Ganjaman é "O" Cara

Daniel Ganjaman é um dos maiores e mais bem sucedidos nomes do rap nacional. Responsável pela produção artística dos discos recém lançados do Criolo, Rael, Baiana System e o álbum póstumo em homenagem ao Sabotage, ele espera lançar em 2017 seu próprio disco. "Tenho até vergonha de dizer que entre os planos está o lançamento do meu próprio disco, já que falo disso há, pelo menos, 5 anos", conta.

Em 2015, entrevistei Ganjaman no Faro MPB, programa da rádio carioca MPB FM, e me recordo o quanto seu talento e articulação me fascinaram. A música veio do berço - seu pai foi músico nos anos 60 - e a paixão por ela era inevitável. Autodidata, multi instrumentista e homem engajado, Ganjaman acredita - assim como eu - que  vivemos num momento sócio-político que não cabe o silêncio.

Nesta primeira colaboração pro site Azoofa, divido com vocês meu papo com ele.

Fabiane Pereira: Quando a música entrou, profissionalmente, em sua vida?

Daniel Ganjaman: Música se mistura com minha vida de tal jeito que é difícil responder essa pergunta. Meu pai foi músicos nos anos 60 e sempre tive instrumentos em casa. Comecei a estudar órgão aos 6 anos. Mais tarde, já com 14/15, tive minhas primeiras bandas, bastante envolvido com a cena de punk e hardcore de São Paulo. Era uma época muito diferente de hoje em dia e nossa vontade era tirar um som. Me lembro de fazer altas manobras pra ter um equipamento minimamente decente no show, mas não tenho nenhuma lembrança de qualquer preocupação com cachê. Nossa vontade era tocar, sem pensar onde isso iria (ou poderia) nos levar.

Como você aprendeu a trabalhar dentro de um estúdio? Você se recorda a primeira vez que entrou dentro de um?

Lembro de ter ido em alguns estúdios com meu pai, ainda criança. Também me lembro das primeiras gravações que participei, em estúdios bastante precários. Minha escola mesmo foi o El Rocha, estúdio que abri com minha família em 97 e que de lá pra cá, só cresceu. Aprendi toda parte de engenharia de áudio sozinho, na marra, e como fui o engenheiro do estúdio por muitos  anos, acabei gravando e produzindo muitos discos naquela época.

Muita gente liga seu trabalho ao rap mas você tem um longo currículo e já trabalhou com outros gêneros como o punk e o hardcore. O que você viu/sentiu trabalhando com o hiphop/rap que fez você se aperfeiçoar no gênero e tornar-se uma referência?

Sempre ouvi muita música, de diferentes estilos, mas minha infância e adolescência foi bastante marcada pelo metal, punk e hardcore. Acho que o fator determinante pra essa aproximação com o rap foi o skate, que teve papel fundamental na cena musical e cultural daquela época. Penso que o que vem sendo feito de mais criativo, original e inovador na música mundial nas últimas décadas tem uma forte ligação com o rap e seus sub-gêneros. Me sinto alinhado com essa linguagem não só musicalmente como ideologicamente, portanto é natural que tenha seguido nessa direção.

Conta pra gente como rolou seu encontro com o Sabotage?

Conheci o Sabotage pessoalmente já para começar a produção de seu primeiro disco, “O Rap é Compromisso”, junto com o Zé Gonzales e a família RZO, a convite dos Racionais (que lançaram o disco na época). Tinha visto alguns videos dele cantando com o RZO na TV mas não o conhecia pessoalmente. Na primeira semana de trabalho, já percebi o talento absurdo dele como MC e conforme fomos produzindo o disco, nos tornamos muito conectados no que diz respeito a parte musical. Tínhamos muita afinidade para trabalhar juntos.

Você arrisca prever como seria o mercado do rap hoje em dia se a morte prematura do Sabotage, não tivesse ocorrido?

É completamente impossível imaginar onde o rap brasileiro estaria se o Sabotage tivesse presente, e sua morte foi um grande baque pra todos desse segmento. Certamente, estaria fazendo diferença na música brasileira como um todo, mas naquele momento, foi o rap que perdeu um de seus maiores representantes e um talento sem precedentes.

Qual a sensação de ver, após 13 anos, um disco póstumo em tributo ao Sabotage ser lançado em um dos períodos mais conturbados da recente democracia brasileira?

O disco demorou muito para sair, por diversos motivos, mas fazendo um retrospecto desses anos todos e avaliando toda transformação que aconteceu com o estilo - tanto a parte artística quanto de mercado - acho que não existiria melhor ocasião. O Sabotage era muito a frente de seu tempo, e isso fica nítido ao ouvir esse disco com vozes gravadas há mais de 13 anos e ainda soando tão atual. Demorou muito tempo para dissecar todas as questões artísticas e burocráticas desse disco, pois a ausência do Sabotage sempre nos deixava muito apreensivo quanto ao rumo que ele gostaria que o disco tomasse. Todos os direitos foram destinados a família e nenhum produtor ou músico envolvido recebeu para trabalhar no disco. É uma obra de legado para seus herdeiros.

