O Artista em Processo: Fantastic Negrito

(Foto: Divulgação)

 

Quem é Fantastic Negrito? "É um personagem que eu criei. Ele está aqui para doar amor à música, e não quer nada dela em troca". É assim que o músico norte-americano - ou Xavier Amin Dphrepaulezz, 51 anos, filho de um imigrante somali muçulmano e bicampeão na categoria Melhor Álbum de Blues Contemporâneo do Grammy Awards (2017 e 2019) - define seu alter ego para mim, num final de tarde quente e de céu cinza em São Paulo.

 

Como quase tudo que diz respeito a ele, a resposta só faz sentido se você souber de sua trajetória até aqui. Eis uma tentativa de sinopse: Xavier nasceu em Oakland, California, numa família de 14 irmãos. Na adolescência, entre pequenos furtos e tráfico de drogas, passou anos assistindo às aulas de música na universidade local sem nunca estar matriculado. Lançou um disco em 1996, quase morreu num acidente de carro que o deixou três semanas em coma e, em 2007, vendeu todos os seus instrumentos, largou a música e decidiu cultivar maconha.

 

Foi a paternidade, ele me garante, que o reconectou com os sons. Ao ver seu filho recém-nascido chorar sem intervalos, pegou um velho violão ("que ninguém quis comprar de tão arrebentado") e cantou-lhe uma peça dos Beatles. "Ali minha vida mudou - de novo". Desde então ele se chama Fantastic Negrito, lançou 3 discos e tornou-se o mais celebrado nome do blues atual. Ele faz sua primeira apresentação em terras brasileiras hoje, terça (19), no Cine Joia. Ainda há ingressos disponíveis.

 

Filho de imigrante, negro, com uma vida criminosa pregressa e abençoado pelo renascimento: é impossível que as criações que viessem de suas mãos não tivessem força política. Embora diga que não faz música panfletária, Fantastic Negrito se coloca frontalmente contra os movimentos de direita que flertam com a xenofobia e o fascismo, casos tanto do governo atual de seu país de origem quanto do país que ele está visitando pela primeira vez. Comento que Trump e Bolsonaro vão se encontrar hoje em Washington. Ele ri. "Só o que sairá dessa conversa serão besteiras, besteiras e besteiras".

 

De muito bom humor para quem havia acabado de desembarcar no Brasil depois de se apresentar, na noite anterior, para uma plateia ensandecida no México, há horas sem comer e dando uma entrevista atrás da outra, Xavier conversou com Eduardo Lemos sobre a força da música em sua vida, as razões pelas quais não se considera um bom músico e a certeza do papel do artista no mundo atual. "Todos nós, artistas, temos voz. Por isso temos poder. E por isso temos de estar na linha de frente. E é agora".

 


(Foto: Divulgação)

 

A sua história na música é diretamente associada à sua história pessoal. De que maneira “Please Don’t Be Dead”, seu mais novo disco, traduz os pensamentos e sentimentos que você tem atualmente?

 

Quando eu estava escrevendo Please Don't Be Dead estava pensando no oposto de The Last Days of Oakland, porque foi um álbum aclamado pela crítica, ganhou um Grammy e eu queria me afastar disso, queria fazer algo mais crú, algo mais agressivo e quis falar sobre as coisas que não estava gostando, como as coisas que eu estava ouvindo nos Estados Unidos, o país em que cresci. Sempre ouvi que éramos a terra dos livres, da justiça, da liberdade, da igualdade, dos imigrantes e da diversidade, e de repente passei a ouvir coisas que pareciam xenofóbicas e racistas. Ouvi coisas que pareciam "códigos" e, de repente, o padrão de respeito que as pessoas demonstravam umas às outras caiu muito e isso vinha muito das lideranças do meu país. E, como artista, pensei "onde estou nisso tudo?", e respondi "estou na linha da frente". Porque sou artista e, quando você é artista, você tem muito poder. Você consegue juntar dentro do mesmo lugar judeus, muçulmanos, gregos, turcos, bárbaros, sapos, dinossauros, e você toca o riff certo de blues em mi maior para eles e, pronto,  você os conquistou. Então eu senti essa responsabilidade gravando esse disco. Pensei que Please Don't Be Dead vai ser sobre "ei, vocês se lembram quando nós dizíamos essas coisas legais, como justiça, igualdade, liberdade de expressão, liberdade da imprensa, todas essas coisas maravilhosas que criam a democracia, que fizeram dos Estados Unidos o país que é?". Eu sou filho de imigrantes, ele é filho de imigrantes, todos somos filhos de imigrantes. E imigrantes são o combustível do motor dos Estados Unidos, no sentido ideológico, espiritual e econômico, então senti uma conexão muito forte com o ato de reunir tudo em um trabalho potente, agressivo, com um pouco de "maldade", mas que também fosse unificante e que fosse levado a sério.

 

E olhando para o lado musical, de construção da obra, o que é esse disco?

