Azoofa Indica: Manu Maltez

A palavra multiartista, tão utilizada atualmente para classificar/descrever aqueles que atuam simultaneamente em diversas áreas da arte, raras vezes se encaixa tão bem à realidade quanto quando se trata de Manu Maltez. O paulistano, nascido em 1977, passeia com brilho por cinema, artes plásticas, literatura e música, mas não só: uma ideia de Manu, ou um projeto dele, é capaz de gerar uma obra forte em cada uma dessas áreas.

É o caso, por exemplo, do show que ele apresenta nesta sexta-feira (10) no Sesc Belenzinho. "O Diabo Era Mais Embaixo" saiu em livro, virou filme (a estreia dele no cinema) e é, também, um espetáculo de música. Para contar a história de uma baixista em crise, Manu terá ao seu lado Thaís Nicodemo (piano), Pipo Pegoraro (guitarra), Thomas Harres (bateria), Anderson Quevedo (sax) e Juliana Perdigão (clarone). O show ainda tem participação especial de Rubi, ao vivo, de Lourenço Mutarelli, em vídeo.

Com exclusividade para o Azoofa, Manu fala sobre o show, reflete sobre a relação entre arte e obsessão e revela seu próximo projeto, aprovado no Rumos - Itaú Cultural.

AZOOFA: Manu, já faz um tempo que você apresenta o show “O Diabo Era Mais Embaixo”. Como surgiu a ideia de criar este espetáculo, que também virou filme e livro?

Manu Maltez: Bem, o Diabo tem muitas formas, vive se metamorfoseando. Tudo surgiu de um continho modesto que escrevi há uns dez anos atrás, uma espécie de fábula sobre a origem do timbre do contrabaixo. A partir daí, fiz uma peça musical pra trio de contrabaixos e uma orquestrinha. Fizemos várias apresentações na época, me lembro que nos apresentávamos na Casa de Francisca e quase não cabíamos na casa, ficava o trio em cima do palco e o resto dos músicos espalhados entre a platéia... A partir daí me deu vontade de ilustrar a história, o que resultou em um livro (O Diabo Era Mais Embaixo"> - Editora Scipione 2012). Pedi pro Lourenço Mutarelli se ele podia fazer um texto livre de apresentação pro livro, e esse texto eu acabei musicando e virou nossa primeira parceria. Fizemos também algumas apresentações musicais, agora, já em um outro formato, com canções que ilustravam a história, com o Mutarelli fazendo o papel do Diabo, usando também máscaras na apresentação. Foi assim que veio a idéia de fazer um filme, misturando tudo o que havia até então com o cinema e animação, inclusive com o próprio Lourenço no papel do Diabo. A partir do filme (Selo Sesc 2014), veio a idéia desse novo show, que mistura todos esses mundos, que apresentaremos agora no Sesc Belenzinho.

A banda que te acompanha no Sesc Belenzinho reúne um time de peso. Qual é o papel dos músicos na dinâmica deste show?

São grandes músicos/artistas. Cada um representa uma entidade, um timbre, que habita o andar de baixo, numa espécie de mitologia musical inventada. Escolhi em sua maioria instrumentos graves (sax barítono, clarone, guitarra barítono, contrabaixo, além de um piano preparado e bateria). Dessa vez, vale dizer, que quem vai fazer o papel de "Clotilde", a entidade/timbre de voz feminina da história (além de ex-namorada do personagem principal) será o Rubi. E devo dizer que o resultado está fantástico.

O espetáculo faz uma releitura contemporânea do mito de Fausto, criando a história de um homem que vende a alma ao diabo em busca de dominar um instrumento. Você, como um multiartista que é, já se viu (ou se vê) desenvolvendo uma relação obsessiva com alguma dessas artes?

Sempre. E também elas exigem isso, são ciumentas, possessivas. A única explicação que encontro pra ter feito essa escolha (se isso pode ser chamado de escolha) de atuar em artes diversas, foi a paixão por todas elas. E paixão, como se sabe, é obsessão.

Você é paulistano e achei curioso que no release de imprensa vem a informação de que você “recentemente passou a morar na rua em que nasceu”. Tenho que te perguntar: como é voltar a viver na rua em que nasceu?

Pois é, é um negócio diferente, intenso. A rua mudou muito, mas a casa em que nasci e a que estou morando agora continuam praticamente iguais. Você se debate todo dia com suas lembranças, passa sobre a mesma calçada em que antes eu descia de skate, passa por cima de você mesmo, e às vezes cai.

Você acaba de ter um projeto aprovado no Rumos do Itaú Cultural, “O Rabequeiro Maneta e a Fúria da Natureza”, que também traz um personagem envolvido com a música, embora o contexto – os bailes de forrós do final da década de 70 em São Paulo – seja completamente oposto do “Diabo”. Queria que você falasse sobre essa história e como ela será desenvolvida em vinil, livro e animação.

Apesar de ser um contexto diferente, as duas histórias tem traços comuns, dialogam com o fantástico, podem ser vistas como lendas, fábulas, embora o Rabequeiro Maneta tenha mais o "pé no chão". As duas histórias também se aproximam porque tem traços autobiográficos. O Rabequeiro Maneta surgiu das minhas experiências entre São Paulo e sertão da Bahia, por onde tenho transitado muito nos últimos 15 anos. Filme, disco e livro serão três facetas de uma mesma história, que se alimentam um do outro para contar a saga de um músico melancólico que não lembra ao certo como perdeu sua mão. Mais que isso não posso contar...

***

arte | marina malheiro

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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