A volta do Ave Sangria

A banda pernambucana de rock psicodélico que estreou em 1974 e foi barrada pela ditadura lança novo disco


Paulo Rafael, Almir Oliveira e Marco Polo (Foto: Flora Negri)

 

Rio de Janeiro, 1974. Foi nesse ano que os garotos do Ave Sangria gravaram o seu primeiro disco para logo depois serem interrompidos pela censura da ditadura militar que mostrava a falta de senso de humor para lidar com as letras da banda psicodélica vinda diretamente de Recife e que influenciaria toda uma geração no Nordeste.

 

Quarenta e quatro anos depois, a banda retornou ao estúdio, gravou e lançou no final de 2018 o disco que ficou engasgado em sua história, Vendavais. O velho-novo trabalho traz os veteranos Marco Polo, Almir de Oliveira e Paulo Rafael, mais os novatos Juliano Holanda (baixo), Gilu Amaral (percussão) e Júnior do Jarro (bateria). No repertório, músicas compostas entre 1969-1974 que, como nos conta Marco, seguem muito atuais.

 

O álbum mescla faixas mais acústicas (“Ser”, “Marginal”, essa uma canção já conhecida do público) a outras mais rocks (“Vendavais”, “Dia a dia”, “O poeta”, “Sete Minutos”), todas compostas por Marco e Almir. Duas são exceções: “Barrás, o grávido” foi composta pelo baterista Israel Semente, um dos falecidos membros do grupo (os outros são o guitarrista Ivinho e o percussionista Agrício Noya), e “Em Órbita”, faixa instrumental, é assinada por Paulo Rafael.

 

Agora, de volta aos holofotes e em um contexto musical totalmente diferente, parar não está mais nos planos da banda. “A ideia é seguir em frente. Como se não tivesse havido esse hiato de 45 anos. Queremos continuar fazendo shows e produzindo álbuns”, diz Marco, que tem uma frase para definir este momento de retorno: “Estamos fazendo uma música necessária num momento desnecessário”. Abaixo, você confere nossa entrevista com ele.

 

Vocês estão lançando um material inédito após 45 anos, com músicas compostas entre 1969-1974. O que essas músicas do passado dizem sobre hoje? Por que não lançar novas?

 

Marco Polo - Temos músicas novas, composições novas, mas queríamos dar continuidade ao primeiro disco em temática e em sonoridade. Também achamos que estas músicas são atuais. Até porque a situação é parecida. Lançamos o primeiro álbum debaixo de uma ditadura. Lançamos o segundo num momento em que a extrema direita está se assumindo sem vergonha e tentando tomar o poder, não só no Brasil, como em vários outros países, basta ver os Estados Unidos. Fazemos um rock nordestino que ao mesmo tempo é de entretenimento e de estranhamento. É um trabalho que desafia as pessoas a pensarem, questionarem as coisas do mundo, assumirem seu senso crítico, desenvolverem o desejo e a capacidade de diálogo, em contraponto à intolerância e ao radicalismo.

 

Lá pelos idos de 1974 vocês gravaram o primeiro disco meio às pressas. Foi coisa de 5 dias. Como foi essa experiência de gravar agora, com tanta novidade tecnológica à disposição?

 

Marco Polo - O primeiro disco foi gravado às pressas, sem experiência e com um produtor cheio de boa vontade, mas que não entendia o rock pesado que a gente fazia. Mesmo assim resultou num disco que permanece até hoje na memória afetiva das pessoas, principalmente dos jovens, acho que graças à qualidade das letras, das melodias e dos arranjos. Dessa vez foi tudo positivo. Não tivemos limitação de tempo para gravar, nem limitação de tempo para a duração das músicas. Entramos no estúdio muito mais maduros e experientes e com um produtor que fala a nossa língua autoral. Sem falar na tecnologia de ponta que ficou à nossa disposição. Outros tempos, outras palavras.

 

 

 

Como foram esses anos sem a banda até o reencontro em 2008? Vocês se dedicaram a outras atividades, cogitaram não tocar mais?

 

Marco Polo - Nunca abandonamos a música. Eu, pessoalmente, embora tenha retomado minha carreira de jornalista, continuei compondo e fazendo shows, sozinho ou com outras pessoas. Participei do Projeto Pixinguinha fazendo show de abertura para Nara Leão, aqui no Recife. Fiz turnê pelo Projeto Pixingão com Belchior pelo Rio de Janeiro, Salvador, Recife, João Pessoa, Maceió e Fortaleza. Participei de dois discos do projeto Asas da América – Frevo. Tive músicas gravadas por Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Teca Calazans e Zezé Motta, entre outros.