 

Ele tem uma energia completamente diferente de The Last Days of Oakland, uma energia que amo das ruas, bem orgânica, com sound bites e loops, bem legal. E bem observador também. Eu me senti como se fosse um cara observando, um jornalista. Mas no Please Don't Be Dead senti como um artista diferente, um artista com planos, com atitude e propósito. Então, muito do disco é sobre a guitarra base, porque quando eu estava escrevendo alguns riffs da guitarra base, imaginava os traficantes de drogas da época em que eu era jovem, todos esses caras que não estão mais entre nós. Era nisso que eu pensava: "como eles andavam nas ruas, como eles se sentiam? Como eu posso transformar aquela merda que eles vendiam em algo bom?". Sabe? Como podemos pegar todas essas partes que não estão funcionando e transformar em alguma coisa produtiva? Esse é meio que o tema do álbum. Migui Maloles [presente na entrevista], meu engenheiro de Pro Tools ganhador do Grammy e que também trabalha com E-40, (ele sabe fazer de tudo! E também faz ótimas panquecas), ele pode testemunhar que meu trabalho é orgânico. Eu gosto de ir levando naturalmente, mas eu sempre tenho uma música, porque música é o mais importante. Sou compositor e artista antes de ser músico, eu fico entediado só tocando. Isso é um veículo de expressão. Eu poderia ser um pintor, um confeiteiro, qualquer coisa, mas olho para música como minha mídia de expressão, mas sempre de uma forma orgânica, sempre querendo deixá-la crua e colocar menos, menos e menos. Sou um cara da primeira geração do hip hop, é realmente quem eu sou por baixo das camadas, então muito da minha música é sobre bateria, loops, beats, repetições, linhas de baixo... é a mesma coisa pra mim que piano vertical, um B3 (Hammond) e vocais gritados. Junte tudo e você tem uma receita fantástica.

 

 

O título disco é quase como uma oração, “por favor não morram”. Mas nos últimos dez dias, assistimos a “pessoas comuns” atacando escolas, mesquistas e praças no Brasil, Nova Zelândia e Holanda. Pra onde estamos caminhando como sociedade?

 

Nunca pensei nisso, eu gostei (sobre o título do disco soar como uma prece). Acho que estamos caminhando para onde queremos. Nós vamos para onde imaginamos, porque a sociedade é essa "coisa", mas existem todas as peças como eu e você, as pessoas, então temos todo o poder, só depende de como queremos tratar uns aos outros. Eu acho que se resume a isso, não me importo com os rótulos, se a pessoa é liberal, conservadora, cristã, é isso ou aquilo, se você gosta de usar chapéus de festa, o mais importante é como você trata as pessoas. Isso é o que importa e eu acho que sei para onde estou indo como parte da sociedade e esse é o poder. Não dá para se importar com essas outras partes, o maior poder que você tem é sobre si mesmo. Então, acho que vamos caminhar para um lado bom, acho que vamos aprender com nossos erros. E vamos usar nossa música, filmes, histórias, poesias, comidas, tudo para tornar esse mundo um lugar lindo. E o bem vai destruir o mal. Sempre. E você sabe, a cada 50 anos as pessoas se cansam da democracia e pensam "cara, como será que o fascismo seria aqui?". É sempre a mesma coisa, a mesma mensagem. Por isso escrevi a música "Bad Guy Necessity". Todos precisam de um cara mal, sabe? Para que eles possam se sentir ok, então precisam de um cara mal, para que possam ter um salvador. É o truque mais velho. "Olhe para aqueles caras, eles vão te pegar, eles são terríveis. Deixa que eu te protejo. Me dê seus direitos. Me dê sua vida". Por isso que eu digo, essa é a hora de se mexer. Artistas, pessoas com vozes, estejam na linha de frente. As pessoas precisam de nós. Os políticos, cara, estão em outro planeta, em algum lugar. Mas acho que as pessoas conseguem se relacionar com nossas músicas, nossas mensagens, nossos poemas, nossas histórias... é poderoso.

 

O presidente do meu país está encontrando com o presidente do seu país hoje.

 

Perfeito, perfeito. É perfeito. Vai ter muitos gestos malucos, declarações... ambos sempre dizem as coisas mais ridículas. Mas as pessoas estão com medo. O medo da população é a maior commodity de todas, esqueça a Coca-Cola. McDonald's serve medo para bilhões de pessoas (risos). Se você conseguir deixar as pessoas com medo, você as pegou.

 

Você disse em algumas entrevistas que sua música não é literalmente política. Mas num mundo em que o fascismo cresce, o ato de fazer arte, por si só, já seria um ato político, não?

