O Artista em Processo: Tiê

 [foto: Lucas Seixas]

 

Há uma semana, Tiê lançou música nova na internet. "Longe de Mim" é o segundo single que ela apresenta em 2019. Até aqui, a cantora e compositora paulistana vinha apresentando apenas álbuns completos - são 4 no total: "Sweet Jardim" (2009), "A Coruja e o Coração" (2011), "Esmeraldas" (2014) e "Gaya" (2017).

 

Embora a era do streaming indique que o público se conecte mais a uma canção do que a discos completos, é improvável que a escolha de Tiê em lançar faixas isoladas seja puramente mercadológica. Tiê simplesmente não sabe fazer algo que não passe, primeiro, por uma aprovação interna. E uma rápida análise de sua carreira - que em 2019 chega à bonita marca de 10 anos - comprova isso.

 

Antes de espetar a bolha da música independente ao convidar Luan Santana para participar do seu último disco (na canção "Duvido"), Tiê já tratava o ofício de fazer música de uma maneira muito própria. Foi assim em 2007, quando começou a compor para aliviar o sofrimento de um tumor no pulmão. Ou quando optou pelo minimalismo de seu violão e a crueza das letras biográficas em sua estreia fonográfica, dois anos depois. E, ainda, quando admitiu, em entrevista à Folha de S. Paulo, que o hiato entre "A Coruja e o Coração" e "Esmeraldas" se deu porque ela simplesmente não tinha músicas novas pra mostrar.

 

O domínio sobre sua própria carreira pode ser uma evolução do que ela chama de "autogestão", um nome educado para um trabalho exaustivo que quase todo artista já teve que fazer: meter um disco embaixo do braço e ir pra luta sozinho, sem apoio de gravadora, selo ou agência. O artista se transforma em seu próprio produtor, assessor de imprensa, vendedor de shows… Soa como uma boa escola, não? A caminhada de Tiê comprova que sim, o perrengue é uma boa escola

 

Na letra de "Longe de Mim" (uma versão dela e de Andre Whoong para "La Bel Haki", de Adonis), Tiê canta "se eu deixar pra lá / vai escurecer dentro de mim / esse sentimento / não vou deixar pra lá". É claramente um verso de amor, mas serve para definir um traço marcante da dona daquela voz: a força de sua personalidade. Sua música é seu estado de espírito. E ao transbordar sinceridade, ela atinge o público em cheio. O primeiro comentário deste vídeo no Youtube diz:

 

Tiê você me lê?

Quando mais preciso você sempre posta uma música relacionada ao meu momento.

Obrigada por essa obra de arte.

Você é a música viva!

 

Fazer música também deixa Tiê viva.

 

Em 2019, ela completa 10 anos de carreira e, além dos singles, está preparando um disco ao vivo. No dia 17 de março de 2020, Tiê terá quarenta anos de idade - e a passagem do tempo tem mexido com ela. Nesta conversa com Eduardo Lemos, ela fala sobre seus processos criativos, a influência da política e das redes sociais em seu dia a dia e necessidade de fazer música para existir. "Pra mim, compor é como se fosse uma cura".

 

[Foto: Ingrid Brandão]

 

A primeira pergunta é: qual foi a última vez que você se deu conta de que é muito bom estar viva?

 

Me dou conta disso diariamente. Em muitos momentos do dia, eu me olho no espelho, e agradeço por estar viva. Agradeço muito, até como exercício: agradeço na hora de acordar, na hora de dormir, pelo meu travesseiro, pela minha cama, meu edredom. Agradeço pelas minhas filhas, minha casa, minha comida. Mas é claro que tem momentos de baixa, que você pensa "putz, que trabalho que dá viver". 

 

Como costuma nascer uma canção da Tiê? Quais são os gatilhos que te disparam a escrever ou criar melodias?

 

As canções nascem de jeitos muito diferentes. Às vezes eu vou pro piano e começo a desenhar uma melodia; às vezes a ideia da letra já vem junto ou às vezes eu escrevo pedaços de letras e uso nas melodias. Muitas vezes faço em parceria com o André (Whoong). Ele me manda uma ideia, um refrão, e eu desenrolo toda a história que eu quero contar. Mas eu acabo realmente indo prum lado pessoal, não tem jeito. É como se fosse uma cura - não sei se uma cura quântica, mas musical.

