Entre canções e poesias

Juliana Perdigão fala sobre seu novo disco, Folhuda

(Foto: José de Holanda)

 

Foi o convite de um velho amigo, o músico Thiago França, que deu rumo às canções que a mineira Juliana Perdigão estava experimentando compor, “algo um pouco fora do comum”, como ela mesma diz. Isso porque em seu primeiro disco, Álbum Desconhecido (2012), ela reuniu composições de colegas de geração como Tulipa Ruiz, LG Lopes, entre outros, e repetiu a fórmula em Oh (2016), mas colocou também algumas músicas próprias, abrindo caminho para um disco mais autoral no futuro. Assim chegamos a Folhuda, terceiro disco lançado este ano pela cantora e que traz todas as 12 faixas assinadas por ela.

 

Para o disco, ela escolheu poesias e versos de autores como Arnaldo Antunes, Oswald de Andrade, Paulo Leminski, Angélica Freitas, Murilo Mendes, Bruna Beber, Renato Negrão e Fabrício Corsaletti para compor em parceria. O resultado é um disco diverso tanto nos temas e gênero musicais.

 

"Fui escolhendo o que tinha na minha estante. As primeiras composições que fiz foram com os poemas do Oswald e fiz bem descompromissada. Depois que comecei a pensar já no disco fui compondo de um jeito gratificante, não pensando em responsabilidade", diz ela sobre trabalhar com trechos da obra de grandes autores nacionais. “Como eu moro perto do Cemitério da Consolação (em São Paulo) foi curioso compor com o Oswald de vizinho”, brinca ela ao falar do local onde o escritor está enterrado.

 

É de Oswald, aliás, a palavra que dá nome ao disco, tirada do verso "sentados na América folhuda", do poema AnhangabaúA cantora relutou em dar esse nome ao disco, mas foi convencida pela amiga Ava Rocha (é uma pena, leitor, não conseguir reproduzir a imitação de Juliana da amiga). "Estava pensando em algo como América Folhuda. Mas Ava botou uma pilha, que o nome do disco era só Folhuda. E hoje acho que ele leva para o humor, para o pornográfico", conta ela.

 

Foram quatro dias de gravação do disco. “Como tínhamos pouco tempo, peguei essas canções que já estava trabalhando e mostrei para o Thiago. Ele topou, foi muito aberto no trabalho, no convite. Como já tínhamos um formato e pouco tempo, a ideia era fazer um disco experimento. No final ainda fiz outra música, Felino, que achei que tinha que entrar e, mesmo na reta final, Thiago topou, tocou e gravamos”, diz Juliana.

 

No estúdio, quem acompanhou a dupla na gravação foi a banda Os Kurva (Moita Mattos, do Porcas Borboletas e Frito Sampler; Chicão, do Quartabê e Gal Costa, Pedro Gongom, da Trupe Chá de Boldo; Romulo Fróes e João Antunes, do Kinjo e SDDS) além da própria Juliana, que tocou em quase todas as faixas. A banda gravou também o disco Oh, o que deu um clima de tudo em casa.

 

O trabalho mais autoral também deu mais tranquilidade para a cantora. “Tenho feito shows só guitarra e voz e tenho sentido mais autonomia. Com o trabalho autoral eu tenho me cobrado menos como performer. As músicas estão aí e eu as coloquei no mundo. Em outros trabalhos eu sentia necessidade de trabalhar mais os arranjos. Agora, as músicas falam por si só”.

 

A POESIA


A poesia ronda Juliana Perdigão há muito tempo. O escritor Murilo Mendes (1901-1975) é tio bisavô de Juliana, mas ela não o conheceu. Lembra-se, sim, de histórias de família e de ver os livros do autor pelas estantes de casa.

 

Ela conta que a primeira vez que poesia e música mexeram com ela foi em uma apresentação de Caetano Veloso, quando ela tinha 13 anos, num show do disco Circuladô. Em seu segundo disco, a poesia também estava lá em versos de Haroldo de Campos musicados por ela. Mas foi a relação com a poeta Angélica Freitas, sua namorada, que a aproximou ainda mais deste universo

 

"Sempre senti que esses textos tinham um quê de canção", diz ela sobre os textos que estão em Folhuda. "No caso dos poetas que não estão mais aqui acho que fiz uma reconexão, já com outros como o Arnaldo Antunes, por exemplo, eu consigo ter um reconhecimento, pois eles estão aqui para me dizer o que acharam e cantar comigo", conta ela.

 

Para levá-los para uma canção, ela diz que busco entender o caminho que cada poema oferecia. “Busquei entender o que o poema trazia para mim, como Açúcar, que é mais pesado, mas na música ficou mais suave, tomou outra dimensão. Em outros eu experimentei falar o poema em voz alta, buscando ritmo, como Só o Sol, que é um poema grave, de sílabas curtas, onde a gente destaca a vogal 'o'".

 

 

PARCERIAS

Em Só o Sol (e na faixa Torresmo), Arnaldo Antunes divide os vocais com Juliana. Ele é só uma das participações especiais do disco. Um trabalho que a cantora define como “essencialmente de parceria".

 

Participam ainda Lucas Santtana em Noturno, o violeiro, música de Lucas e Juliana, sobre poema de Oswald de Andrade. Mulher Limpa, a primeira faixa do álbum, traz coros de Ava Rocha, Angélica Freitas (poeta parceira nesta canção), Cecília Lucchesi, Iara Rennó e Tulipa Ruiz. "Que belo time de vocais, hein?”, brinca a mineira sobre as cantoras.

 

"Todas essas colaborações me deram mais força para fazer esse trabalho. É interessante como um influencia o trabalho do outro e isso é muito importante. Muitas vezes nesse meio a gente duvida, porque somos ensinadas a duvidar, da nossa capacidade. Então fazer disco com todas essas pessoas foi gratificante", diz ela.

 

Nos dia 4 e 5 de abril, a cantora faz show de lançamento do disco no Sesc Palldium, em Belo Horizonte, às 20h. Os preços vão de R$ 12 a R$ 30.

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem, e do blog Quadrinhas, sobre quadrinhos feitos por e sobre mulheres.

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