 

Eu não gosto da palavra "político". Eu só sou um cara que mora aqui, como qualquer outro. Mas por acaso, tenho uma plataforma e habilidade com música, então... é uma época interessante para se estar vivo, tem tantas coisas acontecendo. Armas automáticas nas escolas, a proliferação de drogas farmacêuticas matou meu amigo Chris Cornell, pessoas sendo assassinadas nas ruas, pessoas pobres, negras e latinas sendo desproporcionalmente perseguidas pela polícia, então tem muita coisa para compor e cantar, e eu não sei se isso é político. Político para mim é sugerir uma ideologia pesada e impregnada e você não está se movendo, e eu não acho que seja isso.

 

Ideologia contra alguma coisa, certo?

 

Contra qualquer coisa, a não ser que seja preconceito, homofobia, racismo. Sou contra tudo isso, porque é tudo ódio. Não é construtivo para a sociedade. A melhor coisa que aconteceu para o Fantastic Negrito foi que eu desisti da música por cinco anos. Foi a melhor coisa que aconteceu. Virei fazendeiro de marijuana e consegui me afastar disso tudo. E quando voltei, parei de pensar no que a música poderia fazer para mim. Antes eu pensava "o que a música pode fazer por mim? Vou comprar um carro, uma casa". E o Fantastic Negrito pensa "eu tenho uma guitarra, e vou contribuir. Porque estou mais velho e mais sábio. Vou sair para as ruas e ficar naquela estação". E sinto muito poder fazendo isso. Isso foi a coisa mais linda que já aconteceu.

 

É muito político no bom sentido.

 

Sim! Todas essas pessoas dão outro sentido para essa palavra, mas para mim é "contribua, viva aqui". Se alguém está mal no Rio de Janeiro ou em São Paulo, também está mal para mim. Se alguma criança está sofrendo na Índia, ou Japão, ou Filipinas, então está ruim para todos nós.

 

Como nasce uma música do Fantastic Negrito?

 

Elas nascem a partir de ideias. Depois vou para o piano ou a guitarra para me certificar que é uma música. E depois letras, que é a parte mais difícil, e só depois vou para o estúdio. Mas sempre me certifico que tenho canções. As vezes tenho só rascunhos e ideias, mas para eu produzir, tem que ser uma música.

 

 

Você só entra no estúdio com uma música inteiramente pronta?

 

Isso, mas eu gravo numa galeria de arte e não em um estúdio (risos). Sim, mas tem que ser inspirador. Eu acho que tenho uma dessas cabeças que fica ligada o tempo todo. A maior parte das ideias é ruim, só uns 10% é bom (risos).

 

Você sempre repete que não se considera um bom instrumentista...

 

Eu até toco, mas arrumo instrumentistas melhores para tocar. Não sou um grande instrumentista. Acho que sou um ótimo compositor, produtor e muito bom em criar conceitos, mas eu não acho que sou... eu raramente guardo as minhas gravações (risos). Eu sempre tenho o mesmo pessoal comigo nas gravações. Eu guardo as gravações minhas tocando que são tão ruins que parecem boas, e eles acabam deixando. Nos discos, eu toco um pouco de piano, um pouco de baixo, de guitarra, mas eu tenho ótimos instrumentistas comigo. Cornelius Mims no baixo, Masa Kohama, do Japão, na guitarra, e LJ Holoman no piano e órgão, então tenho três caras bons comigo.

 

É possível pensar a função de cada um separadamente? Como você trabalha as diferentes pessoas aí dentro?

 

Acho que você tem que conversar bastante com si mesmo. Tem que fazer um "roleplaying". Eu lembro que despedi o "produtor" do The Last Days of Oakland. Eu despedi eu mesmo! (risos). Você tem fazer algo diferente quando você se despede. Mas é necessário. E acho que tenho algo bem específico na minha cabeça. Não sei se preciso sempre ser "o produtor" e tal, mas acho que o que eu tenho é bem específico. E não é ortodoxo, é diferente, fico misturando todas essas coisas... e eu gosto disso.

 

E faz sentido para todos esses "personagens" que você tem na sua cabeça.

 

Sim! E dá para ouvir até oralmente, as vezes estou cantando e estou soando como outra pessoa, eu gosto disso. Parece até um problema de saúde mental, mas produtivo (risos).

 

É preciso ser meio obsessivo pela sua própria arte para que a coisa aconteça de verdade?

 

Acho que você tem que realmente acreditar no que está fazendo. "Obsessão" pode ser uma palavra errada. Você tem que ser cabeça aberta e deixar pessoas entrarem. Então você tem que ser obcecado com isso. Você tem que ser obcecado em ter uma cabeça aberta e deixar pessoas entrarem na festa, é nisso que eu acredito.

 

Você consegue sondar seu inconsciente e me dizer porque você faz música?

 

Hoje, eu faço música porque é minha responsabilidade e quero contribuir para o mundo em que vivo com algo que seja útil, produtivo e que inspire as pessoas. É por isso que eu faço música agora.

 

***

 

agradecimento especial a Gustavo Kamada, cuja ajuda foi determinante para rolar esta entrevista.

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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