 

Relendo entrevistas tuas para os lançamentos dos discos, desde Sweet Jardim até o Gaya, fala-se muito em “letras autobiográficas”, dando a entender que a tua poesia vem diretamente do que você vive. Nesses 10 anos, como você vê a evolução da tua escrita? Há coisas diferentes que você gostaria de experimentar nessa área?

 

Eu experimento coisas diferentes hoje em dia. Faço muito coisa sob encomenda. Este ano, fiz a "Deixa Queimar" para a série "Carcereiros" [Globo]. O José Eduardo Belmonte me mostrou o personagem: o que ela sentiu, o que aconteceu, e eu fiz uma música pra ela, mas que acabou sendo pra mim. É uma personagem muito forte, e eu me identifiquei. Foi um caso meio 'autobiográfico ao contrário', sabe? Por isso versões ou encomendas já são novas experimentações, né? Ainda assim, eu só sei trazer o meu olhar. Mesmo quando eu me coloco no lugar de um personagem, eu tento entender o que ela estava sentindo. Então, acaba sendo pessoal.

 

Em “Esmeraldas”, você contou à Folha que a gravadora te pressionava para que entregasse um disco em determinado tempo, e você respondeu a eles: “esperem, ou me espremam pra ver se sai alguma coisa”. O tempo do mercado é inimigo do tempo da arte? Como você faz pra equilibrar o relógio do mercado com o teu, interno?

 

Nessa época do "Esmeraldas", realmente eu tava sem criatividade e tive essa dificuldade e falava isso mesmo pra gravadora. "Me espremam, se sair alguma coisa vai ser ótimo, inclusive pra mim". Hoje em dia, eu acho que eu tô funcionando muito bem sob pressão. Quando me encurralam na parede, o negócio sai. Não sei se o tempo do mercado é inimigo do tempo da arte. Acho que a confusão está no tempo que a gente disponibiliza pra cada coisa. Às vezes a gente gasta horas no Instagram e não consegue ter tempo pra fazer alguma coisa interessante ou relaxante. Eu me vejo mais próxima de ficar refém da mídia social do que do mercado.

 

 

 

Ano que vem você completa 40 anos de idade. O Fito Paez tem uma frase irônica sobre a maturidade. “A sabedoria chega quando não serve para nada, não se pode evitar”. Como a passagem do tempo está agindo sobre você?

 

Vou te confessar que eu tô numa crise com a idade. Até então nunca tinha sentido isso, mas agora ela chegou de vez. Tenho me questionado muito sobre o que eu fiz até aqui, o que estou fazendo agora, o que eu podia ter feito diferente… Minha sensação é de que estou indo pro final de um túnel, penso na morte, no fim de tudo. E eu sei que não é verdade, mas é como se eu tivesse comido a primeira parte da laranja, e agora só tem a outra parte (risos). É um pouco estranho. Ao mesmo tempo, eu tento ver isso com ironia. Esses dias eu fiz um show junto com o Vitão, que é um cantor de 19 anos. Eu tenho 10 anos de carreira, ou seja, quando eu comecei ele tinha 9. É engraçado! É… eu me sinto um pouco pressionada às vezes. Não falo nem da estética, mas da vida, da sexualidade, dos objetivos… A maturidade é boa, mas é difícil.

 

Estamos num momento político difícil, em que a cultura e a educação tornaram-se alvos do atual governo. Como é a sua relação com a política? De que maneira esse clima te afeta como criadora?

 

Me afeta muito. A política afeta todos nós hoje em dia porque vivemos num país que passa por um momento bizarro. Esse presidente não me representa. É tudo de ruim junto, numa panela só. A gente fica apavorado e com medo do futuro. Ao mesmo tempo, sempre há um ar de esperança. Eu coloquei minha filha numa escola pública porque eu tenho esperança na minha cidade e no meu país. No dia a dia, eu faço meus protestos, converso com as pessoas, quero mudar as coisas. Eu não faço música muito política, mas eu coloco as minhas questões, que eu acho que estão ligadas a isso.  

 

Além de cantora e compositora, você também é criadora do Rosa Flamingo, selo e produtora cultural. Como tem sido a experiência de tocar este negócio? E, de 2013, quando você o fundou, até aqui, o que mudou no cenário cultural brasileiro, para melhor ou pior?

