Exclusivo: Arthur Nogueira lança EP

 

(Foto: Murilo Alvesso)

 

No Brasil de 2019, com os sujeitos no poder empenhados em tornar o país uma nação com ojeriza ao pensamento crítico, qual é a função do artista nesta sociedade?

 

O cantor e compositor Arthur Nogueira recorre à escritora Hannah Arendt para explicar o que o motiva a lançar o EP "Coragem de Poeta", que ele apresenta com exclusividade para o Azoofa. "Em tempos sombrios, a iluminação pode provir", segundo Hannah Arendt, "menos das teorias e conceitos" e mais da luz que "alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias". 

 

Com o mesmo título de um poema de Friedrich Hölderlin, o "Coragem de Poeta" reúne quatro faixas gravadas ao vivo no estúdio, em formato voz e violão, em que Arthur faz reverência a Renato Russo, Cássia Eller, Cazuza, Antonio Cicero, Maria Bethânia e as argentinas María Elena Walsh e Mercedes Sosa. As sessões de gravação, realizadas em sua cidade natal, Belém, foram registradas em vídeo pelos diretores Adriana de Faria e Lucas Domires.

(Capa: Elisa Arruda) 

 

No silêncio potente do formato sem banda, Arthur - que prepara material inédito para ser lançado muito em breve - propõe uma espécie de seleção afetiva de músicas que o inspiram a manter a firmeza de ânimo contra os perigos e sofrimentos lá fora.

 

Nesta entrevista, ele comenta o novo trabalho, relembra sua relação com as canções e diz que nenhuma voz é passível de ser calada. "A verdade é que os grandes artistas não morrem".

 

"Coragem de Poeta" chega ao mundo no Brasil de 2019, em que o governo ataca a arte e a educação. Você cita a Hannah Arendt e sua noção de "sombrio" para explicar o EP. Como o atual cenário o motivou a reunir estas canções e gravá-las?

 

A citação é de um livro da Hannah Arendt, autora que admiro muito, chamado "Homens em tempos sombrios". Ela recorre à palavra "sombrio" por causa do famoso poema de Brecht, "An die Nachgeborenen" ("Aos que vão nascer", na tradução do Geir Campos). Os tempos podem ser sombrios, segundo Arendt, tanto no sentido de tenebrosos como no sentido da falta de clareza que favorece a distorção da verdade. São tempos de tiranias e injustiças que se impõem pela mentira, isto é, "pelo discurso que não revela o que é, mas o varre para sob o tapete". Acredito que agora atravessamos tempos sombrios no Brasil, nos dois sentidos. Durante as eleições, fiquei triste e assustado com muitas pessoas ao meu redor. A brutalidade do discurso do agora presidente, cuja vitória se deveu, em grande medida, às fakes news, estimulou que muitos brasileiros expusessem seus preconceitos sem qualquer pudor. Mais do que nunca, senti vontade de estar perto dos meus. Não só no sentido físico, de correr para o abraço dos meus amigos mais sensíveis, mas também no artístico. Encontrei abrigo nas obras de artistas que me iluminam há muito tempo. Do desejo de, por um lado, compreender a importância desses artistas em minha própria vida e obra e, por outro, de contribuir com meu trabalho para que, em alguma medida, suas vidas e obras não se percam em sombras, nasceu o "Coragem de poeta", esse EP que chega às plataformas digitais pela gravadora Joia Moderna, do DJ Zé Pedro.

 

Você opta por um registro cru, em voz e violão, que remete ao silêncio e ao falar baixo, justamente num momento de histeria, em que todos gritam e ninguém se escuta. Por que essa escolha?

 

Nos últimos anos, me dei conta do quanto ter um violão por perto foi importante. Só comecei a cantar porque ganhei um violão, por volta dos 12 anos. Só comecei a compor e a trazer os poetas que admiro para perto de mim, porque aprendi a tocar. É claro que não sou um violonista, estou longe disso. Toco apenas para compor minhas músicas e para me acompanhar quando canto. Por causa disso, durante muito tempo, tive pudor — por que não dizer vergonha? — do meu violão. Felizmente, o tempo passou e caí na real de que isso era uma grande bobagem. Caetano Veloso, um dos meus grandes ídolos, falou muito bem, em um trecho do documentário "Coração Vagabundo", contra o preconceito que determinados instrumentistas têm com os compositores que se acompanham. Ele chama atenção ao fato de que a qualidade da música do Brasil tantas vezes já esteve mais relacionada ao espírito, digamos assim, do que à técnica. Aliás, meu primeiro show na Bahia foi de voz e violão, com o Caetano na plateia. No final, ele veio falar comigo para dizer que tinha curtido e apontar suas canções preferidas. Eu, que até então me apresentava muito pouco sozinho, quase me desculpei pelo meu violão, dizendo que o nervosismo, para piorar, tinha me feito errar alguns acordes. Ele respondeu algo como "tudo bem, eu também erro acordes à beça". O fato de Caetano ter sido tão amoroso me encorajou a seguir em frente com shows nesse formato. Outros grandes amigos também me estimularam. Nunca vou esquecer que, certa vez, depois de um show que fiz com minha banda completa no Rio de Janeiro, Antonio Cicero me disse que o melhor momento para ele havia sido, justamente, aquele em que os músicos saíam e eu tocava sozinho uma canção do Vinicius de Moraes. Ana Carolina e Zé Manoel, que são grandes instrumentistas, também já me disseram que gostam de me ouvir tocar e cantar. Portanto, foi a vontade de assumir meu violão, estimulada pelos comentários de gente que eu admiro, o que me encorajou a gravar esse EP e a deixar para a posteridade um registro tão enxuto. A ideia de gravar tudo ao vivo, sem retoques, também tem a ver com sua pergunta anterior e com o conceito original do projeto, isto é, com o desejo de escapar das sombras, inclusive das minhas próprias sombras.