Na sua opinião, todo e qualquer ARTISTA precisa se posicionar, politicamente? Por quê?

Essa é uma opinião pessoal, não um “dedo na cara”. Particularmente, acredito em artistas que se posicionam e vivemos um momento sócio-político que não cabe o silêncio, pois as questões latentes afetam diretamente a todos nós. Faço um paralelo com o auge da ditadura, que obviamente impactava de forma muito mais direta as expressões artísticas e por isso, se via mais adesão… mas é exatamente por termos essa herança histórica que me admira a falta de um posicionamento mais incisivo da classe artística de modo geral. Esse momento de ódio desmedido e, consequentemente, o receio de criar antipatia com o público, nos transformou nessa geração apática e bastante bunda mole.

Conta pra gente como foi seu encontro com o Criolo?

Conhecia o trabalho do Criolo de longa data, mas não tínhamos muito contato. Nosso encontro se deu já para a produção do “Nó na Orelha”, quanto fui convidado pelo Marcelo Cabral pra produzir junto com ele. Fizemos uma primeira reunião na Matilha Cultural (a principal financiadora do disco) e logo em seguida, já estávamos em estúdio trabalhando nas músicas do disco.

"Nó na Orelha" é um divisor de águas no rap contemporâneo porque alcançou os grandes meios de comunicação e estreitou as relações sonoras entre a favela e o asfalto. Pra você, o que tem de especial neste disco?

Acho que o disco foi lançado em um momento muito oportuno, o que ajudou muito a ter toda essa repercussão. Pra mim, o Criolo é um artista muito autêntico e especial, do tipo que com muita sorte, aparece um a cada dez anos. O disco percorre diversos estilos tendo o próprio Criolo como amarração dessa sonoridade tão plural. A polivalência artística dele é o que possibilitou essa pluralidade e isso fez do disco um momento bastante marcante pra música no Brasil.

Dá pra saber, ainda durante o processo de produção, que um disco vai se tornar antológico como "Rap É Compromisso!" e "Nó na Orelha"? Se sim, como? Quais sinais que eles emitem ainda em estúdio?

Nesses dois casos, são artistas geniais, o que na minha opinião é mais de meio caminho andado para a produção de um grande disco. Lembro-me de ter sentido enquanto mixava que “Nó Na Orelha” teria uma grande força, mas ninguém imaginava o que viria a acontecer. De fato, é muito difícil prever algo do tipo, pois envolve não só o trabalho em si isoladamente, mas também o contexto social, cultural e político que ele estará inserido no momento do lançamento.

Você assina a produção do novo disco do Rael que também é um grande representante do rap nacional. Como foi o processo de produção deste trabalho e o que diferencia o Rael dos outros rappers da sua geração?

O Rael é provavelmente a voz mais bonita dessa geração, e isso sempre foi um enorme diferencial, desde os tempos do Pentágono (grupo que ele fazia parte quando nos conhecemos). É também um artista completo, já trouxe pronto muito do conceito das músicas do disco, por isso assina a co-produção comigo. Rael é também um artista muito plural, que percorre vários estilos com muita naturalidade, além de ser um cara com bastante vivência de rua. Isso faz muita diferença para artistas desse segmento.

Você também participou da produção do álbum "A Invasão do Sagaz Homem Fumaça", terceiro disco da banda Planet Hemp, considerado por muitos o melhor da banda. Como este projeto chegou até você?

Na realidade, esse disco foi produzido por David Corcos e Mario Caldato, dois dos meus grandes professores. Trabalhei com eles na produção do disco e foi um momento de muito aprendizado pra mim, pois foi meu primeiro trabalho dentro de um esquema de grande gravadora, em seus moldes mais tradicionais. Foi muito importante para entender a dinâmica de trabalho do grande mercado, inclusive pra não repetir certos erros muito comuns naquela época.

Quais os planos profissionais para 2017?

Tenho até vergonha de dizer que entre os planos está o lançamento do meu próprio disco, já que falo disso há pelo menos uns 5 anos. 2016 foi um ano muito gratificante para mim pois foram lançados 5 discos que trabalhei e que estou muito orgulhoso dos resultados (Baiana System, Criolo, Rael, Sabotage e Síntese). Começo o ano de 2017 produzindo o disco do Planta e Raiz, fruto de uma vontade antiga de trabalharmos juntos, tanto minha quanto deles. Sigo meus trabalhos com o Criolo, que é o artista que tenho maior alinhamento musical e ideológico, por isso se tornou um grande irmão e parceiro na vida. Fora isso, espero continuar produzindo discos e dirigindo espetáculos pro resto da vida, pois sem ser isso, não me imagino fazendo mais nada. Música é a minha vida.

***

Quem escreveu
Fabiane Pereira

Fabiane Pereira é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela ESPM e em Formação do Escritor pela PUC-Rio. É mestranda em Comunicação, Cultura e Tecnologia da Informação no Instituto Universitário de Lisboa. É curadora do projeto literário Som & Pausa e toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação. É apresentadora do programa Faro na rádio carioca SulAmérica Paradiso FM (95.7 FM).

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