 

Eu vim da autogestão. Fiz isso por necessidade e não por opção. Pras pessoas que me perguntam, eu sempre falo: 'se você não tem parceria, faça sozinha'. A autogestão é importante se você não tem outra opção, porque não dá pra ficar parado. Mas é um modelo muito duro de negócio. Exige que você faça todas as funções ao mesmo tempo, e ninguém sabe fazer tudo. A gente não é super herói. Ao mesmo tempo, tem um lado que eu gosto disso tudo, e sempre aprendi muito nesse caminho. O Rosa é uma label pequena, um lugar pequeno, mas a gente sempre fez as coisas. Coisas grandes ou não, a gente fez. Foram seis ou sete discos lançados, quarenta shows em 8 meses de Casa Rosa Flamingo, foi uma agitação e uma loucura. Ano passado, essa casa foi vendida e aí a gente transformou o Rosa Flamingo num estúdio. Eu e o Andre Whoong estamos produzindo coisas por lá.

 

Olhando pro cenário cultural, a parte artística é cada vez mais rica. (Também tem muita coisa hype, que não faz sentido ter tanto sucesso, mas a vida é assim, e tudo bem também). Mas tem esse outro lado, da grana, que tá todo mundo assustado com esse governo. É recalque dizer que tá tudo uma merda, não tá. Tem muita gente trabalhando e que tá feliz. E no fundo a gente só tem o agora, temos que lidar com isso.

 

Hoje em dia muito se fala que o público não se interessa mais tanto por um disco inteiro e que é melhor lançar singles para depois compilá-los num álbum. Mas você tem lançado álbuns completos até o “Gaya”, e este ano lançou um single, “Deixa Queimar”. Os CDs ainda resistem, mas perdem força ano a ano, e o vinil permanece, embora não seja exatamente um produto acessível. Qual te parece ser o futuro do 'produto música’?

 

É um futuro incerto, como qualquer futuro. Ninguém viveu lá pra contar pra gente. As redes sociais andam deprimindo muita gente, então eu acho que daqui a pouco elas devem acabar ou ter uma mudança radical. Tem muitos artistas deletando contas, ou tirando todo o conteúdo e recomeçando… Mas eu acho que não dá pra fugir do streaming. A ideia dos singles é boa, assim como a dos álbuns. Talvez apareça gente agora fazendo disco sem lançar na internet, sei lá… coisas alternativas, sabe? Acho o vinil muito bom, mas eu mesma nunca fiz, acho um produto muito caro.

 

A arte tem poder curativo, disso já sabemos. Muitas pessoas se apegam à música, ao cinema, ao teatro para juntar força contra o ódio. A arte já te salvou? Há alguma história vivida por você que exemplifica isso?

 

A arte me salvou totalmente. Eu só comecei a compor porque eu fiquei doente - muito doente. Aos 26 anos, eu tive um tumor no pulmão, uma doença autoimune, e foi compondo que eu me salvei.

 

É preciso ser meio obsessivo pela sua própria arte pra que a coisa aconteça de verdade?

 

É preciso ser obsessiva e meio! Hahaha! Não tem jeito. É tudo muito intenso, visceral. Eu brinco com "meu presidente” (Sergio, presidente da Warner Music) que a minha música é a minha vida, não tem separação, é uma coisa só. Não tem a "Tiê artista" e a "Tiê pessoa". Então não posso dar mole, não posso fazer coisas que não acredito, porque depois quem vai ter que bancar sou eu, sozinha, pro resto da vida. Porque tudo que eu faço vai ficar gravado, não só nos Spotifys, mas na minha história!

 

Você consegue sondar seu inconsciente e me dizer por que você faz música?

 

Faço muito pra me manter viva. A música me mantém acesa. É o que me pulsa e faz meu coração bater. E é o que sei fazer, e espero fazer… eu costumava falar "até aos 88 anos", mas como eles já estão muito perto, agora vou falar "até aos 102".

 

***

 

Leia outras entrevistas da série O Artista em Processo: 

 

Rodrigo Campos

Fantastic Negrito

Erlend Oye

Letrux 

Mallu Magalhães 

Tim Bernardes

 

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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