 

(Foto: Murilo Alvesso)

 


E como foi a experiência de recriar essas canções a partir deste formato?

 

Eu aprendi a tocar violão tentando "tirar" as canções dos outros, quando nem pensava em ser compositor. Até hoje, se pego o violão em casa, dificilmente é para tocar algo meu. Quando estou sozinho, só toco minhas próprias músicas se estiver compondo ou se precisar ensaiar para algum show. Gosto do exercício de aprender a tocar uma canção de alguém, porque é quase como o exercício de compor minhas próprias canções. Tudo o que sou, tudo o que vivi e senti, meus conhecimentos e minhas limitações entram em jogo. Se, nesse processo, não me sentir à vontade como me sinto com minhas próprias músicas, prefiro deixar pra lá.

 

Como se deu a escolha das canções?

 

O critério desse repertório foi exatamente a coragem. O projeto tem o mesmo título de um poema do Hölderlin sobre a arte do poeta, mas não se trata de uma citação. Adaptei esse título para a minha própria vida. Lembrei, por exemplo, que a morte do Renato Russo — em 1996, quando eu tinha apenas oito anos — foi meu primeiro susto diante do preconceito. Eu tava na casa de uma amiga da minha mãe com algumas pessoas e todos víamos TV. Durante a reportagem, tinha gente que parecia dar mais importância à causa da morte por AIDS e à sexualidade dele do que à sua obra. Na época, eu não sabia o que era preconceito, mas me senti incomodado com os julgamentos. Lembro que minha curiosidade era saber mais sobre aquele homem e o que ele havia feito de tão grandioso para que tanta gente não gostasse dele ou aparecesse chorando na TV. Por causa de Renato e Cazuza, muito presentes em minha adolescência, eu cheguei à Cássia Eller. Eu já era um pouco mais velho, então ainda pude assistir ao último show da Cássia em Belém, tipo um mês antes de sua morte. Na véspera do show, meu pai me acordou trazendo um autógrafo dela. Eles tinham viajado no mesmo avião e meu pai a abordou dizendo: "— meu filho é seu fã!" O beijo da Cássia Eller para mim, naquela folha de revista, foi um dos presentes mais bonitos que já ganhei.

 

Meus pais, aliás, sempre me respeitaram e inspiraram, pessoal e artisticamente. Maria Bethânia, por exemplo, que assim como a Cássia Eller sempre provocou e quebrou muitos padrões, é a cantora favorita da minha mãe. Ouvi muito seus discos durante minha infância. Lembro, por exemplo, do dia em que entrei com minha mãe em uma loja de discos e de lá saímos com "Âmbar", o álbum que Bethânia lançou em 1996 com uma das canções que agora regravei, "O circo". Essa letra do Antonio Cicero é lindíssima e diz muito sobre ele próprio, meu querido amigo. Para citar dois exemplos, nas entrelinhas há citações a Kant, que Cicero considera o maior pensador de todos os tempos, para quem a beleza é uma "finalidade sem fim", e a William Butler Yeats, um de seus poetas favoritos, autor do poema "The Circus Animals' Desertion", que inspirou o verso "não lhe mostro todos os bichos que tenho de uma vez". Por fim, "Como la cigarra" é a obra-prima da argentina María Elena Walsh, uma canção sobre a potência do artista. A verdade é que os grandes artistas não morrem. A história nos prova que, apesar da censura e de todas as tentativas de matá-los real e abstratamente, suas vozes podem até se calar por um momento, mas nunca para sempre. Uma mulher como Mercedes Sosa está viva, em sua própria voz ou na voz de quem aprende suas lições de coragem. Sigamos cantando.

 

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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