O Artista em Processo: Rodrigo Campos

(Foto: José de Holanda)

 

[Espaço] Rodrigo Campos poderia ser um escritor, um antropólogo, um jornalista. Suas letras trabalham a observação dos ambientes, a criação de personagens, a descrição de cenas e movimentos de maneira tão realista que… bom, Rodrigo poderia ser também um cineasta. Ou Rodrigo poderia ser um sujeito de emprego comum que, pela janela do ônibus a caminho do trabalho, presta atenção no mundo ao redor e tem ideias maravilhosas, mas não sabe o que fazer com elas. Ainda bem, Rodrigo é um músico. "E a música é minha válvula de escape para comunicar", diz.

 

[Espaço] De São Mateus para o centro de São Paulo, de lá para a Bahia, para o Japão, passando por universos (simbólicos, mas universos) de Elza Soares, Criolo, Sambas do Absurdo, Passo Torto... e de volta para si mesmo em "9 Sambas", seu quarto disco, lançado em 2018 depois de "São Mateus Não É um Lugar Assim Tão Longe" (2009), "Bahia Fantástica" (2012) e "Conversas com Toshiro" (2015).

 

[Tempo] É 2019 e o músico paulista vê seu primeiro disco fazer aniversário de uma década. O trem da vida segue correndo, mas já é possível espiar o caminho traçado até aqui e apontar alguns marcos: o 'choque cultural' do sambista de São Mateus com os músicos do centro de São Paulo; as experimentações musicais que o fizeram alargar o significado do que se convenciona chamar de samba; a volta ao mundo - às vezes literal, às vezes apenas dentro de sua própria atuação artística - que o faz, agora, querer voltar para casa. E isso significa o samba. Ou ao menos o tempo dos 9 Sambas que ele nos entrega no álbum.

 

[Tempo] A hora de lançar um trabalho solo, a hora de dar gás naquele projeto paralelo, a hora de estar como músico de outro artista. O momento de se postar algo na internet, o momento de calar. Em abril, Rodrigo completa 42 anos de vida e começa a pensar no envelhecimento como tema para um disco - e a passagem do tempo deixa de ser passagem para se tornar um espaço que visitamos todos os dias.

 

Nesta conversa com Eduardo Lemos, Rodrigo Campos reflete sobre seu processo de criação, a sua relação com o samba e a certeza de que lugar mais confortável para ele neste mundo não é um lugar. "A música me salvou de ser triste".


(Foto: José de Holanda)

 

Ano passado você lançou seu quarto disco, “9 Sambas”. Lembro que, quando soube que você estava pra vir com um novo disco, fiquei curioso em saber para qual lugar você ia olhar. Já havia São Mateus, a Bahia, o Japão… qual é o lugar dos 9 sambas?

 

O lugar dos 9 Sambas é o lugar da volta, do retorno. Da volta ao conhecido, ao lugar de base, estruturante, espécie de tempo de norteamento. Acho a função desse disco foi importante pra mim nesse sentido de reestruturação. Voltar às bases para poder de novo acessar um pensamento e uma direção. O samba é um pouco isso na minha vida: um norte, uma direção, uma base. Algo que está sempre presente, mesmo que discretamente, como matéria prima. E nisso eu re-estabeleço um contato mais íntimo comigo mesmo, porque traz a infância e a periferia. O samba me representa várias coisas, para além do gênero. O samba como cultura, como lugar de aprendizado social. Como o hip hop, não é só a música, tem muita coisa em volta do samba: é uma maneira de se relacionar, de dançar, uma forma de se dirigir às pessoas mais velhas ou mais novas. Um respeito que eu aprendi muito cedo. Depois de ter saído de São Mateus e do samba, eu tava um pouco distante e foi bom voltar e acessá-lo de novo.

 

Falando de São Mateus, esse ano comemora-se 10 anos do teu primeiro disco ("São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe", de 2009). Você pensa em fazer algo com essa data?

 

Tem uma previsão do lançamento do São Mateus em vinil. Ainda é uma conversa e pode ser que saia. Se rolar, com certeza vou tentar fazer um show para comemorar isso, tentar chamar a turma daquela época - Beto Villares, Antonio Pinto, Benjamin Taubkin, Missionário José, Gui Amabis, e os músicos que gravaram comigo.

