A festa da vida real do Supervão

O trio gaúcho lança seu primeiro disco, Faz Party, após dois bem sucedidos EPs

A banda Supervão (Foto: Kim Costa Nunes)

 

Beats de música eletrônica e experimentalismos unidos a melodias e ritmos brasileiros, distorções do rock e indie psicodélico. Foi um pouco do encontro de todas essas referências que a gente se acostumou a ouvir no som do trio gaúcho Supervão em seus dois EPs, ‘Lua Degradê’ (2016) e 'TMJNT' (2017).

 

Agora, Mario Arruda, Leonardo Serafini e Ricardo Giacomoni dão um novo passo e lançam seu primeiro disco, ‘Faz Party’. A banda descreve o trabalho como “um disco que nos estimula a imaginar, e que desde a primeira faixa, Toneladas, nos impulsiona a encontrar nossa potencialidade. Ao abrir caminhos, tudo torna-se disponível bem à nossa frente”.

 

É um disco que nos convida para a pista, nos leva para uma viagem por diversas questões do hoje e do amanhã, mas sem tirar os pés do chão. Os dois primeiros singles - 'Sol do Samba' e 'Social Animal' (veja o clipe abaixo) - são ótimos cartões de visita do disco. Mas há ainda a delicada 'Carro dos Sonhos', que empresta de um vendedor ambulante o preço de um sonho nessa nossa rotina de sonhar, e 'Cor Guia', uma canção sobre o desemprego com clima de fim de carnaval e que eles definem como um "Fellini com atabaques e beats".

 

Bem cotados na cena independente e com vários festivais no currículo, o trio agora quer ganhar corpo. Quer tocar mais, mais estrada, mais troca. “A maioria das expectativas que tínhamos sobre fazer música já foi alcançada. Para nós, tudo isso que está acontecendo já é uma grande surpresa”, diz Leonardo.

 

O Azoofa bateu um papo com a banda, que falou sobre o disco, composições, encontros e alguns devaneios. 

 

Como vocês três se encontraram para formar o Supervão?

 

Ricardo: Cada um de nós participava de produções culturais e bandas diferentes no momento da formação, ou vamos dizer o que seria o embrião de formação da banda. O Leo e o Mario eram emo em São Leopoldo e já tinham formado algumas bandas. Posteriormente, eu e o Mario nos conhecemos na faculdade de Comunicação e começamos produzir umas festas juntos, que uniam uma cena artística local de Porto Alegre e região. Nesse entremeio ele me apresentou o Leo que tocava na Siléste. Em 2015 eles formaram a Supervão e me convidaram em 2016. Mas acho que foram vários encontros em festas, shows e acontecimentos de uma cena que foram estreitando e compartilhando ideias para formação da banda. Faculdade, adolescência, roles, o que faz as vidas se encontrarem sem muito saber como.

 

A banda nasceu em São Leopoldo. O que vocês podem contar pra gente da cena musical de lá, como ela ajudou vocês a encontrarem um caminho pra fazer música?

 

Leonardo: Quando comecei a frequentar a cena musical de São Leopoldo, pela metade dos anos 2000, já não existiam muitas bandas autorais na cidade e os espaços considerados mais clássicos do "imaginário" da cena underground já não existiam ou estavam em sua fase final. Mesmo assim, quando estava formando minhas primeiras bandas consegui assistir a shows da Viana Moog, de São Leopoldo, que me apresentou para uma estética de arte muito específica da cidade. Foi a partir disso que comecei a frequentar e buscar outros shows que vinham para a região metropolitana de Porto Alegre. Lembro que nessa época íamos em todos os shows que apareciam da Superguidis e gostava bastante das bandas Stratopumas, Pública, Space Rave e Damn Laser Vampires.        

 

O Supervão tem 2 EPs muito elogiados. Qual a sensação de lançar um disco completo agora? 

 

Ricardo: Frio na barriga. Produzir e lançar esse disco é um dos passos mais importantes que demos até agora, inclusive porque um disco parece exigir que tenhamos uma ideia estética que componha uma vibe mais comum entre faixas, o que num EP parece ter uma proposição mais experimental. De qualquer forma, tentamos manter algo dessa experimentação de misturas e disponibilidade de vibes e atmosferas, para também compor esse disco. Sobre a sensação, pode-se dizer que é de alegria, ainda mais porque conseguimos convidar e fazer parcerias com muitas amizades. Com o aporte da Natura e a Lei de Incentivo à Cultura conseguimos proporcionar uma curadoria afetiva para a estética do disco com artistas visuais, diretores dos clipes, assessoria de imprensa, fotógrafos, enfim, uma rede que está lançando o disco junto com a banda.

 

 

Esse disco representa que passo pra vocês?