 

Quando foi que vocês tiveram esse clique de "é hora de voltar"? Como foi viabilizar tudo isso?

 

Marco Polo - O produtor (e músico) Marco da Lata entrou com um projeto junto ao Funcultura e viabilizou o relançamento do disco “Ave Sangria” em vinil e CD, o lançamento da gravação do show de despedida “Perfumes & Baratchos”, também em vinil e CD e ainda um show no Teatro de Santa Isabel, em 2014, comemorativo justamente dos 40 anos daquele show. Foi quando nos juntamos eu, Almir de Oliveira, Ivinho e Paulo Rafael para trazer a banda de volta. Os shows anteriores, de 2008 até então, eram feitos apenas por Almir e eu, e a gente não se autodenominava com o nome da banda, mas sim como Marco Polo canta Ave Sangria.

 

O primeiro disco de vocês foi proibido pela Censura Federal da ditadura militar, sendo recolhido das lojas e das rádios. O retorno da banda hoje acontece em mais um momento delicado, de conservadorismo. Como vocês veem esse cenário?

 

Marco Polo - Estamos fazendo uma música necessária num momento desnecessário.

 

Vocês se lembram da sensação que tiveram ao serem censurados em 1974? “Seu Waldir” era pra tanto?

 

Marco Polo – Demorou um pouco até a ficha cair. Mas depois foi uma depressão geral. Uma decepção. Naquela época era dificílimo gravar um disco por uma gravadora forte, principalmente morando no Nordeste. Nós conseguimos isso e logo depois isso nos foi roubado. Alcançamos o auge e logo em seguida caímos no abismo. Foi traumático. “Seu Waldir” não merecia isso, é apenas uma brincadeira provocativa. Mas os conservadores não têm senso de humor.

 

Uma curiosidade: qual é a história da música “Seu Waldir”?

 

Marco Polo - No início dos anos 1970 eu morava no Rio e namorava uma atriz que fazia parte do elenco da peça “A vida escrachada de Joana Martinez e Baby Stompanato”, estrelada por Marília Pera. Era um musical e ela cantava várias músicas. Um produtor da Som Livre assistiu ao espetáculo e convidou Marília para gravar um disco. Ela sabia que eu era compositor e me pediu uma música. Fiz “Seu Waldir” pra ela cantar, dentro do espírito debochado e paródico da personagem que ela vivia na peça. Mas de última hora ela desistiu do disco. Fiquei com a música na mochila até resolver cantá-la eu mesmo afim de afrontar o machismo pernambucano. Daí eu próprio espalhei que Seu Waldir era um português dono de um bar em Olinda. E as pessoas saiam de carro à noite procurando o bar de Seu Waldir. Virou lenda.

 

 

Vocês, Zé Ramalho, Lula Côrtes, entre outros artistas, formaram ali uma cena pioneira da nossa psicodelia. Qual foi a maior contribuição daquela geração Nordeste 70 para a música brasileira?

 

Marco Polo – Foi uma geração brilhante que rendeu discos antológicos como “Satwa”, de Laílson e Lula Côrtes; “No Sub Reino dos Metazoários”, de Marconi Notaro; “Flaviola e o Bando do Sol”, de Flaviola; “Paebiru”, de Lula Côrtes e Zé Ramalho. Todos independentes.

 

O que a psicodelia brasileira teve de bom depois de vocês?

 

Marco Polo – Pelo menos aqui no Recife há um movimento neo-psicodélico, com bandas excelentes como Tagore, Semente de Vulcão, Dunas do Barato, Anjo Gabriel.

 

Por que a escolha de “Vendavais”, uma das novas faixas, para dar nome ao disco?

 

Marco Polo – Achamos que ela resume nossa postura diante da realidade atual. E é um nome que além de poder guardar vários significados, é sonoro. Afinal o que nós produzimos é som.

 

Como é fazer esse trabalho, tocar junto e olhar para o resto da banda e não ter os outros 3 integrantes ali, com vocês? Essas músicas tiveram a participação deles em alguma melodia, composição?

 

Marco Polo – Pessoalmente não sou nem um pouco nostálgico. Vivo intensamente o presente. E acredito que os outros membros originais da banda também. Claro que sentimos falta dos nossos amigos que morreram. Mas a melhor maneira de mantê-los vivos e homenageá-los é seguindo em frente. Esse novo álbum tem várias referências cifradas a Ivinho, Israel Semente e Agrício Noya. Eles permanecem no nosso trabalho.

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem, e do blog Quadrinhas, sobre quadrinhos feitos por e sobre mulheres.

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