 

E o Rodrigo de 2019 olhando para o Rodrigo de 2009… o que você enxerga? Musicalmente e pessoalmente?

 

Quando eu fiz o "São Mateus...", eu era um sambista que tava encontrando esses músicos do centro e da zona oeste de São Paulo, que já tinham uma visão cosmopolita da música que eu ainda não tinha. Eu tava muito ligado ao samba. Encontrar essas pessoas - Beto Villares e companhia limitada - foi uma grande riqueza e um grande choque cultural pra mim, como músico e como pessoa. Eu vinha de uma outra realidade e estava lidando com pessoas que tinham uma experiência de vida muito plural: eram pessoas que tinha uma educação muito boa e que viajavam. Eu vinha da periferia e tinha estudado em escola pública. Esse encontro gerou uma mudança em mim não só musical. Eu me confrontei com uma outra maneira de existir. Aos poucos, eu fui me aprofundando nessas relações e acho que isso me transformou. E agora, quando eu volto pro samba no "9 Sambas", eu faço um pouco o caminho contrário. Agora não é o mais o sambista. É o cara que tem toda uma bagagem musical e cultural diferente. E aí voltar pro samba é um confronto também. Eu estava fazendo muita música experimental com o Passo Torto, a Elza Soares, e mesmo nos meus últimos discos, embora não fossem tão experimentais no som, mas sempre foram nos assuntos. O "Conversas com Toshiro", o Sambas dos Absurdo (projeto em disco e show de Rodrigo com Juçara Marçal e Gui Amabis). São experimentais nas letras, nos temas que eu resolvi trabalhar em disco.

Fixo-me um pouco no tema dos seus discos porque vejo com admiração a maneira como sua obra vai se construindo. A percepção que tenho é de que você rema até o disco ficar pronto; depois o disco te ajuda a remar. Faz algum sentido? Como é seu trato com isso?

 

Fazer um disco é ser fisgado ou tragado por algum tema. Eu fico meio que esperando esse momento de ser absorvido por alguma coisa, e quando acontece, entro num estado obsessivo de procura e de aprofundamento. Acho importante sentir essa vontade de fazer um disco mais do que qualquer outra coisa. Às vezes eu fico compondo aleatoriamente e isso não necessariamente me dá vontade de fazer um disco, mas quando eu descubro alguma coisa nas músicas que me remetem a algum caminho específico, eu fico com vontade de investigar esse caminho. Achei bonita essa sua ideia de remar até o disco ficar pronto, e depois ele me ajudar a remar. Tem sido assim mesmo. Fico pensando que essa metáfora é boa. Remar tem um prazer mas tem um esforço. É um exercício, um movimento, que gera o disco, mas depois o disco vai ter a sua remada própria. E como você disse, a passagem do tempo vai mostrando qual é essa remada do disco. Eu confio nisso, e confio no formato do álbum enquanto tenho essa necessidade do álbum. Não é uma confiança filosófica; é mais atávica, primitiva mesmo. Quando eu deixar de ter essa confiança, talvez eu deixe de fazer os discos.

 

 

Sua presença online é bastante discreta, sempre foi, e a pressão que o artista - novato ou consagrado - sente de ter que publicizar sua vida para manter o público interessado, pelo visto, não te pega. Como é pra você essa coisa da vida virtual?

 

Acho que tô aprendendo a viver essa vida virtual. É ainda uma coisa nova… eu entrei no Facebook faz 10 anos, quando lancei o "São Mateus...". Ou seja, eu entrei na vida virtual para alimentar o meu trabalho como músico. Em vários momentos eu me sinto mal de pertencer a esse mundo digital. Cada post que você faz gera resultados no mundo. E cada post te faz entrar mais nas redes sociais, querer saber o que as pessoas acharam do que você escreveu, ficar excitado com as respostas. Sinto que é uma busca por equilíbrio - a mesma busca que temos na nossa 'vida real' -, do que te faz bem, do que te faz mal expor. Acho que ainda não encontrei esse equilíbrio: às vezes me incomodo por postar, às vezes me incomodo por não postar. Se eu tivesse outra profissão, acho que eu não estaria nas redes sociais. Teria uma relação mais en passant com isso. Mas como músico, eu não consigo me desligar disso. Afinal, a minha geração existe como artista por causa das redes sociais, né? É impossível sair.

