs
até 28/10/2019 - 20:00 hs
Centro da Terra
JUÇARA MARÇAL
O SOM DA CASA
19/10/2019 - 20:00 hs
até 19/10/2019 - 20:00 hs
Casa dos Trovadores
grátis
O SOM DA CASA
ANDRÉ FRATESCHI & HEROES
13/10/2019 - 19:00 hs
Morumbi Shopping
R$35 a
R$70
comprar
ANDRÉ FRATESCHI & HEROES
BULLET BANE + BLACK DAYS + VALEIRAS + IMBIMBO
13/10/2019 - 18:00 hs
Z - Largo da Batata
R$15 a
R$25
comprar
BULLET BANE + BLACK DAYS + VALEIRAS + IMBIMBO
SANDY E JUNIOR
12/10/2019 - 20:00 hs
até 13/10/2019 - 20:00 hs
Allianz Parque
SANDY E JUNIOR