 

Leonardo: Como o Ricardo falou é o nosso momento mais importante até aqui, mesmo que isso não queira dizer muita coisa, ou melhor, mesmo que ainda não saibamos o que isso significa. O momento é de continuar tentando tocar, revisitar cidades que já passamos e aos poucos tentar aumentar o nosso alcance. A maioria das expectativas que tínhamos sobre fazer música já foi alcançada, para nós tudo isso que está acontecendo já é uma grande surpresa e nos gera muita felicidade. 

 

O que mudou na forma como vocês veem e fazem música desde o início da banda, lá em 2015?

 

Ricardo: Essa pergunta produz aquele flashback que recorta os momentos que muitas vezes parecem estar muito aglutinados. Porém, acho que alguns aspectos se mantêm e outros foram se alterando a partir dos lançamentos e como a vida vai passando, sabe? Talvez o caráter em tentar produzir composições que levem mais em consideração o que sentimos e achamos legal, sem levar em consideração algum purismo em relação a forma e conteúdo de gêneros musicais é algo que atravessa esse fazer e ver a música desde 2015. A maneira como compomos é bem diversa e talvez nos dois EPs anteriores experimentamos alguns modos mais estáticos, por assim dizer.

 

O modo de compor mudou com o tempo?

 

Ricardo: No 'TMJNT' (2017) as composições pareciam vir mais dos beats e do que era feito na programação musical, e depois inseridos os outros elementos. No 'Lua Degradê' (2016) elas partiam mais de alguns riffs ou melodias, e depois iam se inserindo os elementos eletrônicos e digitais. No 'Faz Party', as composições que foram surgindo misturaram os elementos e modos anteriores dos EPs, mas com novas modalidades: uma canção no violão, uma percussão tocada que agencia e convida instrumentos que também não estávamos habituados a utilizar, o canto de um passarinho ou o barulho de uma cachoeira. Nesse sentido, há o que se repete em alguns elementos e maneiras de ver e fazer, mas também mantendo a disponibilidade e o convite que a diferença se insira nessa repetição, e assim em diante.


 

Desde o nome à vibe das faixas, o disco aborda muitos questionamentos sobre o mundo de hoje, um pouco desse lugar para onde estamos indo, o futuro, mas é um convite ao soltar-se, desatar-se. Mas essa foi minha impressão. Sobre o que é o Faz Party?

 

Ricardo: O início da pergunta parece respondê-la (risos),  pois me parece que o disco, e o que é condensado pelo seu título, aborda o questionamento do que vem a seguir, e que também motive uma  disposição e disponibilidade  para enfrentar através de uma alegria subversiva que não ignora o que dela também é tristeza. Incluir o que compõe um acontecimento contemporâneo como agenciador de sua existência, de seu momento, como coexistência, afinal é o que temos, mas isso não impede que algo seja possível mesmo quando parece que se tem um deserto ao redor, afinal uma miragem não é algo de irreal, mas de possibilidade de realidade. Dessa mesma maneira, o fazer parte é poder estar junto, coletivizar experiências e vivências, imprimir uma tendência em produzir coletivos, por meio das festas, encontros, da dança, da música e da cultura.

 

 A capa do disco Faz Party

 

O disco foi gravado em 2018. Vocês fizeram alguma pausa pra compor ou tudo foi rolando em meio aos shows?

 

Ricardo: Depois do lançamento do TMJNT continuamos o processo de gravação no home studio, em São Leopoldo, mas sem pensar em um disco propriamente dito, mas sabendo que ele viria haha. Mas era algo de composições sobre o momento que vivíamos, as experiências que íamos atravessando no âmbito individual e coletivo. Acho um processo bem análogo ao que acontece com o processo de composição de cada faixa e música, seria algo que replica a atmosfera do todo do disco na partícula sonora de cada party. Tivemos algumas participações que fazem parte do acaso, bem de acordo com os encontros que aconteciam no estúdio, que por ser em casa parece ter um convite que se faz a todo momento, um anfitrionismo aos momentos conjuntos. E acho que a participação não é apenas de quem grava ou compõe, mas de quem tá junto naquele momento, os pássaros que cantam, a visita inesperada de algum parente.

 

Leonardo: Uma coisa que nós não somos bom é em planejamento e organização, então não paramos com outros compromissos para focar somente na composição do álbum, o que fez bastante sentido, pois ao mesmo tempo que íamos compondo em nosso home studio, levávamos em algum nível as experimentações para os shows e fazíamos testes. Somente no primeiro semestre deste ano conseguimos parar e focar na finalização do álbum, isso aconteceu também por causa do apoio que chegou com a Natura Musical, que nos possibilitou agilizar esse processo, pois organizar o lançamento de um álbum completo acaba ocupando um bom tempo e envolvendo várias outras  pessoas além da banda. 

 

Pra quem nunca ouviu o Supervão, que faixa desse disco vocês sugeririam ouvir e por quê?

 

Leonardo: Sugiro ‘Social Animal’, por causa da chance de ser abduzido.  

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem, e do blog Quadrinhas, sobre quadrinhos feitos por e sobre mulheres.

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