 

Além da tua carreira solo, existem os projetos coletivos, como o Passo Torto e o Sambas do Absurdo. E junto, estão as suas colaborações em carreiras como é com a Elza Soares, por exemplo, ou as parcerias, como foi com Criolo. Como você gerencia todas essas atividades?

 

Acho que os projetos coletivos e as colaborações fazem parte do todo que formam o trabalho de um artista independente. É difícil você fazer só seu próprio trabalho e viver disso. Essa coisa mais horizontal faz com que a gente possa trabalhar mais vezes durante o mês. Se o disco solo está parando, por exemplo, é hora de começar o projeto paralelo que foi gravado antes… e quando ele estiver esfriando, você começa a preparar outro disco solo de novo. E aí pinta o convite da Elza pra fazer parte da banda, a colaboração com Criolo… Obviamente isso é uma questão prática, mas acaba reverberando esteticamente no trabalho individual. Essas colaborações são aprendizados, e eu me sinto muito bem cuidando do meu trabalho solo e das minhas parcerias. Quero continuar fazendo assim.

 

No fundo, estamos a falar do tempo: o tempo de criar, de lançar um trabalho, de falar e de calar. O que é o tempo pra você, que pensamentos você tem sobre ele?

 

Acho que depois dos 40 veio uma necessidade de avaliar os discos e as colaborações. Antes eu ia fazendo as coisas mais no impulso. Agora eu sinto que passei a refletir mais sobre o que estou fazendo, e sobre o que eu já fiz - olho pros discos e consigo enxergar um conjunto. Uma pessoa de 40 anos já tem um passado e olha para o futuro com uma sensação maior da finitude. Isso me faz filtrar um pouco mais os lugares que eu vou estar, os trabalhos que eu vou participar. É um tempo de reflexão e de começar a pensar sobre a velhice. Ter 40 anos não é estar velho, mas começo a pensar quanto tempo ainda tenho, que estou envelhecendo e que estou nesse processo todo dia. Isso acaba entrando no meu trabalho também. Quero fazer um disco sobre o envelhecimento. Eu ainda não sou um velho, mas quero começar a pensar sobre a velhice. E me preparar para morrer, no melhor sentido.

 

Embora uma década de carreira em disco seja pouco, você é um compositor de assinaturas marcantes. Nas letras, por exemplo, há um olhar muito atento aos detalhes, uma forma de narrar espantosamente direta.  

 

A observação é inerente ao ser humano. Ela está no nosso dia a dia, assim como a filosofia. Acho que a diferença, no meu caso, é que tenho onde aplicar isso, ter uma válvula de escape para comunicar. Acho que todo mundo já teve uma ideia andando na rua, mas não necessariamente realizou ou transformou em algo. Minha busca é desenvolver meu senso de observação como um hábito, uma ação natural de apurar o olhar cada vez mais. Não só para o artístico, mas para a vida. Quando você apura o olhar sobre as coisas, você aprende a ver beleza na simplicidade. A coisa mais simples pode ser a mais bonita e te dar o maior prazer do mundo.

 

É preciso ser meio obsessivo pela sua própria arte pra que a coisa aconteça de verdade?

 

Acho que no meu caso é preciso ser obsessivo, sim. Inclusive, falei disso esses dias na terapia. Tem algum tipo de obsessão na minha maneira de pensar, e isso é bom ou ruim. Às vezes disso sai um disco, às vezes gera umas noites de insônia… Mas pro tipo de música que eu faço, a obsessão é um elemento importante.

 

Você consegue sondar seu inconsciente e me dizer por que você faz música?

 

Acho que eu faço música pra ter um mínimo de felicidade e conforto emocional. Um pouco pra não enlouquecer. A música me salvou de ter uma vida mais triste, e me levou para um lugar arejado e iluminado.

 

***

Leia outras entrevistas da série O Artista em Processo: Fantastic Negrito, Erlend Oye, Letrux, Mallu Magalhães, Tim Bernardes

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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